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A Pior Nostalgia de Sempre

O amor nos tempos de Nu Metal.

Faltávamos todos às aulas para ir à casa de um amigo – o inevitável amigo que deixava o pessoal ir à casa dele beber coca-cola e jogar consola. Mais cedo ou mais tarde acabavam por ir também os bullies da escola que esvaziavam o frigorífico todo da casa do pobre rapaz – dizia eu, para ir à casa do amigo jogar PlayStation (um, claro está), ver umas gajas boas na ‘net (a Pamela era a rainha) e falar mal dos profs. Inevitavelmente, alguém ligava a aparelhagem. Este artigo fala do que se passava a seguir.

Não é nada bonito olhar para o canône dos grandes álbuns do segundo ciclo e inícios de secundário dos finais dos anos 90 e inícios do novo milénio. Os discos que faziam as delícias dos nossos intervalos vão provavelmente um dia ser revivalizados irónica ou pós ironicamente e se calhar nesse dia já não soarão tão hediondos como soam agora, mas não é esse o propósito do nosso artigo.

Compilamos esta lista para que a história não se esqueça de nós; para que não se transformem magicamente os anos ’00 numa década em que só havia Neptunes, bom Grime, Minimal e a DFA… e também porque, por muito lastimável que esta lista pareça, não deixa de ser uma ternurenta carta de despedida à era do álbum – já com uma piscadela de olho ao gravador de cds (“…por 5€ até te imprimo a capa”) – uma lembrança de um tempo no qual ainda ouvíamos todos os mesmos discos (já ripados, é certo, mas nem zipados, nem remixados), mesmo que não gostassemos deles.

Para além disso, se o Nuno Markl ganha milhões com este tipo de palermices, porque não nós? Somos jovens e precisamos mais do dinheiro.

Offspring – Americana

Chegamos um pouco tarde para o revivalismo Punk dos Green Day (ou será que chegamos cedo?), mas isso não nos impediu de alinhar na versão for retards que eram os Offspring. O “Americana” conquistou corações no oitavo ano graças ao “Pretty Fly (For A White Guy)”, uma música que “dava forte” aos brancos que tinham a mania que eram pretos porque curtiam o Hip-Hop (mal sabíamos nós que poucos anos depois, graças a Eminem, Nelly e 50 Cent seríamos esses brancos – e até os Offspring sentiram a mudança de vento, contratando o Method Man literalmente só para repetir duas palavras no refrão de “American Prankster”, o seu falhado comeback single de 2000). O segundo single era para muitos ainda melhor, uma vez que metia as palavras “bitch” e “dick” e falava do pessoal que não queria trabalhar (já havia consciência social nas nossas lides). Quem ainda não se tivesse rendido podia sempre ser convertido pela excelente capa do álbum, que mostra um puto a andar de baloiço com tentáculos ao lado, e algures no livrinho os tentáculos têm uma máscara do Bill Clinton (Bush ainda não era merda, tínhamos que trabalhar com o que nos davam).

Mas oh, como já se sentiam os primeiros impulsos de vil hipsterismo – na turma havia sempre o gajo mais do Punk que dizia que Offspring era chunga e bom era NOFX.

Red Hot Chilli Peppers – Californication

No Porto, segundo o que nos disseram, os fãs dos RHCP dividiam-se em dois campos: os que curtiam os Red Hot e os que curtiam os Chilli Peppers. Na escola secundária açoriana frequentada por um dos autores deste texto (Antero de Quental, reprezent!), a divisão era mais entre quem dizia Chilli Peppers e quem dizia Chilli Papers (o segundo grupo era bastante maior e, consequentemente, mais fixe). Cada geração tem o “The Wall” que merece (sim, petizes, o vosso é o “My Dark Twisted Fantasy” – bom proveito!) e tal como a obra-prima de Roger Waters sobre como ser estrela de Rock é pior do que ter Sida, deve ter levado muitos jovens ganzados a descobrir o “Dark Side Of The Moon”, o “Californication” permitiu à nossa geração descobrir altas obscuridades como “Under The Bridge” e “Give It Away”, ambas do “BloodSugarSexMagick” (o “Velvet Undeground & Nico” da hora do recreio). Enquanto isso, os Papers iam continuando a alargar os nossos horizontes com malhas como “Scar Tissue”, “Around The World” e a faixa “Californication” (cujo teledisco Altos Gráficos é, para um dos autores deste texto, indissociável de jogar “Crazy Taxi” na Dreamcast).

Metallica – S&M

O álbum que mostrou aos jovens que orquestras podem ser fixes! Parecia tão à frente a ideia de uma banda de Metal poder gravar com uma orquestra sinfónica. Na verdade, toda a gente já sabia que os Metallica eram altamente, por causa do nome e porque eram todos musculados, mas agora o sucesso da música em si alastrava para além do pessoal da pesada – agora até as miúdas podiam curtir (uma vez um dos autores deste texto foi abordado por uma rapariga que queria saber o significado da letra do “Nothing Else Matters” – irónico, visto essa ser provavelmente a única letra dos Metallica que faz algum sentido que seja).

O sucesso do álbum culminou com uma reportagem num telejornal, onde uma jovem professora de música com ar de para quem o pico da diversão é uma ida a uma matinée do La Féria, em jeito de cash in, promovia o seu espectáculo paroquial no qual fazia interpretações das músicas do Metallica no piano afirmando que “as pessoas não sabem, mas os Metallica têm melodias muito bonitas”.

Eminem – The Marshall Mathers LP

Uma mudança total de paradigma – o Eminem era um gajo do Hip-Hop, mas era branco e, como tal, um artista sério (os MCs negros, tirando o 2Pac, que já agora na verdade nunca faleceu, diziam sempre que ele tinha morrido e depois ele fazia outro single, eram mais para a paródia, tipo os pretos nos filmes de acção). O Eminem representava bué a nossa geração, como se podia conferir em malhas como “The Way I Am” e o álbum tinha uns skits altamente em que se ouviam sons de broche, era mesmo para chocar os cotas! Por algum tempo, nos anos de 2002 e 2003, o Eminem foi uma estrela mundial ao nível de um Elvis ou uma Madonna – toda a gente tinha que ter opinião acerca das suas letras, da sua homofobia, do seu ódio às mulheres e de tudo o resto. Olhando para trás, já parece bastante bizarro, essa pequena fase em que o Eminem (agora fora de tangas, um MC de talento, mas cujos álbuns não envelheceram da melhor maneira) conseguia atrair tão fortemente as atenções do mundo.

Limp Bizkit – Significant Other

É Hip Hop mas também é Rock e o gajo tem um boné altamente. Assim era promovido o CD do Limp Bizkit por esses recreios fora. Os “mais à frente” curtiam desde o álbum que tinha o gajo com a lata de graffiti na capa. Os noobs só apanharam o  comboio com o tema da “Missão Impossível” (alô toque de telemóvel monofónico mais milenar de sempre). Havia inclusive um tipo de rastas na escola de um dos autores deste texto que escondia na manga o trunfo de já os conhecer desde o primeiro álbum (aparentemente lançado antes do alto sucesso) e que esse sim era o bom. Mas todos achavam que o Fred Durst era um tipo cheio de estilo.

E quem não se lembra da mítica capa do Blitz “Lisboa 2 – Madrid 0”? Em jeito de satirizar as capas dos jornais desportivos, o então semanal “Blitz” referia-se aos dois concertos dos Limp Bizkit no Pavilhão Atlântico numa tourné em que Madrid (outrora palco de grandes concertos, numa era em que Portugal se tinha de contentar com as transmissões pela televisão e as aparições dos artistas internacionais cingiam-se ao “Passeio dos Alegres”) ficava a ver navios, privada de ser pisada pelos Embaixadores da juventude e das calças largas!

NIRVANA – A banda mais jovem de sempre

Se a geração dos anos ’70 teve que viver sempre com a consciência que os melhores tempos do Rock já tinham passado porque aquele gajo francês poeta que tomou montes de peyote já tinha morrido, à nossa geração não coube um fardo menor: tínhamos que lidar com o facto que, no fundo, era tudo merda porque já não cá estava o KURT.

É um bocado ingrato ter de seleccionar um álbum de Nirvana para esta lista. Afinal todos os seus discos são altos clássicos do best selling, desde o famoso “Nevermind” à caixa de singles (que alguns deitavam fora depois de a comprar ficando só com os CDs – true story), pelo menos.

No entanto, se há álbum emblemático, curiosamente será o “MTV Unplugged”, que dava para curtir todos os sucessos da banda num ambiente mais chill e na companhia dos pais. O KURT – que na vida real até era um gajo com uma colecção de discos decente – aproveitou a ocasião para introduzir o seu público a nomes como David Bowie, Meat Puppets e Leadbelly… e conseguiu imediatamente que as canções destes ficassem para sempre marcadas como canções dos Nirvana na consciência colectiva do refeitório. Mostrar no MiniDisc a versão Leadbelly do “Where Did You Sleep At Night?” aos amigos era uma receita perfeita para a exclusão social permanente – fala quem sabe.

A banda traumatizou muitos jovens que acreditam piamente que depois de Nirvana nunca mais houve música de jeito (felizmente os Pearl Jam andam a vir cá anualmente para destruir esse mito). E o KURT junta-se a outros mártires da juventude como o Bob Marley e o Michael J. Fox. E pensar que o KURT nunca chegou a ver a Internet, o iPhone e o “Big Brother”… mindfuck!

Maryiln Mason –  Mechanical Animals

Marylin Manson (ou “Maryiln Mason”, para os fãs a sério) era o rei do grotesco e de tudo o que há de mau no mundo. Relembrar também que Marylin Mason era o rei dos mitos, desde tirar a costela para fazer o “auto-broche” a matar vacas com motosserras em palco. Para além disso, era também um dos muitos artistas que, ao longo das gerações, foram protagonistas do célebre mito urbano em que uma estrela entra no hospital para lhe tirarem esperma do estômago (lista parcial: Rod Stewart, Marc Almond, Boy George).

Mas todo esse grotesco parecia ainda mais bizarro quando alguém sacava a autobiografia do homem e mostrava a fotografia dele como chavalo – “ei, alto nerd!”  “Pois, esses são os piores”, respondia então um colega mais velho, cheio de sabedoria.

Yann Tiersen – O Fabuloso Destino de Amélie Poulain (OST)

Possivelmente não tão popular como os restantes, mas o álbum de eleição para qualquer alternativo de liceu (do aspirante, que só agora é que começou a curtir cenas mais à frente porque lhe gravaram um CD de Portishead, ao avançado que já ouvia Kruder & Dorfmeister antes deles estarem em destaque permanente na FNAC e até já tinha ouvido falar no Peter Murphy).

A magia de “Amélie” contagiou os jovens com uma queda para as artes (quem não se divertiu a tentar ouvir quantos orgasmos estão a haver na cidade nesse momento?) e nem o racismo implícito do filme que, sendo passado num dos bairros mais étnicos de Paris, tem um elenco quase exclusivamente branco (ok, sabemos que é uma acusação meio forçada, mas querem negar quão delicioso é chocar fãs de “Amélie” com essa ideia?!) conseguiu deter a avalanche de amor às lamechices do Tiersen.

MTV Ibiza, Nova Era – Consumo Obrigatório, Now Vol.XX ou qualquer compilação de sucessos dance que tivesse o Modjo – Lady (e demais hits de pista):

Se por um lado, os jovens gostavam do rock pesado e irreverente que irritava os seus pais e caía bem com a tigela de golden grams matinal, por outro, no fim do trimestre era tempo de ir à discoteca e escutar os ultimos hits do momento.  Como a música electrónica funciona mais por single do que por álbum, a malta jovem arranjava uma compilação que incluísse os hits do momento e que fizessem lembrar aquele Verão no Algarve a fim de enfrentar o novo ano lectivo, cheio de profs, negas e cortes na mesada…

Esta colectânea era normalmente odiada pelos alternativos de liceu, uma vez que aquilo nem era música e “puntz puntz puntz” (pior maneira de sempre de se referir a um estilo musical, conjuntamente com o “yo” do hip hop) não ficava bem enquadrado no meio de guitarradas e versos sofridos.

Claro que a ambiguidade da música electrónica, e o ódio por tudo o que não tivesse instrumentos de cordas ou gajos a rappar na malta alternativa gerava one liners únicos como a proferida por um jovem que perante umas faixas de Drum & Bass tocadas numa festa de hip-hop “Hey, que merda, tá a dar House!”

No Boundaries – A Benefit For The Kosovar Refugees

Jovem que é jovem sempre gostou de se aliar às causas humanitárias e se para isso tem de comprar um CD com músicas “do best” ainda melhor. As vendas do CD “No Boundaries” revertiam a favor das vítimas do Vietname dos anos ’90, a Guerra do Kosovo, mas no fundo, o  que fazia o álbum vender era sem dúvida o infame “Last Kiss” dos Pearl Jam, uma música que encantava qualquer garota de liceu.

De resto o CD dava para conhecer mais umas bandas fixes (tipo Bush ou uns tais de Black Sabbath) e revisitar velhos favoritos – Alanis Morissette e Rage Agains the Machine. Os mais sensíveis, entretanto, iam descobrindo o Britpop na sua melhor fase de sempre. Ah, que aqueles ingleses é que sabiam escrever letras profundas, como podia ser comprovado pelo “He’s Gone” dos Suede (“Tears on a pillow/Eyes on the phone/You pour all the love that you keep inside/Into a song/Like ‘He’s Gone’” – que é a canção que ele está a cantar, vêem como come a cabeça???) e o “Take Me Away” dos Oasis (“I’d like to be/under the sea/where they probably need a phone”). E qual o adolescente que não se insurgia contra os horrores da guerra ao ouvir aquela canção dos Manic Street Preachers chamada, simplesmente, “She Is Suffering”? (e já que falamos dos Manic Street Preachers por pouco não cabia cá o “This Is My Truth, Tell Me Yours”, álbum cuja capa branca levava por vezes a comentários como “Ei, isto é altamente, mas pela capa até parece música clássica!”).

E pronto, está feita uma taxonomia da última grande era dos álbuns. E você, caro leitor, tem algum álbum para adicionar à lista?



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