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A minha rua… Seattle

A Cidade Esmeralda, situada no estado de Washington. Idealizada por artistas e amantes da natureza, num misto de urbanidade cosmopolita campestre com o Pacífico noroeste por perto.

Vivo em Seattle há quase sete anos. Cidade nova, fundada no final do século XIX, porto de passagem entre o Oriente e o Ocidente, último destino antes do Canadá. Cidade eclética, de pescadores, amantes da natureza, poetas e escritores, diletantes, engenheiros informáticos, programadores, liberais, bandas de rock e do defunto grunge, de mestrandos, arquitectos e bibliotecários.

Seattle é como uma pequena cápsula de ar fresco e verde. Não há, afirmo com toda a certeza, uma única rua que não tenha uma árvore, ou várias, flores e arbustos na beira da estrada, ou que seja apenas a simples, contudo simpática, relva verdejante que não faz mossa em pisar. Abril é um mês especialmente glorioso. Toda esta natureza explode ao mesmo tempo e açambarca a vista para onde quer que se olhe, quase um postal. Maio traz os lírios, as cerejeiras e magnólias em flor e os pujantes rododendros. Irrefutável marco do fim do Inverno, a Primavera inaugura a cada ano uma nova Seattle, renovada, refrescante, colorida, explicando assim o cognome de “emerald city”.

Mas voltamos ao Inverno. Longo e escuro. Novembro e Dezembro são marcadamente penosos. Com umas parcas oito horas de luz cinzenta, lembram uma lâmpada meio fundida que não chega bem a acender e fica para ali a catrapiscar até se esvair completamente, cerca das quatro e meia da tarde. Os trilhos de bicicleta que se encontram um pouco por toda a cidade ficam desertos, a escuridão traz a chuva miudinha e a vontade de ficar em casa junto da lareira acesa, com uma garrafa de vinho tinto do estado de Washington, denso e delicado. Meio-irmão da uva da Califórnia.

E assim correm os meses entre a folha caduca e a explosão perfumada dos dias compridos. É por isso que a Primavera aqui é como a chegada do calor em Portugal, um augúrio de tudo o que está por acontecer. A murraça acompanha o dia-a-dia até ao 4 de Julho, quando o sol finalmente vence a batalha do boletim meteorológico e paira até ao fim de Setembro.

Muito há para dizer sobre o clima nestas paragens. É este clima temperado e ameno que propicia o verde luxuriante, as neves eternamente renovadas do Mount Rainier e as águas calmas do Puget Sound, uma banheira de mar salgado gigante e gelado que vem do Pacífico. Aqui, não há nada que se deite na terra que não cresça, a menos que precise de muito sol todo o ano, nem há nada que se pense fazer que não seja possível.

Da minha rua, em Ballard, posso meter-me num trilho de bicicleta, pedalar em volta do Lago Washington, onde o salmão desova, e de volta para casa, oitenta, cem quilómetros sem automóveis, sem interrupções. A dez minutos da minha rua alugo um kayak por dá cá aquela palha e aventuro-me na água doce ou salgada, conforme o apetite ditar, e durante duas horas remo sem destino, observando as margens. Da minha rua vou a pé ao mercado, chamado Farmers Market, onde compro pão fresco, legumes, vegetais, até salmão de alto mar em posta, sendo que no caminho de volta requisito um livro ou filme na biblioteca do meu bairro ou paro para tomar uma meia de leite, aqui apelidada de latte. Muitas vezes penso que Seattle é o meu bairro, tal a quantidade de coisas que posso fazer a poucos minutos de casa.

Quando tenho visitas, lembro-me que há muito mais para explorar. Do Pike Place Market ao Space Needle, a cidade está repleta de pequenas atracções, incluindo o primeiro café Starbucks, o museu da música desenhado pelo Frank Gehry, o internacionalmente premiado Jardim Zoológico, o Seattle Art Museum, ou a estátua do Lenine em Fremont, literalmente importada da Checoslováquia depois da queda do comunismo. Ao fim do dia, com os pés cansados, vai-se avistar a cidade do miradouro em Queen Anne antes de regressar ao meu Ballard, bairro de pescadores e artistas.

A cerca de uma hora de carro encontramos a primeira estância de esqui. Nada sofisticada mas funcional, é o destino do Domingo dos Seattlelites. A uma hora de Ferry, está-se do outro lado do Puget Sound, na península de Bremerton, e a duas horas e meia deparamo-nos com o arquipélago das ilhas San Juan, dois terços americano, um terço canadiano. Aí, as horas correm devagar entre montes e planícies e o estreito Juan de Fuca rasga a terra até ao Oceano Pacífico.

Como uma pequena cebola, Seattle é uma cidade em camadas, cada bairro tem a sua personalidade, cada esquina tem a loja com a sua especialidade, e os restaurantes competem entre si na tentativa de criar uma experiência única e irrepetível. A culinária é elaborada e saborosa, com grande destaque para os peixes de alto-mar (o salmão e o mero são reis) e os vegetais locais. O delicioso sushi aparece um pouco por todo o lado, assim como a cerveja local, turva e saborosa. E, juro a pés juntos, que me caia aqui um raio, que os melhores croissants, crocantes e quentinhos, se comem apenas a dez minutos de casa, numa pastelaria chamada Café Besalu, isto, claro, descontando obviamente os que se comem em toda a França.

Volto agora ao princípio. Sete anos. Lisboa será sempre o meu primeiro amor, juvenil e tórrido, mas Seattle, de camada em camada, exibe um perfil de calma, metodismo e concentração que me atrai e me oferece raízes, outras raízes. Para sempre com o coração dividido entre Lisboa e Seattle, confesso que, a cada ano que passa, a minha rua é cada vez mais minha.



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