As canções d´A NAIFA

À conversa com A Naifa

Luís Varatojo, em entrevista, revela como vai ser a tour de apresentação de "As canções d'A Naifa". Ou não. Só indo, porque as canções d´A Naifa são, sempre, as nossas

Não importa sol ou sombra
camarotes ou barreiras
toureamos ombro a ombro
as feras.
Ninguém nos leva ao engano
toureamos mano a mano
só nos podem causar dano
espera.

Não há mais espera. A tour d´A Naifa começa a 8 de fevereiro no Barreiro e segue em «Inquietação» da boa tocando num espectáculo diferente o disco comemorativo dos dez anos pelos palcos nacionais até 10 de Maio.

Além da óbvia divulgação do vosso disco “As Canções d’A Naifa”, o que procuram nesta tournée?

Vamos tocar este disco na íntegra, e isto será, mais ou menos, um terço do espectáculo. Os outros dois terços serão preenchidos com uma escolha de canções dos nossos quatro álbuns de originais. Entre estas, há algumas que nunca tocámos ao vivo e outras que já não tocávamos há muito tempo. Também haverá um momento diferente do habitual em que utilizaremos outros instrumentos. Pela primeira vez, usaremos também a componente video numa parte do espectáculo. A ideia foi criar um espectáculo absolutamente diferente dos anteriores, tirando o máximo partido das valências dos quatro músicos da banda e do imenso repertório construído até aqui.

A Naifa – A Tourada from A NAIFA on Vimeo.

Com dez anos de existência, e sobretudo em aniversário, já não falamos de simples empatia com o público. O que podemos encontrar hoje em dia num concerto vosso?

Os concertos são sempre vividos intensamente por todos nós – músicos e público. São como uma celebração. Não acho que os de hoje sejam diferentes dos de ontem, talvez um pouco mais efusivos, porque as canções se foram tornando mais conhecidas, e qualquer que seja o alinhamento, o público conhece e reage.

Sobretudo com estas canções simbólicas para o País e gerações, que reacções esperam causar?

Estas canções já foram todas tocadas ao vivo, a novidade é aparecerem todas no mesmo espectáculo. É óbvio que terão outro peso…

Os próprios videoclips têm sido feitos com um cuidado e sensibilidade especial e têm causado impacto, tanto viral como intenso. Era a intenção? Sentem no fundo um pouco que só a música já não chega e que temos de ser “espicaçados”?

A Naifa sempre abriu espaço, no seu trabalho, à participação de outros artistas, nomeadamente nas áreas da literatura, artes plásticas e fotografia. Neste momento surgiu também a hipótese de trabalhar em parceria com dois realizadores, que trouxeram a sua obra, e a sua visão para o universo Naifa. A leitura que fizeram dos temas em questão foi ao encontro daquilo que queríamos dizer, o que fez com que a ideia ganhasse força e atingisse mais público. No video d’A Tourada há um apelo directo ao inconformismo e à acção – o cidadão comum que sai do trabalho – a banda a sair do palco – e se junta a outros para participar numa manifestação. No Bolero expõe-se a hipocrisia dos valores mais conservadores e tradicionalistas que, infelizmente, ainda prevalecem na sociedade portuguesa. Este vídeo saiu mesmo na altura em que foi votado o referendo à co-adopção, nem de propósito.

O single «a Tourada», em si reaccionário, político, social, apresenta e faz entender assim o álbum. É de facto assim? Como definem o disco?

O disco é, em primeiro lugar, uma colecção de canções de que gostamos muito. Todas elas têm uma estória e o seu próprio contexto, mas em conjunto acabam por funcionar um pouco como um filme, em que as várias sequências servem a estória principal. Falam de política, de costumes, de amor, de liberdade, do País… sempre com a tónica na inquietação, no desassossego e no inconformismo. Este é o discurso de cada uma das canções, aqui amplificado pelo facto de pertencerem a uma unidade maior que é o disco.

Se foi «Inquietação» o motor do disco, porque não o escolhido para single? Tem a ver com a força ou timming d´«a Tourada»? Sendo que inquietação tem também essa actualidade…

A Tourada é uma música muito forte e polémica. A maior parte das rádios, e todas as televisões, ignoraram-na, ou melhor censuraram-na, e nem assim passou despercebida. As pessoas fizeram questão de partilhar o video no Facebook, usando-a como arma de contestação. Nós sabíamos que lançar «A Tourada» como single iria causar um certo desconforto mas não esperávamos uma atitude censória tão declarada. Acho que foi um excelente cartão de visita porque pôs o dedo na ferida.

A NAIFA – Bolero Do Coronel Sensível Que Fez Amor Em Monsanto from A NAIFA on Vimeo.

Por timing, actualidade, A Naifa parece ser muito assertiva, uma inclinação para o fado, sendo na altura este património da humanidade, e agora umas Canções sociopolíticas, estando o País como está. É isto, para vocês, que é fazer música portuguesa? Cantar onde mais dói ou onde mais é preciso?

A Naifa nasceu com inclinação para o fado em 2003 (primeiro álbum em 2004), muito antes do fado ser considerado património da humanidade. Para nós, a aproximação ao fado foi um processo muito natural, descobrimos que precisávamos de ir por aí para encontrar a nossa música, e isso era, e é, o mais importante.

A música, como qualquer outra arte, é um veículo de expressão e uma forma de intervenção na sociedade. É inconcebível que ela não reflicta angústias e alegrias, aquilo que nos motiva e deprime no tempo que vivemos.

Então a Naifa tem a música como missão?

Não é uma missão, é uma vontade. E também uma necessidade. Cada vez que fazemos um disco sentimo-nos bem, é como se estivéssemos a projectar um pouco daquilo que somos em música, e isso é muito bom. Sim, sentimo-nos sempre mais realizados e mais livres.

No que toca à missão, como vêem o estado da música portuguesa à qual se dedicam? Sendo este um período próspero a nível de criatividade e missão, não falando de recursos de produção, acham que com a quantidade de músicos que há, está a ser feita a música que é precisa, ou apenas a música que muitos querem fazer por si?

Quanto mais música se fizer, mais propostas artísticas, mais diversidade e mais evolução. Temos que experimentar e correr riscos, a época de fazer música para a play list de determinada rádio já passou.

Portugal tem uma tradição musical muito forte e bem presente nos dias de hoje; não há motivo para andarmos sempre atrás do que se faz lá fora, e os músicos portugueses sabem isso. Penso que a “anglosaxonização” da nossa música já teve o seu ponto alto no início dos anos 2000. Agora, também não devemos ser demasiado tradicionalistas, se não corremos o risco de virar o preconceito ao contrário, limitando a criatividade e impedindo a evolução.

As vossas letras e poemas foram sempre um dos vossos pontos de excelência, mas como é tocar e cantar poemas de autores como Ary dos Santos?

Sempre cantámos poetas de quem gostamos e que escrevem aquilo que sentimos, os deste disco não são excepção. Ary dos Santos, Lobo Antunes, David Mourão Ferreira, Rui Reininho, Regina Guimarães, José Mário Branco, Paulo Bragança, todos eles são também a nossa voz e devem ser cantados sem falsas reverências nem preconceitos.

Ultimamente, e além dos prémios, vocês não param em concertos em divulgação, mais do que alguma vez. O que é urgente agora para A Naifa?

É urgente fazer alguma coisa, e, sobretudo, estarmos com quem gostamos.

É urgente novo disco? Está a caminho?

Calma. (risos)

TOUR “As Canções d’A Naifa”

8 DE FEVEREIRO – BARREIRO – Auditório Municipal Augusto Cabrita
12 e 13 FEVEREIRO – COIMBRA – Oficina Municipal do Teatro
22 FEVEREIRO – PONTA DELGADA – Teatro Micaelense
27 FEVEREIRO – ÉVORA – Teatro Garcia de Resende
22 MARÇO – ESTARREJA – Cineteatro
28 MARÇO – SEIXAL – Auditório Municipal
19 ABRIL – ALMADA – Teatro Municipal
3 MAIO – CALDAS DA RAINHA – Centro Cultural
10 MAIO – BRAGA – Theatro Circo



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