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A Woman Alone

Às vezes não há mais ninguém com quem conversar do que o vizinho que se apanha de passagem e que por momentos é o maior confidente da vida de alguém. Lee Delong, actriz e performer americana, apresentou no Porto “A Woman Alone” de Dario Fo e Franca Rame. É teatro, é a vida...

Depois de ter passado por vários países “A Woman Alone” chegou finalmente a Portugal nos dias 10 e 11 de Setembro, no Teatro Sá da Bandeira. A protagonista, Lee Delong, além do espectáculo trouxe também um workshop de palhaço sobre o qual garante que saíram potenciais profissionais do riso. Ambos os eventos foram promovidos pela associação portuense Terra na Boca, criada em 2009 e dirigida por Luciano Amarelo.

Apesar dos seus traços do leste europeu Lee Delong é americana e diz que tem antepassados dessa região, mas já muito distantes. Nasceu em West Virginia e recusa-se a publicar a sua idade, não por ser uma senhora, mas sim porque actualmente é mais difícil para as mulheres conseguirem papéis do que para os homens. No início da sua actividade trabalhava gratuitamente como actriz em pequenas salas de espectáculos e fazia de palhaço em festas de aniversário e outros eventos para conseguir ganhar dinheiro. Isto em Nova Iorque, cidade que decidiu abandonar para prosseguir a sua carreira. Partiu para Paris, onde vive há 25 anos numa vila periférica.

“A Woman Alone” conta a história de uma mulher vítima de abusos do seu marido que não a deixa sair de casa e de assédio por parte do seu cunhado, que anda numa cadeira de rodas e também vive no seu lar. De uma forma intensa e apaixonante ela revela o seu quotidiano condenada aos cuidados domésticos, ao bebé e ao isolamento.

Lee Delong transporta orgulhosamente consigo três prémios ganhos com este espectáculo: o de melhor actriz e escolha do público no Festival Internacional de Teatro Mess, Sarajevo, 2007, e o mestre em representação – Prémio Mravac – no Festival Mostar Poetic Authors, Bósnia-Herzegovina, 2009.

Quantos anos tem o espectáculo?

Começou em 2003, em francês, no teatro de Chaudron, La Cartoucherie, Paris, e depois, em 2007, deu-se início à versão inglesa. O espectáculo realiza-se uma vez por ano sempre em lugares diferentes.

Se em “A Woman Alone” a protagonista está fechada dentro de casa porque o seu marido assim a deixa, porque figura um banco de jardim no palco durante a peça? Está ela a sonhar?

Na peça original ela está fechada dentro de casa com o bebé, o cunhado, a tábua de passar a ferro, o ferro, e o telefone sempre a tocar. A repetição da peça vezes sem conta, combinada com a interpretação do director Bob Meyer e a minha, levou a que alterássemos o cenário. Portanto, ao fazer esta mulher passar por esta realidade que vive há 20 anos, decidimos dar-lhe voz num espaço exterior, onde ela conta a sua história repetidamente, como se fosse uma daquelas velhinhas que vemos na rua a falarem sozinhas sobre os maridos que as deixaram, que morreram, sobre os seus filhos que as abandonaram e como elas acabaram na rua.

Esta mulher é uma dessas pessoas incríveis que quando as vemos, evitamos e caminhamos noutra direcção porque elas são loucas. Mas neste caso, temos esta mulher no palco e podemos contemplá-la. E é por isso que há um banco público, porque ela está num parque.

Infelizmente, as jovens da nossa sociedade vêem o movimento feminista como algo obsoleto e fora de moda. Sente-se responsável pela reconstrução desses valores? Acha que mais eventos culturais desta índole deveriam existir e persistir?

Eu acho muito importante o tema que está por trás da mulher fechada dentro de casa. Acho que é fácil hoje em dia para as mulheres gozarem da liberdade ganha pelo movimento feminista. E se elas acham que está fora de moda, basta pensar nas mulheres que estão no Irão, Iraque, Paquistão, no sul de França, mulheres que ainda são escravas dos homens. Ao pensar nelas concluímos que esta peça é muito importante. Recentemente na Time saiu uma jovem com o nariz e as orelhas cortadas porque ela fugiu da sua família que a espancava. A mulher ainda não é livre e o trabalho ainda não acabou. O estado das mulheres pelo mundo é grave e não é preciso ir ao Irão ou ao Iraque para encontrar estas situações. Podemos encontrar no nosso quintal. Se as mulheres acham que estes valores são do passado ou não, na verdade não importa, o que importa são as mulheres que são escravizadas. Eu sei que de momento as jovens dos subúrbios de Paris são tratadas de forma inferior devido à pressão dos amigos. E elas aceitam, porque senão não arranjam namorados, e portanto comportam-se dessa forma. Estamos no ano 2010 e não deveria existir violência doméstica ou escravatura, nem de mulheres, crianças ou homens. Devíamos avançar para uma nova era. Quando é que vamos acordar? Quando vamos abrir os olhos? É tempo de acordarmos já. É essa a mensagem de Dario Fo e Franca Rame. É “acordem”, “enfrentem”. É uma mensagem importante e di-la-ei até morrer. Desta forma, agradeço à Associação Terra na Boca e a Luciano Amarelo a oportunidade de dizê-lo outra vez aqui no Porto.

Vive em França há 25 anos e desempenha a personagem de palhaço. Como caracteriza o humor francês?

O palhaço é muito importante em França. Até há pouco tempo, o centro do palhaço era em Itália, mas de alguma forma, mudou-se para França. Lá existem muitos palhaços, há o Clown Care, Le Rire Médecin – palhaços que trabalham em hospitais, Clowns Sans Frontières – palhaços que trabalham em áreas problemáticas como na Índia, Paquistão, Ex-Jugoslávia, etc. Há todos os tipos de palhaços, os professores palhaço, palhaço, palhaço, palhaço…De facto, há até demais. Existem muitos profissionais palhaço em França. E sim, os franceses têm um sentido de humor muito forte. De facto, têm um tipo de humor especial. Basta apenas ver os filmes de Jacques Tati. Comparando com o humor britânico ou americano eu penso que é um humor mais louco do que o anglo-saxónico. Mas sem dúvida, os franceses gostam de umas boas gargalhadas.

Levou o palhaço através de que terras?

Muitos países: EUA, claro, Irlanda, Escócia, Espanha, Alemanha, Rússia, toda a ex-Jugoslávia, Grécia, etc. Actuei em vários países.

Como classifica o humor deles? É universal ou há públicos culturais mais fáceis que outros?

Aquilo que estou a ensinar agora, o palhaço de nariz vermelho, é um personagem com características especiais que atravessa as fronteiras de todas as culturas. Todos sem excepção conseguem rir do palhaço de nariz vermelho. No entanto, existem diferentes tipos de humor, sim, humores que vêm de diferentes tipos de cultura, sem dúvida: a loucura dos franceses, a qualidade “quase” esotérica dos russos, o humor físico dos japoneses, etc. É muito diferente em todos os lugares, mas o palhaço ultrapassa todas as fronteiras e isso acontece porque ele é muito humano.

Vejo que sente uma grande gratidão em representar o palhaço.

Absolutamente. O palhaço é o mais alto dos estilos. O meu professor Lecoq sempre disse: “há grandes actores que não são palhaços, mas não existem grandes palhaços que não sejam grandes actores”. Portanto, para mim o palhaço é a forma mais elevada de representação.

O que ensina nas aulas? Como pode uma pessoa ser um bom palhaço?

O mais importante é encontrar a nossa principal franqueza. Assim que a encontrarmos e reconhecemos onde falhamos, estamos no caminho para nos tornarmos um bom palhaço. Porque quando as pessoas estão a ver um palhaço e riem, elas riem porque vêem-se a elas próprias em situações idênticas quando o palhaço está a representar esse defeito. Portanto, o palhaço tem que falhar constantemente. Quanto mais ele falha, mais o público falha. Por exemplo, alguém que tem pernas muito magras, se ele as mostra já está no caminho para se tornar um bom palhaço. Ou se alguém tem uma barriga grande e usa-a, o público adora. E há outra coisa muito importante para o palhaço, que chamamos “Flop”. O Flop ocorre quando o palhaço pensa que é fantástico, lindo, forte e talentoso, e faz algo para nos mostrar isso com um truque de malabarismo e falha. Isso é um Flop. E todos riem não porque ele tem sucesso, mas porque falha.

Artes performativas, teatro, etc, são áreas profissionais muito difíceis em Portugal. Alguns vão para o estrangeiro mas outros ficam. O que pode transmitir aos seguidores destas disciplinas?

Em primeiro lugar, eu acho que os gregos acertaram em cheio. A sociedade não pode existir sem teatro, que foi das primeiras coisas a acontecer ao Homem. Foi um dos primeiros passos em direcção à civilização. Quando o homem andava a caçar o tigre, capturá-lo e conseguir comida para toda a tribo, a primeira coisa que ele fez foi vestir a pele do tigre e mostrar que matou o tigre. Este foi o início do teatro. E quando falo nos gregos falo no sentido de que cada cidade deve ter um estádio, uma biblioteca e um teatro. Todas as culturas precisam disto, algo que aparentemente está esquecido pelos nossos governos actuais. Aonde vai a cultura, vai a sociedade. A televisão não é suficiente, a televisão é televisão, é uma entidade à volta dela própria. Sem cultura não somos sociedade. O que eu posso dizer aos jovens de hoje em dia? Simples: sejam criativos. Continuem a criar. Não fiquem agarrados a um computador 24 horas por dia. Encontrem outra forma de se expressarem. Toda a gente tem de descobrir se o seu meio é a música, a dança, pintura, escultura, se é correr pela rua abaixo a gritar, lançar papagaios… Encontrem uma forma de se expressarem, viverão mais tempo e serão pessoas mais felizes.

Fotografia de José Pedras



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