Adriana

O novo filme de Margarida Gil. premiado na última edição do IndieLisboa.

Coincidência ou não, o cinema português tem-se manifestado actualmente no feminino: foi Alice e Odete a representarem Portugal no glamour do Festival de Cannes (onde, segundo a crítica internacional, parecem ter dado boa conta de si) e foi este Adriana, o mais recente projecto da realizadora Margarida Gil, a triunfar no Indie Lisboa, arrecadando o Prémio Tóbis, destinado ao Melhor Filme Português.

O Indie tem mantido uma aposta em destacar os espíritos inovadores e arrojados que despontam no cinema português, talvez com a intenção de agitar um pouco as águas cinematográficas nacionais, estagnadas num marasmo de há longos anos. Primeiro, foi A Cara Que Mereces, a estreia de Miguel Gomes nas longas-metragens, um filme que dividiu, literalmente, a crítica – quem não se recorda dos cartazes promocionais, onde se degladiavam opiniões de alguns críticos da nossa praça, pendendo entre o “amor” e o “desamor” extremo – e agora foi Adriana, que promete também provocar encantos e desencantos aos espectadores portugueses.

Numa época em que o cinema está cada vez mais formatado, Adriana é um filme que renasce naturalmente, longe das convenções cinematográficas habituais, limitando o espectador ao gosto de ver e ouvir.

Tão bizarra quanto a premissa, é a sinopse do filme: uma Ilha (assim mesmo, com letra maiúscula, condizente com a sua singularidade) remota e paradisíaca, enfrenta a ameaça da extinção, uma vez que o seu déspota havia imposto que nunca mais se haveria de nascer na ilha, tão-pouco fornicar; esta imposição, levantada em paralelo com uma maldição de sete anos, correspondente ao quebrar dum espelho, deixou a população em riscos de desaparecer. Eis então que surge Adriana, filha de Edmundo, o senhor feudal da ilha, incumbida de viajar para o continente, com o propósito de “constituir família por métodos naturais”.

Adriana é quase uma fábula imoral, ou melhor, uma anti-fábula. Numa fusão entre Alice No País Das Maravilhas e A Divina Comédia, Margarida Gil assina o contraste entre a candura (leia-se ruralidade) da Ilha e a perdição do continente; Adriana viaja para o País Das Maravilhas, numa viagem que não é mais que uma descida aos infernos. A própria realizadora descreve-o como um road-movie pelo folclore de Portugal, de Norte a Sul e das diferentes classes sociais e uma odisseia sexual.

Adriana é ainda uma referência às influências que vincaram a obra de Margarida Gil, mas o registo que se encontra mais facilmente, é o estilo escorreito de João César Monteiro.

Adriana já se encontra no circuito comercial, apesar de serem escassas as salas que o têm em exibição. No entanto, merece um hipotético esforço suplementar para o ver, se for esse o caso, nem que seja pela audacidade da realizadora. E com a certeza que será um filme referência num futuro não muito longínquo.



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