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“A Viúva Negra” de Daniel Silva

No olho do furacão

E finalmente tivemos notícias de Gabriel Allon, o filho rebelde do núcleo duro da espionagem israelita, que regressa em grande por via de outra obra-prima de Daniel Silva em forma de thriller.

Pouco mais de um ano após O Espião Inglês, o escritor norte-americano faz chegar-nos A Viúva Negra (Harper Collins, 2017), a décima sexta aventura de um (anti)herói que teima lutar pela paz, seja, paradoxalmente, de arma na mão ou na frente de um quadro cuja pintura merece o devido restauro, ainda que esteja cada vez mais perto da cadeira do gabinete de direção de o Departamento, a conhecida agência de espionagem israelita.

E é também outra paz que Allon persegue, agora que Chiara, sua esposa, deu à luz os gémeos Rafael e Irene. Mas tudo se altera dias antes de Gabriel ocupar o lugar de Uzi Navot, seu amigo e atual diretor do Departamento, quando uma terrível explosão assola um bairro judeu em França e obriga o israelita a abraçar uma derradeira missão.

Quem conhece o percurso de Allon, sabe que este não e o seu primeiro trabalho por terras da “igualdade, liberdade e fraternidade”, com a bênção do governo local, mas este caso parece ser incomparável com tudo o que já viveu, principalmente pelos danos emocionais que o atingem. Entre as vítimas do atentado está Hannah Weinberg — nome que surge pela primeira vez no universo de Daniel Silva aquando da publicação de A Mensageira — alguém muito querido do espião israelita cujo espólio de arte incluiu um famoso quadro avaliado em mais de dois milhões de dólares e que, na sequência do seu desaparecimento, passa a ser de Allon por herança, mas, entretanto, fica confiscado pelas autoridades francesas até Gabriel terminar a investigação.

O objetivo é capturar o homem que está por trás de um conjunto de atentados, um terrorista implacável que se autodenomina como Saladino. A dificuldade desta missão é extrema, para mais numa fase em que o grupo terrorista ISIS consegue recrutar para os seus quadros homens e mulheres de todo o mundo. Mas Gabriel está atento e a vontade de justiça, e vingança, leva-o a conseguir infiltrar uma agente no coração do ISIS.

Mas não se trata de um agente experiente. Muito longe disso. A importante missão está nas mãos de Natalie Mizrahi, uma médica francesa, com raízes israelitas, que exerce em Jerusalém. A escolhida tem assim de passar por um intensa treino e algumas experiências extremas até conseguir assumir a identidade de Leila Hadawi, a ficcional filha de refugiados palestinianos que se transforma na viúva negra de Allon, designação de algumas mulheres que integram as fileiras do ISIS e têm como missão final ataques suicidas.

capa

Conseguirá Leila o seu objetivo? Será esta a última missão de Gabriel no terreno antes de assumir a cadeira mais importante de um conhecido edifício da Avenida Rei Saul? As respostas estão todas em A Viúva Negra, um dos melhores romances de Daniel Silva e que é também um retrato fiel das ações que os terroristas islâmicos têm levado a cabo um pouco por todo o mundo ocidental.

E são as páginas preenchidas com as deambulações, mais ou menos arriscadas, de Mizrahi que mais traduzem a magia da escrita do autor norte-americano e deixam o leitor sempre ligado à magnitude de uma missão especial. O trabalho descritivo de Daniel Silva face ao carácter do personagem de Leila envolve, contextualiza e adensa o mistério, permitindo ainda o equilíbrio “realista” a toda a narrativa face a tantas reviravoltas e intensidade dramática.

O suspense crescente e a credibilidade de tudo o que este livro sublinha faz com que o leitor se apaixone por este romance, talvez o mais negro da toda a série e que deixa a dúvida no ar até quase ao suspiro final. E para isso também muito contribui o perfil eficiente de Saladino, um dos mais interessantes vilões, de identidade mística, do universo dos thrillers.

No que toca ao próprio personagem de Gabriel, notam-se as anunciadas mudanças verificadas dos últimos livros pois o “risco” do espião israelita se tornar num burocrata é muito mais que uma ameaça velada. Até nesse sentido Daniel Silva tem o cuidado de nos preparar e fazer com que se entenda o porquê dessa decisão face a um protagonista cada vez mais ligado à ideia de família.

Paralelamente a toda esta génese ficcionada, A Viúva Negra tem uma precisão atraentemente profética pois foi escrito antes dos massacres de Paris em novembro de 2015 e revela-se, infelizmente, assertivo, e esse assunto está bem retratado no prefácio do livro. Isso é fruto da capacidade de Daniel Silva entender a conjuntura política internacional, de perceber onde estão as eventuais raízes de uma violência que ameaça a paz no mundo, falemos de França, Inglaterra, Bélgica, Estados Unidos ou qualquer outro ponto do mundo ocidental.



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