A Praia

“A Praia” de Peter Asmussen

Férias em que o gelo não derrete

Um encontro de casais no seu precioso tempo de férias, Jan e Sanne, que conhecem Benedikte e Verner, num hotel isolado, que provará muitos desencontros pessoais e materiais, desde a procura pelo quarto certo até sentir “simplesmente medo” pela praia que os acolhe ano após ano, de marcação livre, mas lotada de vícios.

Muitos fantasmas perturbam a nitidez das fronteiras entre o nada que lá se passa e o muito que nos preocupa, coisas como um champanhe, oferta persistente do gerente, até máquinas fotográficas que manterão as nossas memórias para o bem ou para o mal.

Sim, porque a procura pelos pedacinhos de âmbar afoga muitas lembranças.

É neste cenário que esta comédia se situa, publicada em versão de Pedro Mexia, A Praia (Tinta da China, 2018) de Peter Asmussen (1957-2016): dramaturgo contemporâneo, cujas obras variam de libretos de ópera ao cinema.

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Nesta obra, como refere Pedro Mexia existe uma “impossibilidade de dizer”, uma fobia de como começará a conversa, qual o seu desenvolvimento e fim. Por isso as nossas personagens preferem antes discursar e perguntar repetidamente:

Vocês voltam no próximo ano?

O leitor habitua-se a esta falta da palavra, apenas preenchida de perguntas videntes e aparentes tentativas de estabilizar o futuro, que jamais taparão as fissuras do passado.

Se eu morrer primeiro… Se tu ficares sozinho… Dirás coisas bonitas sobre mim? Dirás coisas bonitas sobre mim? Se eu morrer primeiro?

Lemos assim quatro pessoas que existem, mas que se afligem, magoam-se com o silêncio da sua existência. Acenam ao futuro porque o presente é fugitivo e a máquina fotográfica ficou em casa.

Uma edição de Tinta da China.

Tradução de João Reis.



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