“Admirável Mundo Novo” | Aldous Huxley

“Admirável Mundo Novo” | Aldous Huxley

Comunidade, identidade, estabilidade

Quando a ideia é falar de sociedades sonhadas a preto e branco, é inevitável regressarmos ao triângulo das bermudas no que diz respeito às distopias: “Nós”, de Zamiatine; “1984”, de George Orwell; e “Admirável Mundo Novo”, de Aldous Huxley.

Com dois dos seus vértices já desenhados, a Antígona quis encerrar a figura geométrica editando aquele que, de entre eles, apresenta um sentido de humor fora do comum. Até ao momento “Admirável Mundo Novo” (Antígona, 2013) apenas contava com a edição de 1955 dos Livros do Brasil, pelo que era urgente e necessária esta missão com ar de serviço público acrescentando, a um novo design – num livro que se poderá olhar como uma caixa de comprimidos para a alma -, uma revisitação à tradução de Mário-Henrique Leiria, com uma revisão ortográfica profunda e a correcção de «anomalias de natureza técnica e linguístico-literária», partindo de uma releitura da antiga tradução à luz do texto original na língua inglesa.

Comunidade, identidade, estabilidade. Também há, em “Admirável Mundo Novo”, um triângulo sobre o qual a sociedade assenta, num mundo que parece ser habitado por uma perfeição asséptica: acabaram-se os tenebrosos perigos da vida familiar: não há casamentos nem procriação natural, assim como não há lugar para o amor; ensinam-se as crianças durante o sono, «até que o espírito da criança seja estas coisas sugeridas e que a soma dessas coisas sugeridas seja o espírito da criança e não apenas o espírito da criança, mas igualmente o espírito do adulto…e para toda a vida»; condiciona-se o desporto de forma a promover o consumo – «vejam a estupidez de permitir às pessoas a prática de complicados jogos que de nada servem para aumentar o consumo»; aconselha-se o jogo erótico entre crianças, já que no futuro será necessário um esforço para a saudável promiscuidade; vive-se de provérbios, repetidos como mantras até à total assimilação – como este: «quando o indivíduo sente, a comunidade ressente-se»; apela-se ao consumo desenfreado de drogas – o governo oferece-as a todos – como forma de refrear a insatisfação e afastar o desejo de rebelião. Afinal, «mais vale um grama que um mau programa.»

Bernard Marx, feio e pequeno segundo Fanny Crowne, é um homem com uma certa reputação, apesar de ser um alfa-mais. «Diz-se que alguém se enganou quando ele estava ainda na proveta, que julgava que era um gama e puderam álcool no seu pseudo-sangue. É essa a razão de ele ser tão enfezado». Bernard sente um desconforto pouco habitual junto dos seus pares, preferindo a solidão a grandes aglomerados e rejeitando a milagrosa soma que parece curar todos os males, sejam elas reais ou imaginários. Quando Bernard e Fanny visitam uma reserva, acabam por trazer com eles John, um rapaz que acabou por crescer com uma mãe parcial que, depois de ficar esquecida na reserva após uma visita semelhante à de ambos, acabou por se entregar a uma vida desregrada condenada pelos seus pares. John tem em Shakespeare o seu grande mentor, e aceita deixar a reserva para conhecer o mundo que a mãe tão sofridamente deixou para trás.

Será John a abrir as portas da fama a Bernard, a quem todos irão recorrer para conhecer de perto o Selvagem e a sua estranha forma de se comportar perante a vida, que inclui, entre outras, essa estranha coisa de chorar.

Nesta sociedade, o homem foi subjugado pelas suas invenções. A ciência, a tecnologia e a organização social deixaram de estar ao serviço do homem e tornaram-se, gradualmente, os seus amos. Todos os nascimentos são controlados, de modo a que a pirâmide social nunca seja abalada. Há alfas, betas, gamas, deltas e epsilões e, no futuro, cada um deles sabe até onde pode ir, tanto pelo código genético com que foram desenvolvidos na proveta como pelo condicionamento a que foram sujeitos em criança e durante a vida. Caso haja o aparecimento de qualquer insatisfação haverá sempre a soma, essa droga suprema sem os inconvenientes do álcool, da heroína ou da religião. Se ainda assim a dissidência espreitar, o destino será uma qualquer ilha perdida no mundo, onde vivem outros selvagens.

Escrito em 1932, Aldous Huxley foi talvez ainda mais visionário que George Orwell, algo que o próprio disse descomprometidamente a Orwell numa carta enviada depois de ter recebido um exemplar de “1984”: «É minha convicção que a oligarquia dirigente encontrará formas menos árduas e esgotantes de governar e de satisfazer a sua ânsia de poder, formas estas que se assemelharão às que descrevi em Admirável Mundo Novo.» 81 anos depois, nunca este cenário esteve tão próximo, pelo menos na cabeça de quem nos governa (e mal) a todos. Um livro fundamental da história da Literatura, agora com uma mais do que merecida reedição.



Também poderás gostar


Pin It on Pinterest

Share This