“A maldição dos Dain” | Dashiell Hammett

“A maldição dos Dain” | Dashiell Hammett

Thriller em três atos

Publicado pela primeira vez em livro no final da década de 1920, e anteriormente exibido em fascículos na Black Mask – revista de características pulp norte-americana –, “A Maldição dos Dain” (Porto Editora, 2014) é um dos mais emblemáticos livros de Dashiell Hammett, que chegou recentemente aos escaparates.

Tido, justamente, como um dos fundadores do romance policial noir, Hammett fez escola enquanto escritor depois de uma infância repleta de experiências nas ruas de Filadélfia, tendo mesmo desempenhado a função de detetive privado na agência Pikerton antes de atingir os 20 anos.

Através da figura de Continental Op, um detetive durão que trabalha ao serviço da Agência Continental, Dashiell Hammett conta, na primeira pessoa, uma intrincada trama onde está bem patente um retrato da sociedade norte-americana dos anos 1920, com destaque para os seus vícios e “virtudes”.

Este thriller, contado em três diferentes atos, centra-se na vida de Gabrielle Dain Laggett, uma jovem extremamente cativante junto dos homens – apesar da sua peculiar aparência -, viciada em morfina e em cultos religiosos. Aparentemente, quem a rodeia sofre de uma espécie de violenta maldição: quem ousar penetrar no seu circuito íntimo vê-se arrastado para a morte.

O jogo começa depois de Continental Op ser chamado a intervir num misterioso roubo de diamantes pertencentes à família Leggett. Tendo como cenário São Francisco, o detetive tenta desvendar uma estranha teia de roubos, mentiras e assassinatos. No meio da investigação, Op descobre a ligação de Gabrielle à seita do Santo Graal, que promove verdadeiras cenas de Hollywood de forma a cativar seguidores, bem como para resolver questões que se assumem de vida ou morte. À medida que a investigação decorre fica a dúvida: será que a maldição familiar existe de facto ou estamos perante algo muito mais humano e fatal?

Através de um crescendo emotivo em forma de delicado puzzle, onde o sangue é um elemento assíduo, Hammett vai apresentado personagens como cientistas à beira do colapso nervoso, famílias “unidas” pela desgraça e interesse, deuses com pés de barro, escritores manipuladores, gente desconfiada da sua imagem refletida no espelho e uma miríade de personagens em carrossel, bem como uma América violenta onde as armas são a solução mais acessível e definitiva para os problemas.

Ao longo das três partes deste romance – “Os Dain”, “O Templo” e “A Estrada da Falésia” – existem personagens e “protótipos” que marcam os acontecimentos, tornando-se no maior atrativo deste livro. Se Continental Op é dono de uma linguagem descritiva e serve de fio condutor a todo este romance, Gabrille é, aos 20 anos, uma “femme fatale”, inebriada pelo efeito da morfina que, enquanto o mundo desaba à sua volta, se refugia num passado que justifica qualquer tipo de atitude por mais descabida que aparente ser. Já o escritor Owen Fitzstephan é a caricatura do novelista – e por que não dizê-lo do próprio Hammett – que, através de um raciocínio “lógico”, tenta desmantelar um estranho enigma; os seus diálogos com Op revelam-se autênticos pontos de situação de um livro repleto de voltes de face e reviravoltas.

Uma palavra para a sátira que é feita em volta da seita do Santo Graal, que revela o sentido crítico que muitos atribuíam a um país cuja descrença na religião tradicional se virava para cultos profícuos, em soluções alternativas para todos os males e maleitas cuja concretização tinha como base uma fé estritamente associada ao vil metal. Mais uma vez, Dashiell Hammett não perde a oportunidade para diabolizar sociológica e psicologicamente a sociedade da época.

Ainda que longe da subtileza de obras como “O Homem Sombra”, também ele recentemente lançado pela Porto Editora, “A Maldição dos Dain” é um romance clássico aconselhadíssimo a todos os amantes de um bom policial, especialmente aos leitores que apreciam a presença de alguns tiques de um acutilante “soft gore”. O ambiente é sedutor e a ação é uma constante, enquanto se avança face a um mistério repleto de teorias circulares e assentes em sucessivas camadas onde a razão e a insanidade são inseparáveis.



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