A Onda Pirata

Já passaram dezasseis anos depois da legalização das rádios pirata. Deixamos aqui o essencial do percurso deste movimento que alterou a história da rádio.

As Rádios Pirata foram um autêntico fenómeno, não só em Portugal mas também no mundo inteiro. Graças a elas, Portugal começou a fazer rádio para os seus ouvintes, modificando conceitos e desenvolvendo uma cultura radiofónica própria primando pela criatividade e dinamismo. Quem não se lembra da Super FM? E dos primórdios da Rádio Cidade? A verdade é que estas rádios começaram com o estatuto de pirata…e das mais bem sucedidas no nosso país.

O conceito de Rádio Pirata surge no início da década de 60 em Inglaterra quando começaram as emissões de uma estação montada por jovens, que se encontrava num navio na costa britânica. Este novo posto de emissão surgiu como uma atitude de contestação dos jovens ingleses que não concordavam com o controlo do governo inglês sobre a programação das emissoras oficiais.

Assim, a produção musical desta rádio baseava-se no movimento de contra-cultura que não tinha espaço nas emissoras oficiais e que era combatida, devido ao carácter conservador da cultura inglesa. Quando o governo inglês, que a considerava ilegal, conseguiu finalmente apreendê-la, assistiu a uma reacção inesperada da juventude inglesa, que fez florescer centenas de emissoras em terras britânicas.

Esta designação de Rádio Pirata aparece mais tarde, tudo porque em alguns registos fotográficos ou em vídeo, os participantes destas emissoras apresentavam-se mascarados de piratas. Assim, o termo pirata passa a ser usado como depreciativo de tudo o que é ilegal, passando a ser usado pelos proprietários das grandes emissoras, ditas legais.
No nosso país, o aparecimento destas rádios acontece mais tarde. A radiodifusão portuguesa mostrava-se muito envelhecida e com um baixo nível de audiências. Em Portugal a rádio encontrava-se apenas ao serviço do governo e por esse motivo era encarada como um instrumento governamental que se destinava a cumprir a tarefa do célebre “serviço público”.

Face a este cenário começam a aparecer em 1977 as primeiras rádios piratas portuguesas. A Rádio Juventude foi uma delas, que inicia as suas emissões directamente de um galinheiro em Odivelas.

Esta foi a rádio que viria a inspirar o aparecimento de outras rádios como a Rádio Imprevisto em 1979. O principal problema que se criava nesta altura era a partilha de frequências, no caso destas duas rádios, que ocupavam a mesma frequência. O problema foi resolvido através de um esquema de alternância das suas emissões.
Em 1981 estes dois postos viram o seu material ser apreendido e por essa razão decidiram unir esforços e fundir-se um ano mais tarde, para dar origem às Estações Associadas em 99.4 Mhz. Tinha-se iniciado no nosso país, o grande movimento das rádios, que viria atingir o seu pico máximo em 1986.

A principal motivação destas rádios prendia-se com o encanto que o mundo radiofónico tem, e que acaba por contagiar aqueles que já dizem ter o tal “bichinho” da rádio. Por brincadeira ou passatempo, as pessoas acabavam por se empenhar nestes projectos e a verdade é que todos trabalhavam por gosto, por “amor à camisola”. Toda a gente queria ter a oportunidade de ser locutor e chegar aos ouvidos de toda a gente, daí que estes projectos envolvessem pessoas com as mais variadas profissões e de todas as idades.
A programação fazia-se conforme aquilo que se tinha ao alcance, os discos “roubados” aos pais, isto porque alguns dos trabalhadores das rádios piratas não tinham recursos monetários para poderem comprar os vinis ou cassetes.

O importante deste movimento de rádios pirata foi o romper do monopólio das rádios legais, ou seja, do estado. Elas trouxeram coisas muito positivas como a criatividade, novidade, sangue novo ao país e a possibilidade de todos sem excepção poderem ser pessoas da rádio mas, mais importante que tudo, conseguiram preencher algumas das lacunas que se encontravam em aberto. Além de formarem grandes profissionais conhecidos de hoje.

Um dos casos mais flagrantes das rádios piratas é a da Rádio Cidade, que surge como rádio pirata na década de 80. Esta rádio trouxe grandes inovações, principalmente a nível da programação. Apostava num conteúdo muito dinâmico, ao qual os portugueses não estavam habituados, optando por apostar na criatividade e numa maior abertura. Esta rádio marcava a diferença mostrando as novidades musicais, o que fazia com que os jovens sentissem rebeldes por ouvir uma rádio pirata, daí ter-se transformado na rádio de eleição dos jovens da grande Lisboa. Dois anos depois, esta rádio alterou o seu conteúdo e deixou de ser vista como uma rádio alternativa, dividindo a sua audiência e transformando-se naquilo que conhecemos hoje em dia.

A já extinta Super FM, quando surge encontra-se num clima radiofónico mais avançado, mas cedo se torna um fenómeno de popularidade. Esta rádio apostava numa imagem jovem, onde os desportos radicais se encontravam em grande destaque. Era esta a chave do sucesso desta rádio que deixa saudades.

Não podemos também esquecer que uma das rádios de maior prestígio a nível informativo de hoje começou como rádio pirata. A TSF iniciou as suas emissões a 17 de Junho de 1984 e manteve-se “ilegal” até 8 de Setembro de 1988.
E quem não se lembra da XFM, pertencente ao mesmo grupo da TSF, que esteve no ar entre 1993 e 1997, donde saíram muitos dos actuais animadores de rádio (Rui Portulez, Nuno Reis…).

Estávamos em 1988 quando o governo decidiu por um ponto final às emissões de todas as rádios consideradas ilegais. A audiência manteve-se “leal”, aguardando com grande expectativa pela oportunidade de tornar a ouvir os postos preferidos mas que tinham sido silenciados de vez.

Hoje, passados alguns anos, assiste-se a uma certa injustiça. As rádios dos nossos dias são completamente formatadas e idênticas umas às outras. A originalidade foi deixada de lado e assiste-se a uma massificação dos conteúdos das rádios que vivem condicionadas pelo nível de audiências e sobretudo através de receitas publicitárias, o seu “ganha-pão”.

A nível musical tivemos de conviver com as aberrantes “play-lists”, não permitindo que sons novos e mais alternativos possam ser conhecidos. Dentro deste cenário, poucas e louváveis são as excepções. O panorama radiofónico perdeu imenso com a extinção das Rádios Piratas, que inadvertidamente, modificaram a forma de fazer rádio e surgiram como uma lufada de ar fresco, inovando, criando e desenvolvendo um estilo próprio de fazer rádio que não conhecia limites. Enfim, estas sim, foram as rádios que fizeram história!



Também poderás gostar


Pin It on Pinterest

Share This