“A Rapariga no Comboio” de Paula Hawkins

“A Rapariga no Comboio” de Paula Hawkins

Episódios da Vida Real

Alguns livros, fruto de uma boa estratégia de marketing, antes mesmo de folheados, já estão  interiorizados no espírito do leitor. Ainda que não se trate de um fenómeno muito habitual, no passado recente vivemos essa sensação com, por exemplo, o lançamento de livros como “O Pintassilgo” de Donna Tart ou “Quando o Cuco Chama” de Robert Gailbright, a.k.a. J. K. Rowling.

Hoje, dentro do universo literário nacional (e não só) que atire a primeira pedra quem nunca ouviu falar de “A Rapariga no Comboio” (Top Seller, 2015), primeira obra de Paula Hawkins, uma ex-jornalista natural do Zimbabwe que decidiu dedicar-se em exclusivo à escrita de romances.

E dificilmente poderia ter um melhor começo. Em cópia avançada, gentilmente cedida pela editora, pudemos constatar o porquê da obra ter vendido mais de dois milhões de cópias em três meses.

No centro da ação está Rachel Watson, uma dos milhares de pessoas que se serve do comboio para chegar ao seu destino, seja ele o emprego ou outra qualquer fatia de uma atribulada vida que se revela diariamente com um somatório de experiências que alternam entre a rotina, a surpresa e uma complicada aceitação da própria existência.

Num desses episódios de vida real, a caminho do trabalho, Rachel segue com os olhos um cenário habitual. A monotonia da viagem faz com que se concentre em pormenores daquilo que vê. A vista percorre o exterior. Observa casas, pessoas, vidas. Na cabeça de Rachel, essas habitações, as pessoas que observa, têm nomes e vidas imaginárias. E isso acontece em particular cim um casal que “acompanha” diariamente. A viver uma das fases mais dramáticas da sua vida, Rachel atribui a essas duas pessoas, homem e mulher, o ónus da vida perfeita, algo que perdeu recentemente depois de se separar de Tom.

Mas um dia, como qualquer outro, tudo muda. Rachel, no conforto da sua plateia móvel diária, nota que algo se passa com o casal. A sensação é rápida mas a imagem fica gravada dentro de si, para sempre. Perturbada, quer saber o que se passa, o que julga ter acontecido.

Envolta de um misto de sagacidade voyeur e um espírito resiliente que a faz lutar ou ceder face ao prazer fácil do álcool, Rachel entra numa viagem cujo bilhete pode pagar com a própria vida. Decidida, fala com a polícia, conta o que viu, nega-se, afirma-se e torna-se (in)voluntariamente num importante peão de um tabuleiro vertiginoso onde cada jogada afeta a vida de várias pessoas e onde a mentira legitima qualquer ação ou atitude.

Os dados estão assim lançados para um cativante thriller de contornos distorcidos pela própria mente humana e que encontra nas palavras de Paula Hawkins um elo perfeito para a construção de um mistério que se assume como um caleidoscópio de segredos dolorosos que revelam verdades enterradas e cauterizam um passado longínquo.

A construção do curto elenco é uma das mais-valias de “A Rapariga no Comboio” e tanto Rachel como Megan, Anna, Tom ou Scott podem ser a solução ou o problema de toda a trama. Se no início da narrativa a sua dinâmica pode “baralhar” um pouco o leitor (cada capítulo é uma peça única de um quebra-cabeças apresentado sobre a forma de um relato individual e datado que é sinónimo de uma perspetivação espácio-temporal de uma mesma fatia da história) facilmente somos levados a “encarrilar” no todo à boleia de uma narração tripartida.

Entre idiossincrasias, vinganças, medos, obsessões, egoísmos e cenários de bipolaridade(s) coletiva(s), Hawkins cria um enredo que funda uma saudável expetactiva e enleia personagens, vivências, dores e acontecimentos vividos entre um passado que se quer ou lembrado ou esquecido, e um presente vivido em contrarrelógio.

A própria disparidade entre a cadência dos acontecimentos relatados pelas diferentes personagens, especialmente nos casos de Megan e Rachel, lembra uma analogia entre comboios que, a determinada altura do seu percurso vão, invariavelmente, ter de colidir, chocar, e desse acidente resultará fraturas que expõem vidas que misturam fantasia com uma realidade dolorosa ainda que os nomes possam mudar, ser reinventados ou assumir papeis indesejados de outrem.

Com elevadas doses de suspense, “A Rapariga no Comboio” é um livro que fala de gente “normal” e que se devora com avidez, que completa e alimenta a curiosidade mórbida pela vida alheia e que sublinha a ideia de que ninguém está a salvo num mundo em que qualquer um pode não ser o que realmente aparenta.

 



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