“Alfabetos” | Claudio Magris

“Alfabetos” | Claudio Magris

A Europa de A a Z

De entre os eternos candidatos ao Prémio Nobel da Literatura, há um nome que vai sendo apontado, ano após ano, para conseguir deitar mãos à estatueta. Nascido em Trieste no ano de 1939, Claudio Magris é muitas coisas ao mesmo tempo: romancista, ensaísta, germanista, colaborador de jornais e revistas europeias.

Neste último campo, assistimos à recente publicação em Portugal de “Alfabetos” (Quetzal Editores, 2013), livro que reúne escritos de Magris publicados nos últimos dez anos, na sua maior parte no jornal Corriere Della Sera.

“Alfabetos” é uma viagem ao coração da literatura, à descoberta dos seus livros, autores e da forma como, ao darmos com eles, transformamos qualquer coisa em nós próprios; um rastilho aceso pelo poder das páginas escritas, quer estas nos firam ou nos salvem, com o seu epicentro localizado no Velho Continente, que Magris revela conhecer como um pioneiro.

Claudio Magris reflecte, nestes textos breves, sobre algumas das contradições que a Literatura e os seus autores criaram, misturando, como se se tratassem de substâncias complementares, a humanidade com a bestialidade. Daí, também, a reflexão final sobre a relação da literatura com a política e a ética, que propõe a «irresponsabilidade» na poesia como uma espécie de fio condutor que conduza à libertação.

Viajamos pela obra de Salgari – “Os Mistérios da Selva Negra” é apontado como o livro com que Magris aprendeu a ler -, ouvimos contar a versão indiana para o amor trágico de Orfeu e Eurídice – sugere-se que toda a nossa cultura é de segunda mão -, fala-se de A Bíblia como o livro dos livros, discute-se a crise da família e do seu secular modelo tradicional, viaja-se entre a morte e a melancolia, fala-se dos livros que são – ou deveriam ser – socos bem aplicados, como o defendia Kafka.

Virada a última página e depois de uma visita guiada ao alfabeto europeu, será difícil não concordar com a frase de Borges que Claudio Magris partilha logo no início de “Alfabetos”: «a glória está mais no ler do que no escrever».



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