“Agosto” | Rubem Fonseca

“Agosto” | Rubem Fonseca

Diário de um tira carioca

Integrado nas comemorações dos cinquenta anos de vida literária de Rubem Fonseca, chega agora às livrarias nacionais a reedição de “Agosto”, uma publicação da responsabilidade da Sextante, uma chancela da Porto Editora.

Considerado como um dos nomes maiores da literatura brasileira moderna, Rubem Fonseca descobriu a paixão pelo mundo dos livros depois de se enamorar das obras de gente como Edgar Allan Poe, Rafael Sabatini ou Júlio Verne. O policial era o género que mais o cativava mas, o seu crescimento enquanto apreciador de acto de ler, fez com que Fonseca também explorasse clássicos, como Homero e Cervantes, ou modernos, como Dostoievski e Proust.

Antes de começar a ver na escrita uma paixão, Rubem Fonseca, formado em Ciências Jurídicas e Sociais, foi um verdadeiro homem de muitos ofícios. Desde comissário de policial a nadador, o autor de “Agosto” foi também escriturário, assistente de magia, revisor, “cineasta frustrado” e paquete. Não importa em que área ou função, Rubem de Fonseca sempre encarou a vida de frente e de mangas arregaçadas.

A sua primeira obra enquanto escritor conheceria a luz do dia na aurora da década de 1960, quando viu dois contos seus terem honras de publicação através das revistas “O Cruzeiro” e “Senhor”. A crítica cedo reconheceu o talento deste homem de coração carioca, ao considerar “Os Prisioneiros” uma das obras mais criativas do seu tempo.

Da crónica de costumes ao romance, passando pelo policial, Rubem Fonseca foi conquistando leitores e louvores, sendo que em 2003 seria galardoado com o Prémio Camões e o Prémio Juan Rudolfo. O “Caso Morel”, “A Grande Arte” e também “Agosto” eram obras que conquistavam um lugar de destaque na literatura brasileira e no resto do mundo.

No que toca a “Agosto”, estamos perante um delicioso policial, em tom auto-biográfico e existencialista, que vagueia entre a ficção e o factual onde o suicídio de Gétulio Vargas e outros acontecimentos e crimes ocupam destaque na trama que tem, no comissário Alberto Mattos, a sua figura central.

Rubem Fonseca conseguiu, com esta obra, retratar de forma irónica mas também objectiva a conjuntura política subjugada à corrupção vivida na década de 1950, nomeadamente em 1954, ano que assinalou tristemente o desaparecimento de Getúlio Vargas, um dos maiores nomes da política brasileira, que decidiu acabar com a própria vida depois de tomar algumas decisões que colocaram em cheque o futuro económico, social e político do Brasil.

Mantendo o Português do Brasil como língua oficial, “Agosto” reflecte um universo repleto de “tiras”, “paletós”, kakistocratas”, “delegacias” e “bicheiros”, alimentados pela força e dinamismo do gerúndio, assim como do sarcasmo. Alberto Mattos, um comissário de polícia que sofre de dores de estômago permanentes e que tem como amuleto um dente de ouro, enche por completo o imaginário do leitor.

Recuando no calendário, estamos no primeiro dia de agosto de 1954, em pleno Rio de Janeiro, quando um empresário é assassinado e, simultaneamente, na sede da Polícia Federal é engendrado mais um crime. Depois, o jornalista Carlos Lacerda escapa a um atentado e uma série de mortes violentas precipitam o suicídio de Vargas. A solução para estes acontecimentos parece estar longe, mas o teimoso e solitário Mattos vê nas causas perdidas a sua demanda, ainda que o seu coração dividido entre dois (des)amores possa obstruir a pouca racionalidade que lhe resta.

As páginas de “Agosto”reflectem o mecanismo que rege uma sociedade disfuncional, contaminada pela usurpação alheia e que vê, erradamente, em certas figuras políticas, a sua salvação, pois muitas vezes os responsáveis governamentais são meros fantoches apalaçados.

Para além de Alberto Mattos existem muitas personagens, verdadeiras caricaturas, que vão apaixonar os leitores de “Agosto” e das quais destacamos o senador Victor Freitas, o empresário Pedro Lomagno, o segurança “negro”, Gregório Fortunato ou as peculiares Salete e Alice.

Com uma escrita versátil e açucarada, o autor narra, não apenas uma estória, mas sim pedaços da vida de um País que tenta ultrapassar erros e momentos políticos adversos. “Agosto” reúne o melhor do romance policial e do thriller literário e Rubem Fonseca revela-se um conhecedor profundo da natureza humana, dos seus vícios, crimes e pecados que podem estar escondidos atrás da mais leve cortina da personalidade.



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