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A Noite da Iguana

Um teatro para atores.

O encenador admira os atores e escolhe as peças para que estes tenham a oportunidade de interpretar determinados papéis. A Noite da Iguana é uma peça sem intriga, uma espécie de poema dramático cuja essência da história se centra na intensidade das personagens, mas em especial  na de três. Nuno Lopes é Shannon, um ex-pastor agora guia turístico e com fama de mulherengo. Chega a um hotel no alto de uma colina do México com um autocarro cheio de mulheres (que nunca chegam a hospedar-se) e reencontra uma velha amiga – Maxine (Maria João Luís) – uma viúva bem disposta, dona do hotel, cujo lema de vida é como o do seu empregado chinês: “Não há problema”. Maxine é serena, porém ciumenta e isso revela-se aquando a chegada de Hannah (Joana Bárcia), acompanhada pelo seu avô poeta e debilitado que acredita ser de borracha. É uma pintora de aguarelas e caricaturas que carrega o avô de hotel em hotel por não terem condições para pagar.

Realmente os papeis parecem encaixar no perfil dos atores, não pelas semelhanças de caráter entre ator-personagem, mas pelo desafio de trabalhar as personalidades fortes criadas por Tennessee Williams nesta peça. Nuno Lopes é incansável e ao contrário do galã Shannon do filme de John Huston, o seu é mais introspectivo e procura a sua verdade interior. O que talvez há em comum com o Shannon do britânico Richard Burton é o temperamento difícil… ambos usam um tom de voz quase sempre rude e bruto. Maria João Luís é uma viúva provocadora e determinada que procura manter o seu negócio e seduzir Shannon. Hannah é uma mulher inocente e que nunca foi capaz de se entregar aos prazeres de uma paixão. Interpretada por Joana Bárcia, esta Hannah usa um tom calmo, excepto quando se irrita com o avô, e é a conselheira de Shannon por quem parece ter um especial apreço… ou será só empatia? Bem, a inexistência de química entre os actores esclarece a questão.

Numa peça de três atos (intervalada) o aspeto mais atractivo e sempre presente é mesmo o cenário: uma simples construção em madeira, uma rede de pano e umas imagens de palmeiras a flutuar ao fundo vão alimentando a imaginação do espectador quando uma mudança no clima está prestes a entrar em cena. O director artístico dos Artistas Unidos e encenador desta peça decidiu manter a voz off, característica que mais aproxima o dramaturgo americano ao cinema, apesar de considerar que um produto de cinema é sempre diferente de um produto de teatro. Neste espectáculo, como o hotel é no alto de uma colina, as cenas do autocarro das mulheres são todas em voz off,  assim como algumas cenas da família alemã hospedada no hotel que, de vez em quando, faz uma aparição muito animada.

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Tennessee Williams foi um dos primeiros autores do pós-guerra e ilustra, através deste texto, um retrato da conquista da liberdade. Num projeto pensado por Jorge Silva Melo durante seis anos, o encenador que procura personagens para atores, aproveitou que Nuno Lopes estava disponível e chamou-o para interpretar o protagonista de A Noite da Iguana. É sem dúvida uma escolha acertada e um papel que não podia faltar ao currículo deste ator.

No São Luíz Teatro Municipal de 18 de Janeiro a 5 de Fevereiro de 2017
No Teatro Nacional de São João de 9 a 26 de Fevereiro de 2017

Encenação: Jorge Silva Melo; Tradução: Dulce  Fernandes;

Interpretação: Nuno Lopes (Lawrence Shannon), Maria João Luís (Maxine Faulk), Isabel Muñoz Cardoso (Judith Fellowes), Joana Bárcia (Hannah Jelkes), Pedro Carraca (Hank Prosner), Tiago Matias (Jake Latta), João Meireles (Herr Fahrenkopf), Vânia Rodrigues (Hilda), Pedro Gabriel Marques (Pancho), Catarina Wallenstein (Charlotte Goodall), Américo Silva (Nonno), João Delgado (Pedro), Bruno Xavier (Wolfgang), Ana Amaral (Frau Fahrenkopf);
Cenografia e figurinos: Rita Lopes Alves;
Luz: Pedro Domingos;
Som: André Pires;
Coordenação técnica: João Cachulo;
Assistência de encenação: Nuno Gonçalo Rodrigues e Bernardo Alves;
Produção: João Meireles
Coprodução: Artistas Unidos, Teatro Nacional São João e São Luiz Teatro Municipal

 



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