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Admirável Novo Vídeo

Algo fervilha no mundo pop de hoje. O que têm em comum Grizzly Bear, MGMT, Animal Collective, Empire of The Sun, Dirty Projectors e Yeasayer? São deles alguns dos mais singulares vídeos do fim da década dos zeros.

Vêm de Brooklyn (Nova-Iorque) alguns dos vídeos mais intrigantes da segunda metade da década dos zeros. E temos ainda os Animal Collective que, vindo de um outro estado, não deixam de ser a banda mais representativa deste tipo de vídeo – a caminho está, inclusive, um filme psicadélico da autoria de Brian Weitz, Josh DibbDavid Portner e Noah Lennox. É um movimento? É localizado? É uma resposta à era psicadélica? Rui Eduardo Paes (jazz.pt), Lia Pereira (Blitz) e Pedro Gonçalves (Timeout) responderam à chamada e podemos ter encontrado as respostas.

Numa altura em que se fazem colossais balanços da década – os 20, 30 ou 40 discos, livros, filmes, etc. de cada publicação, crítico ou mero melómano (via blog pessoal) –, olhamos para o presente e futuro, mas também olhamos para trás, para uma outra década, a de 60, a da era psicadélica, a dos ácidos e dos hippies, mas também dos Rolling Stones, dos Beatles, dos 13th Floor Elevators, dos Doors, entre outros.

Mas deixemos, por agora, a vertente psicadélica de lado. Algo fervilha no mundo pop de hoje. O que têm em comum Grizzly Bear, MGMT, Animal Collective, Empire of The Sun, Dirty Projectors e Yeasayer? São deles alguns dos mais singulares vídeos do fim da década dos zeros. Videos como «Peacebone», «My Girls» e «Summertime Clothes» dos Animal Collective, «Ready, Able» dos Grizzly Bear, «Kids» dos MGMT, «We Are the People» dos Empire of the Sun, «Stillness in the Move» dos Dirty Projectors e «Ambling Alp» dos Yeasayer.

Relação

Qualquer coisa nos impele a relacionar estes vídeos. Parece existir um fio condutor, uma relação. A própria Pitchfork, na altura em que foi divulgado o último vídeo dos Yeasayer para a canção «Ambling Alp», deixou uma provocação: “Agora façam melhor MGMT!”. Rui Eduardo Paes, crítico e editor da revista jazz.pt concorda com esta ideia: “há claramente uma relação e a vários níveis”. E enumera: “ [Há] uma utilização da imagética psicadélica, regra geral recorrendo à animação de criativas e utilizações de efeitos vídeo. Uma utilização simbólica e transformativa (mágica) da natureza. Frequentes alusões ao imaginário cósmico ou espacial – entre o universo referencial do cosmic rock dos Sixties e dos Seventies – e, num sentido mais literal, da ficção científica.”

Pedro Gonçalves, crítico da Timeout, também acha que “não é absurdo ver uma relação entre estes vídeos, obviamente que do ponto de vista estético”. É quando referimos a palavra “movimento” que demonstra algumas reservas. “É exagerado falar de movimento. Podem pertencer todos ao domínio da fantasia psicotrópica, mas nem as bandas nem os realizadores tomaram todos o mesmo ácido. Do ponto de vista estrito da imagem, não vejo grande relação entre um fabuloso vídeo em stop-motion com plasticina com outro em que meia-dúzia de pessoas parece dançar num estúdio carregado de luzes psicadélicas”.  Rui Eduardo Paes (REP) também refuta a ideia de movimento, por não me parecer nada organizado, “mesmo que esteja na decorrência de um movimento que, de facto, existiu, o do psicadelismo”. REP chama-lhes antes “tendência estética, uma entre outras, que é precisamente o que caracteriza o estádio de pós-pós-modernidade”, que, segundo o crítico, é o estádio em que nos encontramos hoje.

De Brooklyn para o Mundo

O que acontece em Las Vegas, fica em Las Vegas. E o que acontece em Brooklyn? O que acontece em Brooklyn é celebrado por esse mundo fora. Deste condado de Nova-Iorque vêm Grizzly Bear, Dirty Projectors, Yeasayer e MGMT, mais de metade dos projectos visados neste artigo, portanto. Esta relação pode então ser localizada, certo? “Pode, de facto”, opina REP. “Outra das características da nossa pós-contemporaneidade é o facto de as manifestações artísticas terem uma dimensão glocal, ou seja, serem simultaneamente globais e locais.” Completa com um exemplo português: “Curiosamente, já nos anos 80 a Ama Romanta do João Peste (Pop Dell’Arte) tinha como mote «act local, think global». É certo que mais recentemente, com a Internet, surgiu o princípio «act global, think global», mas nunca me pareceu que tal fosse totalmente verdade. Mesmo que se queira dizer we’re out there (as alusões espaciais, por exemplo), o que vem escrito na parte interior do colarinho pode muito bem ser Made in Brooklyn.” Pedro Gonçalves prefere abordar o assunto do ponto de vista musical, a ideia de um movimento Brooklyano baseado no formato vídeo, parece-lhe “absurda”. “Musicalmente há relações entre alguns destes casos, naturalmente. Percebe-se a tendência para um escapismo sideral, com sininhos e alguma cacofonia atmosférica sempre à espreita. Nesse domínio, não custa acreditar num campo criativo localizado.” Lia Pereira, jornalista da Blitz, destaca “esta nova onda” de vídeos em que “saltam à vista marcas de estilo daquilo a que podemos chamar indie 00 o apreço pela natureza, traduzido nas constantes referências a animais e paisagens mais agrestes do que bucólicas; a preferência pelo grotesco, rústico e até tosco, no sentido mais artesanal da coisa; sugestões de paganismo e tribalismo.” A jornalista da Blitz acaba por acrescentar à lista alguns outros artistas “não directamente ligados ao berço de Brooklyn, como Devendra Banhart ou Bat For Lashes [que] exploraram também esta via xamánica na sua música e nos seus vídeos.”

Psicadelismos

Algo a reter na opinião dos três críticos é todos eles terem usado o termo “psicadélico” para descrever algumas das coisas que aqui acontecem nestes vídeos. Pode então esta série de bandas ser encarada como uma resposta à era psicadélica? Pedro Gonçalves e Rui Eduardo Paes concordam numa ideia: não é uma resposta, mas sim uma “consequência”. “Se estivermos a falar do psicadelismo que marcou parte dos anos 60 e 70 do século XX, não vejo nisto uma resposta. Simplesmente porque não me parece haver qualquer resposta a dar a um género que, mesmo influente, está bem resolvido na História. A haver relação com esses dias, no máximo, seria a de resolver com mais recursos tecnológicos ideias que já existem há um tempo nada desprezível”, atira Pedro Gonçalves. Já REP refere que “uma particularidade que caracteriza a música popular, e não só, desde os anos 80 até ao presente é o facto de não existirem novos paradigmas. Logo, ou cada projecto artístico forja a sua própria identidade, sem seguir um modelo definido ou, o que é mais frequente, repega nos antigos modelos, seja para os repetir como para os continuar, acrescentando-lhes algo mais, que é o que estas bandas fazem, umas com mais sucesso, outras com menos. O interessante mesmo disto é o facto de adopções necessariamente retro surgirem, afinal, com um alcance que diria futurista.” Lia Pereira refere que “enquanto movimento musical e estético, o psicadelismo ressurgiu em grande força na década que agora termina. Se nos anos 90 bandas como os Mercury Rev, os Flaming Lips ou, no rock mais pesado, os Soundgarden mostravam claras influências psicadélicas, nos anos 00 foi o indie pop/rock a apropriar-se de um legado que vai dos Beach Boys (as harmonias vocais dos Animal Collective) a David Bowie (a androginia quase glam de MGMT ou Empire of the Sun).”

Nas respostas dos três críticos não parece existir uma resposta una acerca deste vídeo a que se chega a chamar de neo-psicadélico. Mas há um consenso relativamente a algumas ideias: a influência psicadélica, um berço chamado Brooklyn e a ideia de que o que está aqui em causa não é um movimento. Pedimos ainda para que cada um dos críticos deixasse um comentário mais pessoal sobre o assunto. Ei-los:

Rui Eduardo Paes: “O que é importante referir o quanto a electro-pop dos anos 1980 influiu muitas das abordagens electrónicas que ouvimos nestas bandas (sobretudo os MGMT). E não só: detecto também certas características de algum do krautrock dos 70, na linha Tangerine Dream (em oposição à linha Kraftwerk, principal influenciadora da pop dos 80). Ou seja, na prossecução do formato psicadélico sessentista, estas bandas foram incorporando outras sonoridades que pouco ou nada têm que ver com o psicadelismo. Para o bem ou para o mal, é isso que caracteriza a presente musicalidade: a mistura de muitos elementos, alguns até que poderíamos julgar não compatíveis. Podemos racionalizar as coisas e afirmar que não é positivo fazer uma nova música que resulte apenas da reciclagem de músicas velhas, mas acho que prefiro isso a enfrentar novos profetas e novas profecias que venham com o propósito de fazer escola, levando toda a gente atrás (o velhíssimo – do século XIX, na verdade – conceito de «vanguarda») e homogeneizando o espectro musical. Se essa é a condição para a diversidade de abordagens, «so be it». Psicadelismo.”

Pedro Gonçalves: “Sou obrigado a assumir a minha relativa alergia a algumas das coisas que estes vídeos mostram e fazem soar. Não sinto particular entusiasmo com delírios estéticos cientificamente lo-fi nem com música do tipo bebinca mal sucedida – camadas e camadas de sons que chateiam mais do que encantam.”

Lia Pereira: “No circuito indie, aqui exemplificado por bandas como Animal Collective, Grizzly Bear ou Dirty Projectors, dir-se-ia que a década se pautou pela tal estética do it yourself; pelo charme infantil e (calculadamente?) naïf, em detrimento – e quem sabe se como reacção – à presença mais masculina e agressiva de movimentos como o grunge, nos anos 90. Todas estas alterações acabam por ir de encontro ao rumo, mais leve, feminino e polido, que a própria música indie, ou alternativa, seguiu nos últimos dez anos.”



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