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Aldina Duarte por Olga Roriz

Assim como se dança o fado com passos de tango argentino, assim Olga Roriz nos oferece fado, na voz de Aldina Duarte, com ritmos de cáron e melodias de acordeão, harpa e piano, fugindo à tradicional moldura do fado com a viola e guitarra portuguesa.

Sexta-feira, 9 de Julho, oito e meia, hora de ponta nas ruas do Chiado, apinhado de transeuntes, turistas, amantes da cultura ao Largo e da movida do Bairro Alto que acordava do calor do dia.

Naquele momento, quando o stress imperava por não saber onde conseguir estacionar nem fugir do caos automóvel que ali se instalara, o meu destino era outro, iria dar música coreografada aos meus ouvidos, no palco do Festival Almada, agora no Teatro São Luiz… queria ver e ouvir Aldina Duarte no corpo desenhado por Olga Roriz.

Nove menos cinco, desisto de estacionar licitamente e arrisco não perder este espectáculo único e inovador. O carro fica em piscas e o meu corpo corre, em saltos (altos), para chegar a tempo.

Chego tarde mas a tempo do castigo da varanda dos atrasados e arrependidos. Subo as escadas em fúria e esperam-me já a escuridão da grandiosa sala do S. Luiz e a voz quente da Aldina Duarte que se misturava com o ar abafado e em brasa da sala. O que se passa com o climatização daquela sala de cultura? É urgente a sua reparação ou pedido de desculpas, justificado e por escrito. Os espectáculos, a arte e o público ficam irremediavelmente incomodados e prejudicados com a falta de ventilação e excesso de temperatura da sala.
Mesmo assim, Aldina Duarte canta e bem. Enche o palco com a sua voz de gigante e hipnotiza todos os que a escutam, mesmo pegajosos e encharcados de suor bem como todos os músicos que, em palco a esperam, sentados ao seu redor em poltronas de pele musical e de charme.

A partir daí, uma hora única (e não duas, como anunciado no programa) de fado que brinca com instrumentos pouco habituais e até aqui a ele estranhos, mas que casam em harmonia e sem esforço.
Assim como se dança fado com passos de tango argentino, assim Olga Roriz nos oferece fado com ritmos de cáron e melodias de acordeão, de harpa e de piano, fugindo à moldura tradicional da viola e da guitarra portuguesa.

Celebrou-se assim o casamento da voz vibrante de Aldina Duarte com a performance musical de acordeão (João Lucas), de contrabaixo (Pedro Wallenstein), de harpa (Ana Isabel dias), de piano (Manuel Paulo), de percussão (Sebastian Scheriff) e de viola (Carlos Manuel Proença) e guitarra portuguesa (José Manuel Neto), tocadas em dueto, trio ou quarteto, alternadamente, mas sempre com a melodia do fado, bem cantado, português.

O espaço cénico de Pedro Santiago Cal estava simples, belo e com cores quentes e carnudas graças ao veludo das cortinas em “U” que forravam o palco e serviam de tela de projecção de vídeo (João Raposo) de dois excertos do filme de Olga Roriz, “Felicitações Madame”. O desenho de som e o desenho de luz também têm nota positiva.

Ao contrário do que muitos esperavam e comentavam à saída no fim do espectáculo, Olga Roriz não “cantou” nenhuma dança nem criou um “fado dançado”. Preferiu escolher a irreverência e presentear-nos com a descoberta de um novo caminho musical instrumental para o nosso fado que teima em seguir à risca o caminho velho e apenas dialogar com a guitarra portuguesa e com a viola.

Está na hora de arriscar no fado, de dançar com o fado e quebrar o fado das regras antigas.

Porque não seguir este irreverente conselho de Olga Roriz e pôr o acordeão, a harpa, o piano e a percussão em palco a dançar com o fado português?

Se ficam tão belos e soam tão bem juntos!…

Foi um concerto mágico e memorável. A repetir, espero!

Obrigada, Aldina Duarte, Olga Roriz, a todos os artistas, compositores de letra e música, a todos os músicos, ao Teatro São Luiz e ao Festival de Teatro de Almada!



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