aviagem

“A Viagem”

Antígona no Monovolume.

Quando assistimos a um filme, não podemos perder de vista que mesmo quando ele é baseado em factos reais, ele está a tentar contar-nos uma história. Uma história que deve conter toda a informação necessária para entendermos a trama, caracterizar as personagens e entender as suas motivações….e ainda nos deve fazer sentir, pensar, reagir e tudo – na maior parte dos casos – em 120 minutos ou menos.

A partir do momento em que conseguimos nos abstrair de situações  irrealistas, diálogos forçados e metamorfoses rápidas demais para serem levadas a sério, podemos relaxar e apreciar a história ou estória (dependendo dos casos) que nos trouxe até ao cinema.  E neste caso em particular, é uma estória muito menos interessante do que a verdadeira história que lhe serve de fundo.

Realizado por Nick Hamm, realizador e produtor de Cinema, Teatro e Televisão, premiado com um Bafta pelo seu filme  “The Harmfulness of Tobacco” ; este filme inspirado em factos não só reais mas de profunda importância histórica, parte de uma premissa tão original quanto controversa e que é o próprio Hamm – nascido em Belfast em 1957 –  que descreve : “This story imagines that journey”. Ou seja, Hamm deixa desde logo bem claro que os eventos que decorrem no filme , são na realidade uma espécie de alegoria relativamente ao grande caminho para a pacificação e unificação da Irlanda do Norte, empreendida pelo reverendo e líder dos Unionistas Ian Pasley e o Ex- comandante operacional do IRA e figura de destaque do braço político do Exército Republicano Irlandês, o Sinn Féin.

Para criar essa história alegórica, Hamm uniu-se ao também filho da Irlanda do Norte, Colin Bateman, argumentista mais conhecido por séries de TV,  que consegue aqui uma narrativa com algum interesse ainda que – como dissemos atrás – completamente inverosímil.

A ação decorre em 2006, nas negociações promovidas pelo governo de Tony Blair para tentar encontrar uma solução pacífica para a Irlanda do Norte e que por razões estratégicas decorreu em St. Andrews na Escócia.

Tony Blair e o seu homem de confiança e líder do MI5 (Serviço de Segurança Interna Inglesa), Harry Patterson , estão esperançados que finalmente seja encontrada uma solução para um conflito que já dura há cerca de quatro décadas.

Ian Pasley já com 81 anos e Martin McGuinness a chegar aos 60 anos, já não são os jovens impetuosos e desejosos de confrontação dos primeiros tempos , o que na opinião dos mediadores britânicos pode permitir por um lado, enterrar o machado de guerra e deixar a promessa de um legado político para ambos e por outro lado eliminar a mais que provável ascensão de membros mais jovens e radicais de ambos os partidos, o que obviamente aumentaria a escalada de violência e deitaria por terra quaisquer hipóteses de armistício.

No entanto, ao contrário das aspirações de Blair e do seu governo, o tempo pode cicatrizar as feridas do corpo mas dificilmente cura as dores da alma…e as conversações iniciam-se com tremenda dificuldade.

Mas um evento aparentemente sem relevância vai colocar os dois adversários dentro de um veículo, para uma viagem cheia de simbolismos e confrontações.

Tudo sob o olhar atento do MI5…

A Viagem é um filme que pode ser observado através de vários prismas:

Enquanto produto de entretenimento, é um filme agradável , com momentos de alguma profundidade e uma enorme interpretação de Timothy Spall no papel do octogenário Pasley. Aliás é ele que leva na maior parte dos momentos, o filme às costas.

Colm Meaney interpreta com competência o republicano McGuinness e John Hurt é…John Hurt ,desta vez na pele de Patterson

O resto das interpretações é absolutamente anódina, excluindo Toby Stephens , que muito distante das suas brilhante interpretações de personagens shakespearianas e do capitão pirata Flint, em Velas Negras, aqui tem uma interpretação desconcertante, dando vida a um Tony Blair histriónico e confusional.

Para esquecer…

Olhando do ponto de vista de documento histórico, o filme tem – na minha opinião – um grave problema, que é, o de converter um longo processo de transformação interior de cada uma das personagens históricas, num conjunto de situações algo simplistas e onde o realizador vai colocando cada um marcos históricos do conflito , alternadamente na boca de Pasley e McGuinness, como se estivéssemos a assistir a um jogo de ténis onde todas as bolas vão bater na cara do adversário.

Por outro lado a realização de Hamm deixa demasiado óbvio o que ele pensa de cada um dos personagens tornando-os por vezes algo caricaturais. Essa opção ou compulsão deixa claro o que politicamente Hamm considera ser o papel da Inglaterra no conflito irlandês e os traços mais marcantes dos unionistas e dos republicanos.

Talvez a alegoria vá um pouco para além do desejável.

Finalmente , A Viagem pode  também ser uma espécie da Antígona moderna, onde fica claro que em qualquer assunto onde existam convicções profundas e  antagónicas, todos podem estar certos estando equivocados e é sempre possível estar equivocado …estando certo.

A Viagem sai daqui com um Satisfaz.



Também poderás gostar


Pin It on Pinterest

Share This