“A Paixão de K” | Miguel Miranda

“A Paixão de K” | Miguel Miranda

O quadrado perfeito de uma vida

Depois de vários romances, contos e prémios literários, Miguel Miranda, médico de profissão, ao oitavo livro leva-nos a uma Londres tomada de assalto pelos motins provocados por um excesso de urbanidade que apanha desprevenido Perfecto Cuadrado, um perito de arte e talentoso falsário que passeia pelo mundo desenhando passageiros anónimos nos metropolitanos e coleccionando paixões.

Metaforicamente, também o coração de Perfecto, um menino que nasceu com cara de Jesus, se encontra no meio de um turbilhão de sentimentos, pois foi tomado de assalto por uma paixão avassaladora por Josephine K (leia-se “capa”), um anjo caído de um céu desconhecido para este cidadão do mundo.

Segundo o autor, este livro é uma homenagem a Manuel António Pina, camarada de tertúlias e que inspirou a génese da obra fazendo nascer Perfecto Cuadrado, uma ideia que surgiu muito por culpa de “Os Papéis de K”, obra do referido homenageado.

Ao contrário de outras obras de Miguel Miranda, a trama afasta-se da Invicta e divide-se entre Londres e Consolación, terra natal de Perfecto Cuadrado, tendo algumas paragens que vagueiam pela memória do nosso herói por terras e paixões acaloradas da América do Sul.

A linha narrativa deste “A Paixão de K”, que se movimenta entre saudosas memórias e um presente atribulado, é uma das suas características mais interessantes, pois confere ao livro um ritmo intenso que alicerça a história no seu todo. A balança sentimental do personagem principal apenas tem o equilíbrio desejado depois de uma equação entre a desordem da capital de Inglaterra e o doce sossego de Consolación.

Para além de Perfecto Cuadrado e da sua musa especialista em matemática e música, existem várias personagens que enriquecessem esta viagem repleta de paixões: os Pepes de Consolación (o eletrónico, o carpinteiro, o cangalheiro, o ferreiro, o pintor, o padeiro…); um padre, Don Jimenéz, conhecido pelas conquistas amorosas; Pepito Consolado, um toureiro finado; as ninfomaníacas irmãs Vicentas; Segundo Fruciante, um galerista sabujo; Laurent, um camarada de bar homossexual; Gail, uma amiga colorida; Hammond, um amigo e amante de policiais; Glorita, a mais quente das aventuras de Perfecto. Elementos que tornam “A Paixão de K” um verdadeiro puzzle de vidas cruzadas.

Ler este livro é sentir o caos interior das personagens que se alimentam da memória para ultrapassar um presente nem sempre aprazível, ainda que as referidas recordações não sejam sinónimo de paz.

No fundo, estamos perante uma obra que tem como base uma personagem que resulta de quatro lados diferentes. Miguel Miranda afirma mesmo que é o amor, a paixão, a amizade e a desordem que formam o carácter deste falsário de nome geométrico.

Sobreviverá Perfecto Cuadrado a este incêndio na sua alma? Estará este sedutor nato preparado para sentir as graduações da paixão? Tudo isto e muito mais em “A Paixão de K”.

Em breve, a RBD publicará uma entrevista com o escritor Miguel Miranda



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