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“A Origem” de Dan Brown

A loucura do idealismo intolerante

A notícia do lançamento de um livro do norte-americano Dan Brown gera grande expetativa. Em que aventuras se envolverá Robert Lagndon, o mais famoso professor de simbologia e iconologia do universo? Tem sido assim desde o lançamento já longínquo de Anjos e Demónios e o recente Origem (Bertrand Editora, 2017) não foge, obviamente, à regra.

Dois anos volvidos depois da edição de Inferno, eis que Lagndon se vê envolvido em mais um grandioso dilema e que o leva ao encontro de Edmond Kirsch, um dos seus primeiros alunos em Harvard, cujas invenções, previsões, reputação e fortuna o tornaram numa referência mundial.

Kirsch, agora um multimilionário com 40 anos, e também o maior guru tecnológico da sua geração, transformou a sua vida numa demanda pela ciência computacional, tendo como um dos seus grandes objetivos apostar na Inteligência Artificial, estando prestes a revelar a sua maior descoberta, algo que pode transformar o mundo em que vivemos.

Para tão inusitada ocasião, Kirsch convidou o seu velho professor a assistir a um meticuloso evento que se realizará no ultramoderno Museu Guggenheim, em Bilbau, Espanha. Além de Langdon foram convidadas figuras ilustres de todos os quadrantes e credos. A especulação crescia à medida que o evento se aproximava e os boatos faziam crer que seria revelada uma inovação científica sem precedentes, algo que colocaria em risco todo o conceito de História tal como o conhecemos.

Três dias antes do evento, o agnóstico Kirsch teve um encontro secreto com os três mais importantes representantes do judaísmo, islamismo e cristianismo. A reunião realizou-se no icónico mosteiro de Montserrat, perto de Barcelona, e incluiu uma apresentação multimédia que deixou a audiência boquiaberta e preocupada.

Mas, chegada a grande noite, e a meio de uma fascinante apresentação multimédia, tudo se transforma em caos e coloca Langdon no epicentro de uma das suas mais terríveis aventuras. Para sua completa surpresa, o professor do fato tweed descobre que a sua vida está ameaçada sendo forçado a uma desesperada fuga. Ao seu lado terá Ambra Vidal, a brilhante e deslumbrante diretora do museu e noiva do príncipe Julian, herdeiro ao trono espanhol.

Como consequência da crescente ameaça, a dupla foge para Barcelona com a missão de realizar o desejo de Edmond e localizar uma palavra-passe que os ajudará a desvendar o segredo de Kirsch, tarefa que os levará a percorrer os estranhos labirintos da Religião enquanto fogem de um inimigo sem rosto.

Origem

Torna-se claro que existe uma forte conspiração para impedir a revelação de Kirsch. As ameaças surgem de todos os quadrantes, desde católicos de extrema-direita, uma seita radical da Igreja Palmariana, passando pela (ficcionada) família real espanhola ou militantes franquistas. Mas Brown não abandona Ambra e Robert ao seu destino. A dupla tem por companheiro Winston, o assistente virtual de Kirsch (cujo nome é uma homenagem ao estadista britânico Churchill), uma obra-prima da Inteligência Artificial.

A narrativa é, como não poderia deixar de ser, um tour de force de características marcadamente cinematográficas passado no espaço de 24 horas alucinantes. A fórmula habitual de Brown repete-se: Langdon, de Mickey ao pulso, é arrastado para uma misteriosa missão e tem como companheira uma (bela) mulher. Pelo meio o leitor é convidado a mergulhar num mundo sublinhado pela literatura, arquitetura, suspense e (poucas) mensagens encriptadas. A tudo isso junta-se, além das supostas repostas às duas mais ancestrais perguntas da Humanidade: «De onde vimos» e «Para onde vamos?», uma terceira equação: «Em que nos transformaremos?»

Imerso na tão profícua dicotomia entre Religião e Ciência, Origem é um thriller que continua o legado já habitual da escrita de Dan Brown mas, felizmente, está uns furos acima de Inferno. Não sendo o protótipo da originalidade, leva-nos a uma interessante corrida com mais de 500 páginas que se leem, ou devoram, num ápice e nos levam, aqui e ali, à boleia da filosofia criacionista, do espírito de Darwin ou da intolerância idealista, a percorrer o Palácio Real, as várias obras de Antoni Gaudí, Barcelona e a eterna Sagrada Família, transformando o ato da leitura num puro e deleitoso exercício de imaginativo entretenimento, algo que Brown faz como ninguém, mesmo que em muitas das páginas possa parecer ao leitor estar numa espécie de vórtice entre ficção e uma qualquer secção enciclopédica, no caso de Origem, no território online.



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