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Abravana!

Mais uma noite do Festival Jameson Urban Routes @ Musicbox, dia 23 de Outubro.

Actual baluarte lisboeta de estéticas, ritmos e paradigmas contemporâneos, o espaço Musicbox acolheu, no passado dia 23 de Outubro, mais uma noite do Festival Jameson Urban Routes.

Nesta noite, as libertações artísticas propostas chegaram em registos e inflexões distintas.

Na primeira parte a novata Andreya Triana, do Reino Unido, fez crer na naturalidade e simplicidade da soul enquanto um pilar da pop music, embora faltasse um pouco o fulgor áspero e genuíno de convicções fortes que tanto marcam a soul, como as fusões funk e jazz mais abrasivas.

A essência vital que ilumina o registo passou, mas não acendeu a candeia suficiente tempo que conservasse a ligação orgânica a todas as variantes e as fundisse de modo a tornar essa libertação, ainda, mais clara.

Retêm-se na memória «Shine», «Angel Lady» e o cover do tema celebrizado nos anos 80 pelos Eurythmics, «Sweet Dreams».

Cibelle, actualmente a brasileira mais original e carismática em terras de sua majestade, surge na segunda parte. Entre arranjos nada convencionais, brinquedos, um ou outro ruído de animais selvagens e canções escritas em português e inglês, onde – tal como no disco “The Shine of electric Dried Leaves” – perpetua o rebuscar de matrizes tradicionais e lhes acrescenta uma nova atitude com a introdução de guitarras eléctricas, bateria e programações electrónicas, consegue cativar o público do Musicbox nesta noite.

Goste-se ou não, ter-se-á de convir que dificilmente nos recordaremos de um outro artista no panorama menos convencional com o cariz imaginativo e particular desta produtora/cantora/compositora e artista plástica.

«White Hair» e «Sapato Azul» conservam a atmosfera etérica do trabalho anterior; em “Abravana” sobressaem a atitude punk da cantora e o desbravar em cumplicidade com quem assiste.

Os sons conceptuais e pós-modernos – que lembram, nalguns momentos, a atitude musical e performativa da islandesa Björk – a interacção com os restantes músicos, onde se destaca o baterista que a acompanhou, as projecções que passavam aquando a actuação e que salientam cenas de filmes e imagens que inspiraram a artista, densificaram a sua performance.

Também The Legendary Tigerman foi convidado e subiu ao palco MusicBox de guitarra em punho, duas vezes, para com Cibelle  nos presentear com duas das músicas que integram o seu recente “Femina” e nas quais Cibelle empresta, em surpreendente interpretação, voz – «I Just Wanna Know (What We´re Gonna Do)» e «True Love Will Find You In The End».

Menos positiva foi a versão a solo, excessivamente sussurrada, de «Let´s Dance» (David Bowie).

À exuberância e aposta cénico-teatral da brasileira de São Paulo – que terá em 2007 agradado, inclusive, ao mentor de Talking Heads, David Byrne – juntam-se, no seu trajecto criativo, colaboradores de peso. Destacam-se co-produtores e artistas como Mike Lindsay (Tunng), Yann Arnaud (Air,Sebastien Schuller), Devendra Banhart e Spleen.

Não deixa de ser interessante salientar, talvez até por esclarecimento de teorias menos grandiosas e/ou pouco hedonistas acerca da ligação de “novos brilhos” cosmopolitas, a reciprocidade de atitudes musicais de raízes audaciosas com artes pouco participativas e elitizadas ao longo de décadas. Cibelle, além de ter participado na performance do colectivo AVAF durante a Bienal de 2008 e criado e divulgado instalações de arte durante a GOLD 08, em Londres, cada vez mais tem-se apresentado em museus um pouco por todo o lado.



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