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Afonso Macedo

Uma incontornável figura das noites Conimbricenses.

Afonso Macedo é uma incontornável figura das noites Conimbricenses.

Serão muito poucos os da geração de 80 e precedentes que não se lembram de Afonso, seja como DJ no A Noite Tem Mil Olhos ou residente no Via Club, Festivais do Teatro Académico Gil Vicente (TAGV) ou no atendimento em lojas de discos da baixa da cidade que o viu crescer.

Figura de destaque e largo conhecimento musical, Afonso tem também na Rádio um dos seus lugares ou poisos de eleição. É na Rádio Universidade de Coimbra (RUC) que, para os que ainda não o conhecem da noite, se lhe consegue granjear a natureza do saber em programações e sets minuciosamente escolhidos e que reflectem muito daquilo que é enquanto DJ.

O seu percurso iniciou “no saudoso A Noite Tem Mil Olhos” começou por recordar. “Foi o bar que em Coimbra iniciou uma programação regular de música electrónica com convidados semanais e pioneiro no respeito devido a uma actividade então olhada com algum desdém por parte de muito boa gente (pausa). Ainda hoje, aliás…” desabafou.

“Pouco a pouco fui sendo convidado para actuar noutros locais e, complementado com a rádio e a loja onde trabalhava, fui entrando num mundo do qual jamais consegui sair, e ainda bem. Entretanto entrei para a Cosa Nostra gerida pelo David Rodrigues, a melhor produtora de Coimbra e arredores, e produzimos centenas de eventos na cidade, residências no Via Club, festivais no Teatro Académico Gil Vicente, showcases no Quebra Costas”.

Muitos, distintos e notáveis foram os nomes, nacionais mas especialmente internacionais, que Afonso fez chegar até à cidade do Mondego. E relembrou alguns. “São demasiados os nomes que trouxemos para conseguir citar todos, mas posso destacar Murcof, Nathan Fake, Joakim, Dj/Rupture, Matthew Dear, Whignomy Borthers ou, noutra vertente, Animal Collective e Matt Elliott”.

Os passos de Afonso Macedo pelas noites de Coimbra foram cada vez mais certeiros e “terminada esta fase saí da Cosa Nostra e formei a Put Some (que hoje segue um caminho complementar na produção de espectáculos em Coimbra)”.

Mas, é no conhecimento aprofundado de algumas das raízes e extensões da cena electrónica que lhe reconheço aptidão e perspicácia, seja aos microfones da RUC, seja no aconselhamento num qualquer espaço de venda de discos ou no manuseamento eficaz de sons que nos fazem mexer e descontrair.

“Como DJ continuo a actuar em diversos espaços da cidade e, não tão regularmente quanto desejava, em Lisboa, Porto, Viseu, Guarda… enfim, onde me convidam”. Nunca como hoje a actividade de DJ, a par de umas quantas também em voga, me pareceram tão dadas à proliferação de nomes e espaços que surgem num abrir e fechar de olhos.

No meu, e de muitos, presumo, manuais de vida figuraram pessoas – tanto aos microfones de uma sintonia privilegiada, como numa pista ou espectáculo ao vivo – que nos ajudaram a construir identidade e aprender significados simples para a vida e crescimento pessoal e social. Gente única que redefiniu o sentido da entrega, paixão, humildade e partilha e que teve, e tem, na Música o veículo óbvio a essa desenvoltura e expressão. Afonso é, entre alguns mais, um desses indivíduos que, em sensibilidade, se retém de chofre nos capítulos desse manual com que crescemos e nos renovamos enquanto melómanos que se unificam no gosto e respeito por essa arte.

Assim, será fácil depreender que o que significa nos dias de hoje, mesmo com essa propagação nem sempre qualitativa, ser DJ para Afonso seja o mesmo que significava há alguns anos atrás quando dava os seus primeiros passos no meio. “O mesmo que sempre significou ” disse então. “Independentemente do género de música que esteja a tocar, tendo a criar sempre uma pequena história onde as pessoas possam entrar e se sintam confortáveis. Não gosto muito de urgências, nem na pista nem das hospitalares, o que pode ser um problema, acho que cada vez mais as pessoas não têm grande paciência para fazer um esforço e tentar perceber o que estamos a tentar criar. Querem tudo ali e agora, o que percebo, mas acho que se divertiriam muito mais se confiassem e desfrutassem do que lhes propomos na vez de estarem constantemente à espera de mais do mesmo”, reflectiu.

Neste meio em que Afonso movimenta e estende as suas intenções e variedades sónicas existem outros, de referência, que admira e reconhece. “Gosto de coisas distintas e de variados géneros musicais, mas aprecio particularmente a coerência, tenacidade e constante renovação criadora de pessoas como R. Hawtin ou C. Craig, R. Villalobos ou Harvey, DJ Shadow ou K. Martin, Alva Noto ou Moritz Von Oswald. Actualmente invisto particularmente nas produções de DJ Koze, Pantha Du Prince e Robag Whrume. Muito Techno e House e bastante Dub, Step ou não e UK Funk. Em termos nacionais inspiram-me DJ’s como o David Rodrigues, os Ruis, Murka e Vargas, o Dinis, o Nelson Flip e o Yari, mas há mais e alguns muito bons. A justificação para todos estes paladares é ter uma mesa recheadinha de música e não me saber tudo a arroz de pouco, perdão, de polvo”, brincou.

Há uma relação óbvia entre estar numa loja de discos e essa é/foi facilmente explicada por Afonso: “é a de estar ainda mais próximo da música no meu formato predilecto, outra é que me permite conhecer muita música que à partida não iria ouvir por muitas horas que passasse na Internet. Há ainda uma coisa essencial para mim, que é estar com pessoas reais à minha frente, sentir-lhes o arrepio e perceber algo mais que o simples “like” de outras vidas. Sendo eu ainda um DJ que usa exclusivamente vinil passarei a confundir ainda mais o meu património com o da loja e vamos ver se não dá desgraça”.

Em cidade de estudantes Afonso recordou que “a minha formação superior são vinte e três anos dedicados quase exclusivamente à música, não a criar, mas a ouvir, divulgar e dançar… na rádio, nas lojas ou em clubes. Estive seis meses em jornalismo na Universidade, mas não me interessou o suficiente para me afastar de bons caminhos”.

Afonso, que voltou ao início de percurso que recordei em conversa, mas agora como proprietário, duma loja de discos sua com o nome Quebra Orelha, que abriu recentemente numa das zonas mais histórias da cidade universitária.

“A loja situa-se na zona do Quebra Costas, junto à Sé Velha de Coimbra, e daí o nome de Quebra Orelha com que a baptizei. Remete para o local e para a audição, poderia ser Quebra Tímpanos mas isso guardo para algumas noites mais dementes. Vai ser dedicada principalmente à música com vinil novo e usado, cd’s, dvd’s e diverso merchandising, terá ainda publicações na área da Banda Desenhada em parceria com a Dr. Kartoon, catálogos de Arte e publicações ligadas à Ilustração, Design ou Arquitectura. Estamos a tentar ter uma pequena secção de Literatura em edições de autor e peças exclusivas realizadas por artistas plásticos. Terá igualmente uma secção de música tradicional portuguesa, nomeadamente Fado, visto ficar numa zona predominantemente turística e haver uma falta de oferta notória em Coimbra. Pequenos showcases musicais também na agenda. A ideia já ruminava há anos, no entanto estava no conforto do emprego e quando me despediram achei que era agora ou nunca, pelo que, para já, só me resta agradecer”.

Os desejos de Afonso serão , assim, para o leitor fáceis (ou não) de depreender: “Que este projecto vingue e se torne um local onde as pessoas gostem de ir e de estar. Continuar a pôr música em belas rodelas pretas e promover muitos e bons concertos por aqui. Ser tranquilamente feliz. É muito? OK, então ser só feliz. Ah, e o Sporting campeão. Já não dá? Ora bolas!”, brincou.

Boa sorte Afonso!



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