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A minha rua… Lituânia

Hugo Bermejo decidiu emigrar. Ir e não (pensar em) voltar.

Hugo Bermejo nasceu em Lisboa há 30 anos e fez a trouxa para a Lituânia há sete, por contingência do programa Erasmus e da Gestão. Para cá regressou, mas para lá voltou, já com consciência de causa, risco e futuro.

Escolheu um dos países Bálticos por ser Europa distante, e por ter uma cultura e língua diferentes, onde pudesse evoluir, aprender mais e conhecer coisas diferentes, sem estar rodeado de portugueses. Quis encontrar um mundo novo, e aterrou.

Impelida por um movimento anti-comunista, a Lituânia foi a primeira república soviética a proclamar a sua independência da União Soviética, em 1990. O país autónomo, com pouco mais de três milhões de habitantes, é membro da União Europeia desde 2004, e fala uma das línguas mais arcaicas da Europa.

No outro lado da Europa, Hugo Bermejo estudava Gestão, em Lisboa, trabalhava na Culturgest, produzia eventos e agarrava outros biscates pelo meio. Saía à noite, gastava muito dinheiro e perdia muito tempo pelo Bairro Alto, e queria sair de Portugal durante uns anos, sem sair da Europa.

O programa Erasmus mandou-o para Kaunas, na Lituânia, onde estudou, fez amigos, aprendeu a decifrar parcialmente a língua e conheceu a actual namorada, com quem partilha a paternidade da Kaia, há dois anos.

Ainda retornou a Portugal, findo o período de Erasmus, com tudo o que tinha ganho lá na bagagem, para tentar uns tempos. Mas a adaptação feminina foi mais complicada e as saudades dos dela, aliadas ao desprendimento e à vontade de mudança dele, falaram mais alto. De volta à Lituânia, desta vez para a capital, Vilnius.

A adaptação ao país não tem sido fácil, mas também “não é nada do outro mundo. Não me sinto adaptado a 100%, e nem quero. Sou português e vou continuar a ser sempre. Se perder muito tempo a tentar perceber (os lituanos), a tornar-me um deles por completo… vou acabar completamente depressivo! Não vale a pena. Decidi não ligar tanto às diferenças culturais”, tranquiliza-nos.

Já o clima, lá, não é pêra doce. Pelo menos “diz que não”, se gostarmos do nosso, e o compararmos aos 25º C negativos que chega a atingir durante os quase dez meses de Inverno, à instabilidade do Verão que lhe sobra, e à ajuda frequente da chuva, de onde provém, aliás, o nome original do país: Lietuva.

Mas eis que, “para mim foi fácil adaptar-me ao clima. O primeiro ano foi duro, mas a partir daí comecei a habituar-me. O frio e a chuva já não me incomodam, e a neve até é exótica. A falta do sol… isso sim! Mas a eles também”.

Hugo assumiu antes a dificuldade no ajuste com personalidades e diferenças culturais entre portugueses e lituanos. “Vilnius é uma cidade muito mais pequena que Lisboa [cerca de 600 mil habitantes], e há certo tipo de diferenças a que não consigo adaptar-me. A comida não é assim tão diferente da nossa, mas aqui não há o hábito, por exemplo, do ‘cafézinho’ com os amigos… O café do bairro. E há muita ‘gente do campo’. Diferenças que nem vale a pena tentar mudar… Tento não ligar muito a isso e continuar com a minha vida”. Bebe menos ‘cafézinho’, portanto.

Mal chegou tentou arranjar trabalho, mas não foi fácil devido à assimetria linguística. Surgiu-lhe um Call Center onde podia falar português, mas achou-se mal pago e insatisfeito.*

Então, com o seu actual sócio e amigo lituano, do tempo de Erasmus, o Andrews, juntou forças e esforços para abrir um Bar, o Satta (ou Chill Out, para os amigos). E a ideia era mesmo essa: uma (boa) onda, inspirada num estilo marroquino, (quase) só para amigos.

Procuraram até encontrar o espaço ideal para alugar e recuperar de raiz. Puseram mãos à obra durante um ano com mais seis amigos (remunerados). Foi full-time a pintar, colocar cerâmica, decorar, mais obras e muitos trabalhos, até à inauguração.

Passados dois meses fecharam o bar, mérito de queixas da única vizinha insatisfeita e do jornal local, que os via com maus olhos e almejou a causa solitária, com a parcialidade necessária ao seu encerramento.*

Ficaram um ano e meio sem licenças, a fazer festas para (os tais) amigos, até ganharem a fama de bar underground, diferente e alternativo. No final das contas, agora, o empate do fecho acabou por ajudá-los a não seguir o “fim mais previsível que iríamos ter: outro bar pop e comercial”, que queriam evitar.

Por terem pouco que fazer, enquanto esperavam a ‘legalização’, começaram a organizar um festival de Verão junto à praia, em Klaipeda, que se tem mantido anual, e bem sucedido.

Hugo Bermejo admite que na Lituânia “ainda não há qualidade na organização e produção de eventos. Por exemplo, Vilnius é a Capital da Cultura este ano, mas o governo mudou e resolveu cancelar todos os eventos, logo na altura mais certa para apresentar o que valem, dar o seu melhor e mostrar quem são. Aqui preferem o Copy/Paste à criação. Trazem tudo do resto da Europa e copiam. Há muitos projectos que nunca passam disso mesmo, sem evolução nem concretização de ideias. É criar, usar e deitar fora e, para mim, os lituanos são preguiçosos. Falam muito mas nada acontece. Gostava que houvesse gente a fazer coisas, a produzir”.*

Com tudo de bom e de mau que a Lituânia possa ter, e passados os momentos mais difíceis, Hugo nunca se arrependeu da sua opção. Acha que deve isso em grande parte ao negócio criado, a toda a gente interessante que o bar lhe apresentou e à família.

“Tudo foi mais fácil, os últimos cinco anos passaram a correr, estou sempre ocupado e não tenho tempo para pensar em voltar. Adoro o que faço e quero descobrir mais” confirma, sem negar a nostalgia. “Claro que sinto falta do conceito português, do ambiente de Lisboa, da comida, do Sol, da família, dos amigos… Eles vêm mas é cansativo; nem há viagens directas”.

Sobre oportunidades e critérios para emigrar para aqui, Hugo adverte que “há poucas razões comerciais aparentes para vir para a Lituânia. Nem todos os portugueses se adaptariam à Europa do Norte. Acho que somos bem recebidos, mas não nos negócios. Na Lituânia adoram Portugal; começaram a chegar notícias de lá… E temos Histórias muito diferentes mas que se tocam em muitos pontos. Somos um povo mais calmo (talvez pelo tamanho e população reduzida), mas as pessoas são acessíveis e humildes, no geral. A nossa imagem está a crescer aqui e espero estar também a contribuir para isso”.

Todos os dias pensa como teria sido se nunca tivesse saído de Portugal. “Acho que não teria sido nada. Viveria com os meus pais, não teria força suficiente para sair de casa, seria um ‘capitão da noite’… essa vida sempre me seduziu. Mas sentia-me espicaçado para qualquer coisa diferente; não queria uma vida banal, um emprego em Gestão… Não me posso arrepender e acho que nunca teria feito o mesmo em Lisboa”.*

Vive, agora, desafogado. E cada dia que passa é mais complicado voltar a Portugal. Sente o tempo a decorrer, os amigos mais distantes, perdeu contactos e “só voltaria se tivesse alguma coisa aqui que permitisse sustentar-me lá; ou ter uma relação com a Lituânia em Portugal; ou fazer milhões cá e regressar para abrir um bar lá… E uma vivenda na Costa de Caparica!”. *

Perdeu hábitos e parte da cultura portuguesa que tinha incutida, mas ganhou outros na Lituânia, e passa por experiências que o ajudam a descobrir mais sobre si mesmo. “Depende de ti, de como lidas com as situações e descobres coisas menos bonitas sobre ti. Maneiras, mesquinhices e conservadorismo, que detestava em Portugal, já se viraram contra mim”. Vê o mesmo acontecer aos outros (portugueses) que por lá passam e revê-se nos seus próprios erros, que tenta mudar, com uma nova vida lá fora.

Agora, sentir abrigo… é em Portugal. Chega, larga armas e bagagens no apartamento (dos pais), vai ao Café, e sente-se como não se sente em mais lado nenhum: em casa.

“Venham à Lituânia; venham ao Satta. Eu ofereço um copo a todos!”*

* Qualquer semelhança entre Portugal e Lituânia… é pura coincidência.



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