“A verdade sobre o caso Harry Quebert” | Joel Dicker

“A verdade sobre o caso Harry Quebert” | Joel Dicker

Uma imensa fraude, uma grande e magnífica ilusão ou um tremendo golpe de génio?

Não se reconhecem a Joel Dicker poderes de adivinhação ou uma inclinação para a feitura de profecias, mas a verdade é que, a primeira frase do prólogo escrito para “A verdade sobre o caso Harry Quebert” (Alfaguara, 2013), acabou por se concretizar como uma profecia de Nostradamus (mas ao contrário, já que as deste raramente resultaram): «Toda a gente falava do livro.»

Com apenas 28 anos, Joel Dicker conquistou com este seu segundo romance o Grande Prémio de Romance da Academia Francesa, o Prémio Goncourt des Lyséens e o Prémio da Revista Lire para o Melhor Romance em Língua Francesa. Será caso para tanto? Vamos por partes.

“A verdade sobre o caso Harry Quebert” é-nos vendido, logo de entrada, como a confissão literária de Marcus Goldman, uma espécie de edição Writer`s Cut, que depois da publicação do seu segundo romance deixou de conseguir passear pelas ruas de Nova Iorque sem ter de responder a perguntas sobre Nola Kellergan e o que, na realidade, teria acontecido em Aurora no ano de 1975. Mas voltemos atrás.

Marcus Goldman atravessou o liceu com a alcunha de “O Formidável”, construída com muito jogo de cintura e uma habilidade extrema no «fintar as relações com os outros», até que deu de caras com Harry Quebert, um professor universitário que lhe ensinou aquela que se veio a tornar numa das suas grandes máximas: «A vida é uma longa queda (…), o mais importante é saber cair».

Goldman torna-se num discípulo de Quebert, também ele escritor, autor de um grande épico da literatura: “As origens do mal”. Depois de terminar o curso Goldman cumpre a promessa e torna-se um escritor prestigiado logo com o primeiro livro, entregando-se a um estilo de vida na onda de um sex, drugs & rock n roll numa versão um pouco mais moderada. Assina um contrato para uma mão cheia de livros com uma editora mas, na Primavera de 2008, quando supostamente teria já bem encaminhado o seu segundo romance, vê-se a braços com a célebre “crise da página em branco”.

Desesperado, decide retomar o contacto com Harry Quebert, que lhe oferece a sua casa em Aurora como forma de receber uma divina inspiração para a escrita do livro. Apesar do tranquilo e inspirador cenário natural, Goldman parece estar sem ideias, e é numa das suas deambulações pela casa, e seguindo um impulso intrusor, que encontra no escritório uma caixa com fotos e artigos de jornal sobre Nola Kellergan, uma jovem de quinze anos que no Verão de 1975 desapareceu misteriosamente da vila sem deixar rasto. Nola é o grande segredo de Harry, uma relação proibida com muito de Lolita que virou de avesso a vida de Quebert.

Poucos meses mais tarde, o cadáver de Nola é descoberto no jardim de Quebert, segurando na mão o manuscrito de “As origens do Mal”. Entre a pressão da editora e a crença na inocência do amigo, Marcus Goldman decide escrever um livro que conte toda a verdade sobre o caso, lançando-se numa perigosa investigação que vai acordar todos os fantasmas adormecidos da pequena vila costeira de Nova Inglaterra.

“A verdade sobre o caso Harry Quebert” é um puzzle imenso de géneros e visões literárias: uma história policial, uma falsa biografia, um guia para aspirantes a escritor, uma sátira ao mundo editorial, feito de contratos ao metro e a uma escrita com os olhos no calendário. É também um livro dentro de muitos livros, um daqueles raros exemplares que, depois de folheadas poucas páginas, se devoram sem dar importância a refeições, trabalho ou horas de sono.

No final, dependendo do ângulo de visão, seremos tentados a julgá-lo como uma imensa fraude, uma grande e magnífica ilusão ou um tremendo golpe de génio. Olhado como a reposição da verdade derradeira pela Literatura – ou simplesmente como umas horas bem passadas -, “A verdade sobre o caso Harry Quebert” é um livro imenso, um daqueles livros raros que, na verdade, nunca chegam a terminar. Joel Dicker está de parabéns.



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