“A Mulher Que Decidiu Passar Um Ano Na Cama” | Sue Townsend

“A Mulher Que Decidiu Passar Um Ano Na Cama” | Sue Townsend

Bom, bom é na caminha

Há menos de um mês, a agência espacial norte-americana (NASA) mostrava-se disposta a pagar 13 mil euros a quem pusesse a hipótese de ficar 70 dias numa cama, com o objectivo de desenvolver um estudo sobre os efeitos da microgravidade no corpo humano. Para Eva, este teste só poderia ser considerado uma brincadeira, aquilo que se costuma chamar de dinheiro fácil. A verdade é que, depois de despachar os filhos gémeos para a universidade, Eva subiu para o seu quarto e, sem tirar  roupa nem sapatos, deitou-se na cama e aí permaneceu durante um ano, apenas interrompido pelas idas à casa de banho em que usava um corredor de segurança – construído com toalhas de banho – para não tocar no chão.

Sue Townsend, a criadora do mítico adolescente Adrian Mole, serve-nos agora “A mulher que decidiu passar um ano na cama”, uma alegoria sobre o confronto com o destino de «uma mulher de cinquenta anos com um rosto adorável de feições delicadas, olhos claros e inquisitivos», que se veste quase sempre de preto, não dispensa o seu batom e mantém, tanto com a mãe como com a sogra, uma relação muito delicada.

Todos pensam que Eva vive a síndrome do ninho vazio, mas trata-se de algo mais profundo, um protesto de ar tardio que se assiste como a um pôr-do-sol: a raiva pelo papel de dona de casa, o vazio do casamento, as más escolhas tomadas na vida, o desejo imenso de voltar a ter dezassete anos.

Mesmo com esta imensa aura dramática, não faltam os pontos de contacto com o legado humorístico e descompensado de Adrian Mole: os gémeos são aves raras, com muitos neurónios e pouca carga emocional, que quando confrontados com o facto de terem poucos amigos respondem «se quiséssemos ter amigos estaríamos no facebook»; Poppy, colega de universidade, junta a faceta de mentirosa compulsiva a uma queda para a intrusão na vida alheia; Brian, o marido, é um astrónomo com uma vida paralela muito bem tapada. Mas há também as listas, as célebres listas à moda de Mole, e o extra de Eva se ver transformada num anjo curandeiro, disputada por canais televisivos e tendo centenas de fãs acampados à sua porta em busca da salvação.

Hilariante, pleno de sarcasmo e com uma dose bem servida de dramatismo, “A mulher que decidiu passar um ano na cama” é um livro que olha para a estranheza das relações familiares e promove o confronto com a derrocada pessoal, mas nunca fechando a janela não vá uma epifania resolver entrar de mansinho.



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