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A Morte de Carlos Gardel

A banda sonora da vida.

É a primeira vez que uma obra de António Lobo Antunes chega ao grande ecrã, desta feita sob responsabilidade de Solveign Nordlund, sendo que o filme que estreou nas salas de cinema nacionais a 22 de Setembro já fez honras de abertura na terceira edição do Festival Douro Film Harvest e participou num ciclo dedicado ao autor que teve lugar no Teatro S. Luiz.

Sente-se o ritmo da voz de Carlos Gardel. Sente-se o ritmo da máquina que informa a força da ligação de Nuno à vida. Sente-se o ritmo das histórias e memórias de um passado.

Nuno é um jovem toxicodependente em coma à espera da hora da morte numa cama de hospital. É ele a desculpa para que consigamos conhecer a vida de várias personagens que convivem com ele e que são fulcrais para o seu desenvolvimento. Personagens humanas, repletas de recordações e sonhos, de dúvidas e inquietações, que pela sua (complexa) simplicidade se aproximam do espectador e o fazem muitas vezes rever-se nelas.

Álvaro, o seu pai, é a personagem que melhor ficamos a conhecer. Um cineasta apaixonado pelo tango, aquilo a que podemos chamar de um verdadeiro apreciador de Carlos Gardel e que neste intérprete encontra todo o seu suporte enquanto pessoa. Nele encontra o seu passado e o seu presente, nele reflecte os tempos de criança, as paixões, as situações difíceis enquanto pai de uma criança com quem pouco convive mas que deseja conhecer, as frustrações da vida quotidiana e os anseios do futuro. A ligação é de tal forma profunda que Álvaro chega a encontrar num imitador português de Carlos Gardel, maravilhosamente interpretado por Ruy de Carvalho, o seu suporte para encarar os tempos mais difíceis que se aproximam.

As relações humanas tomam uma dimensão principal no filme. Álvaro é exemplo das relações que falham. Separado da mãe de Nuno, Cláudia, e parte de um casamento com poucos motivos para se manter de pé, a personagem é apenas um dos muitos que experienciam as relações disfuncionais que acabam por abundar ao longo de toda a película.

Também Graça, a tia médica de Nuno, mostra ao público o seu lado frágil na relação que mantém com Cristiana e é forçada a tomar uma decisão sobre a continuação da mesma.

Temos ainda Cláudia, a mãe, que se apaixona por um homem mais novo e que é alvo de comentários menos simpáticos por parte daqueles que a rodeiam.

A prova de que as relações não acabam sempre em “e viveram felizes para sempre” e de que as linhas do amor são sempre menos constante do que da forma como são pintadas.

Nuno, tal como o pai, é igualmente exemplo de uma atitude de dúvida perante a vida. Sem saber quem é, o que quer do presente e do futuro, o jovem acaba por refugiar-se no mundo fácil da droga e por cair nas suas teias. Um processo gradual que o pai desconhece, mas que não passa despercebido à restante família. Um processo que acaba por mudar toda a vida daqueles que o rodeiam de uma forma directa e incontrolável.

Um filme sobre o qual é difícil falar pelo facto de ele falar por si próprio e se dar a conhecer de uma forma completa. O espectador envolve-se, sente-se parte da trama, partilha as vivências das personagens. Um filme recheado de sentimentos e de sensações, das mais simples, joviais e alegres às mais obscuras e que afligem fortemente a alma humana.

FICHA TÉCNICA

De: Solveig Nordlund
Produção: Luís Galvão Teles / Fado Filmes
Produtor Executivo: João Fonseca
Fotografia: Acácio Almeida
Montagem: Paulo MilHomens
Música original: Pedro Marques
Com: Rui Morisson, Teresa Gafeira, Celia Williams, Carlos Malvarez, Miguel Mestre, Joana de Verona, Elmano Sancho, Ida Holten Worsøe, Albano Jerónimo, Maria João Pinho.
Participação especial: Ruy de Carvalho
E ainda: Carla Maciel, Diogo Dória, Teresa Faria, Cecília Henriques, Maria Arriaga
Género: Drama
Classificação: M/12
Outros dados: POR, 2011, Cores, 87 min.



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