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A minha noite em Nova Iorque

Flashing Lights. Percorrendo a noite pelos 5 boroughs, Brooklyn, Queens, Staten Island, Manhattan, Bronx...aprender a amar a surpresa.

Ali estava entre os maiores gangsters de Brooklyn. Como aqui cheguei perde-se nas páginas de uma possível futura autobiografia. Uma noite de Inverno, muita neve lá fora e as habituais peripécias e cervejas de um serão em Nova Iorque. Este é o ponto de partida. Escolhem-se músicas na jukebox, fazem-se apostas sobre resultados do Superbowl, joga-se póquer a dinheiro. Assisto a jogos de futebol americano dos quais não percebo nada, nem tenho intenção de algum dia vir a perceber.

Oiço planos para o resto da noite. Salta o nome de um strip club manhoso, uma casa de bowling aberta até às 5 da manhã, duas house parties, uma after party de alguma banda, outros bares próximos. Não há procura, é abafada pela oferta. Neste mesmo espaço, estudantes de Oxford, empresários, médicos, artistas plásticos, actores e jornalistas. Alguns trocam impressões, os sotaques denunciam, são todos de outro lado qualquer.

Como arrumar o mundo dentro de uma pequena ilha, encaixar espaço e tempo entre 8 milhões de almas? Multimilionários, imigrantes ilegais, veteranos do Vietname, celebridades, pregadores de religiões mil, turistas, gentes de todo o mundo, todos procuram um espaço. A noite une os quadrantes mais díspares. Cada sonho, anseio, desejo, ilusão, medo e inquietude está presente, respira-se nos espaços comuns. A busca de sentidos faz com que os limites da imaginação sejam ultrapassados. Sair à noite em Nova Iorque é ter à disposição uma vasta oferta cultural e um mundo de oportunidades.

Nova Iorque não tem noite, tem noites. Milhões de luzes a desenham no horizonte. Na verdadeira capital do mundo, no meio de tantos rostos, é como se cada pessoa fosse um espelho e nela víssemos um pouco de nós. Todos carregam consigo a história do mundo. Vidas que estranhamente se completam. Cultivam o carinho pelas origens ao se inserirem num todo. Trabalham, vivem, sobrevivem, existem, lutam, criam, são Nova Iorque.

O lado negro da cidade está, ao mesmo tempo, presente em cada esquina. O desfazer de novelos de ilusões na quimera do sonho americano. Uma luta alimentada numa subjacente e silenciosa negociação entre a noite e o dia. Quem vence fica. Quando a vontade é mais forte, há ilusões que tomam forma no lugar onde tudo pode acontecer.

No entrelaçar da noite com o dia, podemos escolher um espectáculo da Broadway, algum show de stand-up comedy, uma galeria de arte que ofereça um bom vinho ou até assistir a uma peculiar leitura de poesia/prosa de algum novo talento (Bowery Poetry Club, Nuyorican). Há sempre algo a acontecer. Mesmo que não se saiba, sente-se.

As House Parties são comuns. Apesar de serem de naturezas várias, temáticas ou não, é importante saber se acabam à meia noite ou começam às quatro da manhã. Com brasileiros e colombianos, é frequente o brotar de umas inspiradas jam sessions a altas horas. Dançando ritmos latinos ao desafio numa qualquer sala de estar, trocam-se parábolas e fábulas com bons contadores de histórias. Entre copos de vinho, estamos em terras das quais nunca antes ouvimos falar, com pessoas mágicas e epopeias que nos prendem a um discurso colorido e expressivo no seu abarcar de toda a acção de uma só vez.

No Upper East Side destaco o meu antigo “bar de bairro”, o Ryan´s Daughter. Um bar irlandês, com bartenders irlandeses e onde se bebe bastante. Sempre os mesmos rostos, histórias de vida partilhadas, vizinhança, gente que vem de longe só porque se sente parte desta pequena e heterogénea família. À tarde, o que parece um hangout de Terceira Idade. A bartender, Rose, 84 anos, vive neste bairro desde os anos trinta e viu a cidade crescer e metamorfosear-se com novas gentes e roupagens. Octogenários com vidas riquíssimas, do tempo do Rockerfella, dos refugiados da Segunda Guerra Mundial, dos amores cultivados por carta.

Um dos mais antigos bares e um dos ex-libris de Brooklyn, o Black Betty. Com noites temáticas, a cada dia da semana corresponde algo diferente. Aos domingos, o Brazilian Beat, música brasileira dos anos 70 pelas mãos de um DJ que aprendeu o português dos discos com que foi educado em criança. Hoje é Greg Caz que traduz todas aquelas letras ao pai e encanta ao falar a língua através da qual aprendeu a ouvir música.

Em Manhattan, na West Village, o mítico Arthur´s Tavern. Nas mesmas paredes de que suam a história da cidade, ecoam algumas vozes de outros tempos. Todas as noites a música ao vivo enche o bar e, sem cerimónia nem formalidade, embriagados e sóbrios são embalados ao mesmo ritmo. A decoração não muda, aqui todos os dias é Natal, sorrisos sempre rasgados, uma grande e omnipresente bartender arco-íris, o cenário perfeito do que se espera num velho bar de blues.

Duas ruas abaixo, o Fat Cat. Uma cave grande e espaçosa onde cabem muitas mesas de snooker, ping-pong, sofás, um palco improvisado. Os músicos chegam e tocam, trocam, experimentam, conhecem-se, aproveitam para jogar uma partida de xadrez confortavelmente instalados em velhas poltronas. Alguns estão a fazer tempo antes dos concertos do Blue Note começarem.

Na parte antiga da cidade, o fantasma da Nova Amesterdão, onde em cada pedra da calçada pisaram certamente alguns dos mais célebres escritores dos últimos séculos. Alguns velhos beatniks ainda se juntam no Back Fence.

A Greenwich Village e o Lower East Side são ideais para quem gosta de saltar de bar em bar. As ruas compõem-se de todos os gostos. O Dark Room e o Motorcity são boas opções qualquer que seja o dia da semana.

Ao entrarmos num bar tudo pode acontecer. Como entrar no início de uma cerimónia religiosa num bar de punk rock (onde se dão rebuçados para que se fique até ao fim) ou interromper uma sessão de speed dating lésbico.

No meio de uma série de restaurantes na East Village, o Lit é um lugar especial. Um ambiente escuro, uma cave onde se pode fumar, uma sala VIP, duas pistas de dança, rock n roll. Festas privadas, venue de alguns concertos, surpresas todas as noites. Arranca-nos gargalhadas estridentes, suspiros, confissões, noites únicas. Um ponto de partida, um ponto de chegada, aqui se acaba, aqui se começa, aqui se continua. Nas mais variadas aventuras, algo em comum, o Lit. Convites para festas em piscinas em Union Square, convites para after parties em autocarros de luxo ou simplesmente uma soiree até à hora de almoço do dia seguinte.

Verão e Inverno mantém uma interminável oferta. Em dias mais quentes, memoráveis são os cruzeiros à volta da ilha, os serões no Bryant Park, no Central Park, no McCarren Park e outros. As afamadas festas nos telhados que duram até o sol nascer. Os rooftops de vistas magnificentes sobre Manhattan são responsáveis pelas mais belas memórias fotográficas desta cidade que pouco dorme.

No meu bairro, Williamsburg, Brooklyn, numa familiaridade única, são frequentes os churrascos no meio da rua. Até bem tarde, a música muito alta, a fumaça da grelha e um latino e generoso ambiente de festa que o calor traz.

Um dos grandes encantos da cidade é sabermos que seremos eternamente surpreendidos. Alguém me disse um dia que só podemos amar aquilo que nos surpreende.

Não creio que tenha mencionado os lugares habituais dos folhetins de um guia turístico. Nova Iorque não tem noite, tem noites. Esta é a minha Nova Iorque quando a lua vai alta.



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