ALICE

“ALICE NAS CIDADES”

“Alice nas Cidades” é talvez um dos mais bonitos e particulares exemplos de um dos mais complicados géneros de cinema, o road movie, e é o tipo de filme que merece recorrermos à frase cliché “já não se fazem filmes assim” e, a verdade, é que já não se fazem, mesmo, filmes assim.

O jornalista alemão Philip Winter pretende escrever uma história sobre a América, mas não consegue nada para além de uma série de Polaroids. Antes de iniciar a viagem de regresso a casa, desapontado, aceita levar a pequena Alice com ele, fazendo um favor à mãe da rapariga. Em Amesterdão, a mãe de Alice falha o encontro combinado, e Philip e Alice iniciam uma viagem para encontrar a avó dela, na Alemanha. Durante a viagem, a animosidade inicial entre ambos vai-se transformando numa relação afectuosa. Este é o primeiro filme da Trilogia “Road Movie” de Wim Wenders, onde se incluem “Movimento em Falso” e “Ao Correr do Tempo”.

“Alice nas Cidades” é talvez um dos mais bonitos e particulares exemplos de um dos mais complicados géneros de cinema, o road movie, e é o tipo de filme que merece recorrermos à frase cliché “já não se fazem filmes assim” e , a verdade, é que já não se fazem, mesmo, filmes assim. Mas, para um filme sobre identidade nacional, “Alice nas Cidades” está fixado na forma como, paradoxalmente, nos desligamos do lugar a que pertencemos. Philip Winter, protagonista do filme (Rüdiger Vogler), é tanto um estrangeiro nos Estados Unidos e Amesterdão como no seu próprio país. Enquanto explora o distrito de Ruhr na Alemanha com a sua companheira de 9 anos (Alice, interpretada de forma soberba por Yella Rottländer), é como se Philip tivesse trazido a América com ele; a sua terra natal está agora repleta de fast food, música country e máquinas automáticas da Coca-Cola.

Wenders tem uma abordagem crítica a este imperialismo cultural, mas não o condena apenas. Não há, afinal de contas, nenhuma Alemanha perdida para chorar; depois de Hitler, tal simplificação é impossível. Como enfrentar a colonização sem fazer referência ao que foi colonizado?

"Alice nas Cidades" estreia a 9 de Março.

“Alice nas Cidades” estreia a 9 de Março nos cinemas e será exibido numa cópia restaurada. O negativo original a preto-e-branco foi digitalizado para uma resolução de 4K.

Na sequência da Segunda Guerra Mundial, a Alemanha Ocidental foi indiscutivelmente o país europeu mais susceptível à americanização porque, após a derrota do nacional-socialismo, foi o país que mais sentiu o vazio provocado por toda a destruição. Se esse vazio deve ser preenchido, Wenders pergunta, por que não com a cultura americana?

Rüdiger Vogler interpreta Philip, escritor e jornalista que atravessa os Estados Unidos, tendo sido incumbido de redigir uma longa reportagem, invocando a alma da América do ponto de vista de um europeu céptico e perspicaz. Mas enquanto Philip vagueia de motel em motel, fica bloqueado. Algo nos EUA o derrotou como escritor e tudo o que ele pode fazer é tirar fotos alienadas, com um protótipo da câmara Polaroid. É apenas ao decidir voltar para a Europa que acha que pode escrever novamente, e pretende voltar na companhia de uma jovem mulher e da sua filha Alice. Mas, a mulher desaparece pouco antes da partida e deixa Alice a cargo de Philip, tendo apenas deixado uma mensagem para que se encontrem com ela em Amesterdão.

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Nos dias de hoje, quando o perigo para as crianças é tão primordial na cultura, tudo isto parece absolutamente surpreendente, mas o filme de Wenders e o seu protagonista cansado simplesmente vão com a corrente – e esta corrente vai numa direcção historicamente regressiva, da América de volta à velha Europa. Philip e Alice passam pela Alemanha numa improvável jornada para encontrar a avó de Alice. Philip não se mete em problemas propriamente ditos, nem aprende lições de vida no estilo moderno de Hollywood; as personagens não parecem aprender muito sobre si ou entre si. Tudo o que acontece é que a mente se torna, progressivamente, mais clara; Philip volta a escrever e o filme termina com uma cena emocionante: um sentimento de alegria e liberdade a bordo de um comboio. É um filme intrigante que não nos sai da cabeça mesmo depois de sairmos da sala de cinema.

A não perder.

Título original: Alice in den Städten
Realizador: Wim Wenders
Elenco: Rüdiger Vogler, Yella Rottländer, Lisa Kreuzer
Género: Drama
Outros dados: ALE, 1974, 112 min
Distribuição: Leopardo Filmes

 

 



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