Cento e trinta páginas de “A Piada Infinita” | David Foster Wallace

Cento e trinta páginas de “A Piada Infinita” | David Foster Wallace

A meta ainda está longe

A Piada Infinita”, de David Foster Wallace, foi apontado como o grande acontecimento literário do ano de 2012 em terras lusas. Após terem sido folheadas um cento de páginas e umas quantas dezenas, é altura de subir à tona, recuperar o fôlego e tecer as primeiras impressões, deixando as outras mil para o novo ano que acaba de se espreguiçar.

Wallace faz da pena uma arma e dispara nas mais variadas direcções, com um tipo de escrita tresloucado e embebido em mescalina que, por vezes, traz ao espírito a memória de Burroughs e outras mentes dadas ao uso e abuso de substâncias psicotrópicas. A sua escrita está longe do refinamento e do poder de síntese de Jonathan Franzen – de quem um dia confessou ter inveja –, ou da visão barroca do mundo sonhada por Roberto Bolaño. Para ler “A Piada Infinita” é necessário dar um salto de fé e entrar num remoinho de ideias do qual muito dificilmente se encontrará a saída.

Em “A Piada Infinita” Wallace parece ter criado vários duplos de si próprio: encontramos a paixão pelo ténis, o consumo de marijuana pela calada, a depressão com tendências suicidas, o consumo desenfreado de anti-depressivos, a aversão à solidão e uma genialidade transbordante.

O escritor norte-americano dizia acreditar na literatura como uma espécie de anjo da guarda com funções éticas e morais, devendo os bons livros ajudar os leitores a sentirem-se menos sozinhos. Porém, para ler “A Piada Infinita” de uma ponta à outra será necessário abraçar a mais profunda solidão, como um maratonista que desde cedo deixou para trás os seus perseguidores rumo a quarenta quilómetros de muito sofrimento e crença.

Poderá haver um enorme prazer na leitura de “A Piada Infinita”, mas será obrigatório que isso resulte de um esforço quase sobre-humano. Daqui a mil páginas, se sobrevivermos a este vórtice literário, à letra miúda e às incontáveis notas de rodapé, contaremos qual foi a sensação de ter cortado a meta.



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