A Naifa

Novo disco e alguns minutos de conversa.

Por alturas de 2004, aquando da edição de “Canções Subterrâneas”, primeiro disco d’ A Naifa, gerou-se uma discussão curiosa no reduzido meio musical português sobre esse enigmático mistério: o que será mesmo a verdadeira música portuguesa? “A coisa mais importante com o disco inicial foi mesmo a discussão que se gerou sobre aquilo que é, na sua essência, a música portuguesa”, avança João Aguardela.

“Canções Subterrâneas” foi, verdadeiramente, um ovni na música nacional. Combinava o fado com paisagens electrónicas, arriscava musicar poemas de gente como Adília Lopes ou José Luís Peixoto. Dizem alguns que foi a melhor coisa que podia ter acontecido ao fado. Agora, dois anos volvidos, o regresso com “3 Minutos Antes de a Maré Encher”.

Aos já conhecidos do grande público João Aguardela e Luís Varatojo, juntou-se Mitó, a cantora com voz de fadista numa banda que não se assume de fado. Ou assume? “A Naifa não é, definitivamente, fado. Utiliza o universo do fado, filtrado pela nossa sensibilidade, para construir outra realidade. A Naifa é, em última análise, música portuguesa”, sustenta o aqui baixista Aguardela.

Música mas não só, que A Naifa é mais que uma simples banda. “Não temos uma visão estratégica. São coisas que existem na nossa vida, os poemas já faziam parte da nossa vida, por exemplo. Depois, é usar essas referências na construção de uma identidade que é A Naifa”, argumenta. Varatojo remata: “Fazer um disco é um acto multidisciplinar”.

“3 Minutos Antes de a Maré Encher”, o novo trabalho, é a chamada evolução na continuidade. Sem romper com o passado, apresenta uma banda mais sólida, segura de si mesma, mais confiante. Confirma Mitó: “A estrada deu-nos muita coesão. Uniu-nos bastante mais e nota-se essa força no disco”.

Questão fundamental para quem defende, e pratica, a tal música portuguesa: as quotas de rádio. “É quase trágico, quando a música de um próprio país tem de ser imposta em lei para passar na rádio”, avança Aguardela. “Em termos de músicos portugueses que trabalham sobre ideias anglo-americanas há coisas muito válidas, bons discos, boas canções. Música portuguesa como a que A Naifa pratica… é um problema lixado”, diz ainda.

Problema geracional? “Está tudo ligado”, segundo Luís Varatojo. “Crescemos numa altura de música portuguesa activa, de equilíbrio”, continua Aguardela. “A nossa geração beneficiou de uma certa abertura depois do 25 de Abril, somos feitos dessa massa. É um problema de referências, quem tem hoje 20 anos não tem essas referências”. “E havia o Rock Rendez Vous…”, conclui em jeito de lamento Luís Varatojo.

A Naifa na net, em site oficial (http://www.anaifa.com) e em blog com título de verso no primeiro disco – Um dia tão bonito e eu não fornico. Uma frase marcante? “Tendo em conta que é um blog, é um bom nome. E retrata o nosso dia na estrada…”, avança Varatojo, interrompido por Aguardela: “A vida na estrada é isso mesmo: dias muito bonitos e a gente não fornica (risos) ”. Disco novo em mãos, surge o desejo de, ao vivo, “criar empatia com as pessoas, como aconteceu na primeira digressão”, segundo o aqui tocador de guitarra portuguesa Varatojo. “Vamos apresentar o novo disco, as novas canções, sem esquecer alguns temas do primeiro”, alerta Mitó. A Virgem Maria e a empregada que vem passar a ferro agradecem.



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