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Adam Green

Santiago Alquimista, 4 de Março de 2010.

Curiosa será, no mínimo, a palavra indicada para descrever a história de Adam Green com Portugal. Ora expliquemos: em 2006, durante a primeira visita ao nosso país, Adam Green tinha acabado de lançar “Jacket full of danger”, um disco de canções de cabaret cheio de orquestrações, e apresentou-se sozinho em palco, apenas armado de guitarra acústica. Agora, neste seu regresso a solo nacional, Adam Green tem no seu mais recente trabalho, “Minor love”, um retorno ensaiado à sua essência de cantautor, mas apresentou-se ao vivo com banda completa. Curioso no mímino, contraditório no máximo.

Adam Green é uma personagem única. Com uma voz de crooner fantástica, Green parece uma mistura do ar esgazeado de Fernando Alvim com o Disco Stu, a personagem disco dos Simpsons. E a fatiota que trazia – calças à boca de sino e blusão de cabedal com lantejoulas – só sublinharam mais ainda essa componente de desenho-animado.

Dançarino incansável e entertainer nato, Adam Green fez do concerto uma espécie de best of da sua carreira, sendo particularmente generoso com o seu álbum mais recente, mas em formato powerpop e com queda para o funk. Insuflando os seus temas de ginga, «Gemstone» e «Bunnyranch» lançaram a actuação a cem à hora. E ao terceiro tema, «Drugs», mesmo com uma meia-casa no Santiago Alquimista, Adam Green já andava a praticar crowd surfing nos braços da plateia (algo que iria repetir ainda mais uma vez). “I like to do drugs”, reza a canção às tantas. E perante o alucinado início do concerto não era preciso dizê-lo para o adivinharmos.

Acompanhado por uma banda tecnicamente perfeita, daquelas bandas de estúdio que fazem as delícias de qualquer músico numa sessão de gravação, os temas entraram em novos arranjos prolongados por mudanças de ritmo mais ou menos inesperadas, ganhando vida nova e sempre empolgadas pelo ânimo de Adam Green. O empenho foi tanto que até o humor cáustico das suas letras parece soar mais a sério ao vivo e a anti-folk subversiva transforma-se em rock’n’roll hedonista. Só assim se aceita, sem pestanejar, o medley que começa com o gospel cristão de «Prince’s bed» e termina com «Crackhouse blues» em modo rock de estádio.

Pelo meio, ainda tempo para ensaiar a tal pose de cantautor folk, para a qual tem real queda, apesar da displicência com que interpreta as canções. No entanto, a voz profunda e cava dá-lhe uma seriedade de arauto e não deixa as música descambar na patetice. Neste formato ouviram-se «Bluebirds» e o novo «Boss inside», em versão murder ballad, com slide guitar por trás e tudo.

Depois de encerrar a actuação com «Dance with me» e «Jessica», cantado pelo próprio público – e mesmo assim com mais “amor” do que as músicas da própria Jessica Simpson –, Adam Green e a sua banda regressaram para o encore, onde satisfizeram o pedido de discos pedidos de uma incansável fã que não parou de pedir o «Carolina» e remataram o concerto com um violento e épico «Baby’s gonna die tonight»: Adam Green em tronco nu junto ao público, guitarras em riste, secção rítmica ao despique e o baterista de pé sobre o bombo, a massacrar os pratos e os timbalões.

Na primeira parte esteve o também esgazeado e introvertido Ish Marquez, um cantautor daqueles que faz da voz uma arma de intervenção e com um edifício sónico erguido à guitarra eléctrica de forma, por vezes, inesperada.



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