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A pele onde eu vivo

Os recantos da natureza humana.

Claramente Almodóvar, fosse Almodóvar um género, mas este é um filme que vai mais longe. Mais negro, tem ainda cor. Menos cómico, tem ainda o ridículo, arranhando por vezes a paródia, nunca o sendo. Sente-se aqui mais o nojo, o horror, sem excessos.

A carne, mais brutal, ainda sexual, humana, mais crua, por vezes violenta. A família, enquanto paradigma da identidade, o sangue, dentro e fora do corpo. As relações entre humanos, os seus cruzamentos improváveis, os géneros, definidores ou não da identidade, mas obrigatórios. A vingança, em níveis diferentes, a justiça, à imagem de cada um.

Em “A pele onde eu vivo” Almodóvar começa por nos apresentar Robert Ledgard (Antonio Banderas), um cirurgião que mantém cativa Vera (Elena Anaya). Vera vive fechada num quarto da mansão de Robert. Na mansão existe uma clínica privada, que serve, principalmente, os devaneios do cirurgião, que explora os meandros da sua loucura, experimentando através da medicina resolver inquietações. Vera é sua cobaia e sua musa.

Numa narrativa brilhantemente articulada, os significados são-nos revelados em camadas, como as da própria pele. É um filme que vive da beleza da descoberta, da revelação, que nos mostra o quanto um significado pode mudar pelo conhecimento que se vai adquirindo, mais uma vez em camadas, de tempo, numa sequência em que o passado e o presente se vão cruzando enquanto desmascaram as personagens e as vísceras de que são feitas.

Quando se contam histórias com loucos, somos todos loucos de repente, perdendo-nos na história em catarses. Almodóvar embala-nos numa história que de embalar tem pouco, onde o sonho é pesadelo, onde nos contorcemos para fugir às dores da desventura, a acontecer ali no ecrã, dentro de nós.

E se vamos pensando e estabelecendo ligações durante todo o filme, no final fica a sensação que Almodóvar fez o que melhor sabe fazer, explorar os recantos da natureza humana, a sua capacidade de amar e odiar, de querer, de esquecer e não esquecer, ao mesmo tempo. De criar uma mentira e acreditar nela.

 



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