“A Presumível Fidelidade das Partes” | Jamie Collyer

“A Presumível Fidelidade das Partes” | Jaime Collyer

O cinismo é a última coisa honesta que nos resta

Psicólogo de formação, o chileno Jaime Collyer tem-se dividido entre a publicação de romances e contos tendo, com estes últimos, conquistado alguns prémios e elogios, entre os quais o sempre simpático prémio de narrativas da revista Playboy. Estudou ainda Relações Internacionais e Ciências Políticas, uma formação académica que, de certa forma, se vê reflectida em “A Presumível Fidelidade das Partes” (Gradiva, 2013).

Diego Lombardi é um homem maduro, para quem a vida já não esconde segredos ou parece ter reservadas grandes surpresas. Tem um casamento em ruínas, a mulher faz-se a outros em público e “Vândalos”, o seu último livro, é confundido como um tributo a Átila por entrevistadores e jornalistas mal preparados.

Kizerbo é um escritor africano que caiu nas boas graças do mundo, não só pelo talento que parece ter mas, sobretudo, pelo seu grande jogo de cintura, que lhe permite ser convidado para tudo o que é programa televisivo e discursar em conferências numa volta ao mundo feita de embaixadas, recepções e automóveis com chauffeur próprio.

Será numa dessas palestras que Kizerbo falará em recriar a Lenda do Rei Monomotama, supostamente um tributo à sua aldeia de origem em África. Para a reinvenção de uma história de que nem ele próprio é grande fã, Kizerbo propõe a Lombardi que trabalhe com ele na sua adaptação, acabando por repartir com ele os louros – numa percentagem a rondar os 90/10 – mas, também, algo com mais substância.

A obra torna-se num fenómeno de vendas até que Judy Rowe, uma funcionária da embaixada norte-americana que se enche de pizza e cornflakes para afogar as mágoas de um desastre amoroso, o coloca numa lista negra como sendo um panfleto do integralismo islâmico. Da fama ao abismo, reescreve-se um caminho agora separado por milímetros.

Apesar de uma capa que parece querer cruzar a atmosfera Bollywoodiana com o ambiente de telenovela venezuelana, “A Presumível Fidelidade das Partes” é uma excelente dissecação da alma humana, pautada por um sarcasmo exemplar e um humor corrosivo. E que, no final, acaba por revelar uma estranha e amargurada máxima: «O cinismo é uma das poucas opções honestas que nos restam nesta cilada em que se transformou o mundo.»



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