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A minha rua…Macau

NAPE & ZAPE combinam com a herança portuguesa no Oriente...

Um território repleto de contradições. Que desencadeia sentimentos de ódio e amor, quase ao mesmo tempo. Assim é Macau. Lembro-me perfeitamente do dia em que pela primeira vez meti os pés nesta Região Administrativa Especial da China. Vinha ansiosa, cheia de esperança e múltiplos receios. Quando estava praticamente a chegar, de barco, no meio da escuridão, vi os néons de um casino a piscar. Temi. Senti que tinha entrado num universo que não era o meu. Na manhã seguinte, porém, a cidade parecia diferente. Os estabelecimentos de jogo ainda se viam, mas as suas luzes estavam adormecidas. Sob um sol quente e luminoso, Macau ganhou outra cor. Quis caminhar e descobri-la.

Parti do Largo do Senado, a praça central do território, onde ainda se encontram vários edifícios de arquitectura colonial. Pisando as pedras da calçada portuguesa, percorri uma das ruas perpendiculares. Fui esbarrando em lojas de cadeias ocidentais, sapatarias, casas de chás e tascas chinesas.

De súbito, deparei-me com a Livraria Portuguesa. Entrei. Acabada de vir de Lisboa, os preços pareceram-me exorbitantes. Mesmo assim, não deixou de ser interessante encontrar um local daqueles em terras da China, especialmente tendo em conta que os números oficiais referem-se a não mais do que dois mil portugueses – potenciais clientes – em Macau. Pensei, na altura, que aquele estabelecimento deveria ter uma importância mais simbólica do que comercial.

Continuei o meu caminho e fui ao encontro de um edifício colonial, em tons de cor-de-rosa e branco, onde se situa a sede da Casa de Portugal – associação que defende os interesses da comunidade lusa. Do lado oposto da rua, vi um palácio, onde estava erguida a bandeira de Portugal – edifício que alberga, em simultâneo, o Instituto Português do Oriente e o Consulado.

Perdendo-me nas vielas que cortam aquela rua, o cenário tornou-se muito mais chinês. Cruzei-me com inúmeras lojas, tascas e edifícios não tão polidos, mas ainda com algumas influências da arquitectura portuguesa. Apaixonei-me imediatamente. E, hoje em dia, essa zona, em torno do Senado, juntamente com o bairro de São Lourenço, são os meus pontos favoritos de Macau. Pela abundância de templos, igrejas, tascas e mercados.

Saindo do centro da cidade, em direcção ao NAPE e ao ZAPE – zonas mais recentes construídas em cima de aterros -, encontrei algo muito diferente. Edifícios altos, de mais de 20 andares, sem qualquer interesse arquitectónico, onde moram e trabalham centenas de pessoas. Mal conseguida, posiciona-se entre o moderno e o desajeitado. A pender mais para o desajeitado.

Nem tudo, porém, é cinzento no NAPE. Pelo meio, encontram-se algumas áreas verdes, como, por exemplo, o Jardim das Artes. Que ainda há pouco tempo teve destaque na imprensa local. Parece que seis das oito esculturas metálicas, da autoria do artista José de Guimarães, desapareceram durante as obras de construção de um casino. E nunca foram recuperadas. Um daqueles mistérios à Macau.

Esse meu primeiro passeio deu lugar a muitos outros. E, ao longo de dois anos, percebi que Macau é uma cidade de contrastes. Que atraem e, simultaneamente, repugnam. Onde se vê o moderno e desajeitado, em oposição ao antigo e cuidado. O castiço versus o enfadonho.

Adoro entrar em qualquer um dos templos chineses – taoístas e budistas – que convivem pacificamente com as igrejas católicas. São espaços maravilhosos, com uma aura mágica. Locais onde se encontram várias réplicas de deuses e onde se ora aos antepassados, queimando incenso. E o cheiro. Até arrepia…

Se pensar no cotai – istmo que ligava as ilhas de Coloane e Taipa, mas que agora é mais uma “strip”, ao género de Las Vegas -, ou nos 31 casinos espalhados pela cidade, essa aura mágica dissipa-se. Mas, admito, também ali se vêem contrastes. Há espaços exuberantes e loucos, como o Grand Lisboa – enorme, dourado, em forma de flor de lótus – e outros mais sóbrios, como o Crown.

Longe da confusão e da construção desenfreada da península, está Coloane – considerado o pulmão da cidade. Ali ainda não há casinos. As casas dos pescadores e os espaços verdes preenchem a paisagem. Sente-se o cheiro a maresia. Respira-se sem esforço. Um verdadeiro refúgio do rebuliço.

Em dois anos assisti a várias transformações. Que, aqui, ocorrem a uma velocidade louca. E reflectem-se na (in)definição dos contornos da cidade, com centenas de edifícios sem qualquer relação uns com os outros a serem construídos. Sempre em função dos interesses deste ou daquele empresário.

Já assisti à abertura de cinco casinos, incluindo o Venetian – o maior do mundo, dizem -, vários edifícios habitacionais e de luxo. O Farol da Guia – o símbolo da cidade e único na Ásia -, apesar da onda de protestos, está quase tapado pelos edifícios altos que se foram construindo.

E a Livraria Portuguesa, da qual me tornei cliente assídua? Parece que vai ser vendida a um particular e deixa de pertencer ao Instituto Português do Oriente. Uma decisão que tem sido contestada pelos representantes da comunidade lusa radicada no território. Alegam que é mais um sinal do abandono de Portugal.

Quanto a mim, continuo por aqui. Assisto às mudanças. Ouço as histórias passadas, presentes e futuras, contadas pela boca de macaenses, chineses, filipinos, tailandeses, portugueses, americanos e australianos. Chego mesmo a escrever sobre elas. Mas, no fundo, apenas desejo que não destruam os templos, as tascas e as lojas tradicionais chinesas. Para continuar a passear, ignorando os néons.



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