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ALKANTARA: um festival da posterioridade

Três meses depois, o que fica da 4ª edição do festival?

Reconhecido internacionalmente, o Alkantara Festival é hoje tido como uma importante referência no circuito de festivais mundiais dedicados às artes performativas. Durante três semanas público, artistas, programadores e pensadores das artes fazem do festival uma plataforma privilegiada de encontro, partilha e discussão sobre a criação contemporânea e qual o seu futuro.

Três meses depois, o que fica da 4ª edição do festival?

Ao longo destes anos nomes como Jérôme Bel, Boris Charmatz, Carlos Pez, Nature Theater of Oklahoma, Meg Stuart (que voltou nesta edição), La Ribot, Davis Freeman, Mugiyono Kasido, David Zambrano, ou, entre outros, os portugueses Paulo Ribeiro, Vera Mantero, Clara Andermatt, Tânia Carvalho e João Fiadeiro marcaram a programação de um festival que chega agora à sua 4ª edição como Alkantara, mas oito anteriores edições aconteceram sobre o nome “Danças na Cidade”, e que muito deve à saudosa bailarina e coreógrafa Mónica Lapa e a Mark Deputter, actual director do Teatro Maria Matos.

O Alkantara apresentou-se este ano com um lado mais sombrio. A própria organização o havia prometido e as expectativas continuam a fomentar-se e a desbravar novos caminhos, precisamente, três meses depois do fim do festival. O virtuosismo dos corpos e das vozes dos espectáculos de Keersmaeker, a forte componente visual de Philippe Quesne, os silêncios introspectivos de Ant Hampton e Tim Etchells, os desabafos crus e sussurrados ao horizonte da Ana Borralho e do João Galante, Tiago Rodrigues/Mundo Perfeito e a historicidade do passado transportado para o presente com “Três Dedos Abaixo do Joelho”. Enfim, uma variedade de acontecimentos performativos de topo, da dança ao teatro, e de tudo o que se conjuga entre eles, que jamais me poderiam deixar igual ao anteriormente.

Pede-se e encontra-se um festival que confronte nacionalidades, questões sociais e políticas das regiões ou Países oriundos, que apresente novas estéticas, novas influências e que impulsione uma partilha de conhecimentos que coloca na mesma linha a aprendizagem e o ensino de onde pode, invariavelmente, surgir algo novo: um ponto de partida, um novo olhar para a criação contemporânea, desafiantes e inovadoras realidades, novos mundos em palco. Confrontar a narrativa da ficção com o quotidiano e a presença da ficção na gestão da realidade, provocar a acção humana, questionar os seus actos e as suas decisões, confrontarmo-nos com a dúvida, com a incerteza do garantido, manipular o tempo e os lugares, fazer da metáfora um recurso para despertar consciências.

Uma diversidade de formatos e de diferenças estéticas que formam um uníssono de coerência naquilo que toca à emergência das temáticas sociais e políticas na contemporaneidade actual e, quer tenham o passado ou o presente como base, a intenção de ambos é sempre evocar e provocar o futuro. Todos os dias, ao fim de todos os espectáculos, são dias para se começar a projectar um novo futuro. É quase um processo de choque a que o público procura assistir e que se foi repetindo ao longo dos dezanove dias de festival e dos vinte e um espectáculos que o percorreram numa programação eclética, coerente e evolutiva que não impõe fronteiras, quer nos estilos quer nas histórias.

Mas, tão ou mais importante do que isso, é encontrarmos no festival um lugar de foco bastante generoso que é dado aos criadores emergentes e a estudantes da área. Alunos de artes performativas – maioritariamente de dança – que através das suas escolas encontram aqui um espaço para mostrarem o que de melhor se está a produzir e quais poderão ser no futuro as tendências, os coreógrafos e os bailarinos. Caso prático com o “Fórum Dança” e a célebre “P.A.R.T.S.” que tem marcado presença nas últimas edições do festival, ganhando agora um maior sentido no ano em que a sua fundadora e directora, Anne Teresa de Keersmaeker, é: artista na cidade.

Saber que a associação Alkantara adormece todos os dias sobre este horizonte é, para todos, a segurança e a certeza de que enquanto por cá andarem, temos tudo isto.

O que deve ser um festival?

Para lá de uma possível visão e posição crítica, existe um humanismo do qual é necessário falar-se. O sorriso e a sinergia inquebrável de toda uma equipa, o seu dinamismo, a sua simpatia e o afecto, uma preocupação que vai para lá de um eventual protocolo e que cobre todos: dos artistas ao público, da própria equipa à imprensa.

O Alkantara não falhou e, um possível retrato ou balanço do festival, fica muito longe das estatísticas. Falamos de arte e humanismo, portanto, de algo que marca de forma imensa uma série de aspectos que não são valorizáveis em saldos contabilísticos. Ainda assim, diz-nos a organização que: “o público deu um sinal importante ao encher as diferentes salas durante o festival, mesmo em tempos duros como estes que vivemos. A ocupação média nos espectáculos foi superior a 74% e metade das sessões esgotaram (33 das 67).”

Conselhos? 

É inevitável, quando falamos de um festival desta dimensão e com uma agenda diária tão preenchida que se acabem por perder alguns dos espectáculos. Tenho a certeza de que uma das árduas tarefas pré-festival é a de definir horários e esquematizar a programação de um festival que se propõe a apresentar, como disse anteriormente, vinte e um espectáculos, em dezanove dias, perfazendo uma totalidade de sessenta e sete sessões em dez espaços diferentes da cidade. No entanto, deve haver uma maior preocupação para quando falamos de espectáculos de apresentação única e inseridos na recta final do festival onde se centravam os nomes maiores e que, provavelmente, obtiveram uma maior procura do público. Esta é a altura para a equipa perceber o que há a melhorar.

Fora isso, dois únicos conselhos: o primeiro, afecto à necessidade de se rever a dinâmica do actual modelo de conversas no espaço Alkantara. O segundo, a meu ver, a urgente necessidade de se reavivar algo que o seu homólogo Danças na Cidade anteriormente proporcionava: os workshops. Ainda que o festival tenha disponibilizado uma série de masterclasses, de conversas com artistas e de lançamentos de projectos editoriais, pessoalmente, falta esta componente que pode não só ser um caminho de formação instantânea para quem tiver a oportunidade de os frequentar, como pode tornar-se numa das formas de atrair a captação de novos públicos aos espectáculos e garantir, ainda mais, a sustentabilidade e diversidade da programação paralela do festival.

Hoje, encontrar o Alkantara é, tal como o próprio slogan antevia, encontrar uma multiplicidade de mundos em palco.

Lisboa e os lisboetas podem orgulhar-se de ter em casa o maior festival de artes performativas do País e, certamente, um dos mais importantes a nível europeu.

Contudo, nada disto serve de embelezamento! Antes pelo contrário, deve ser um sinal claro para se aperceberem os órgãos institucionais, as marcas e a população em geral da riqueza cultural que o Alkantara representa não só para a cidade, mas também, para o próprio desenvolvimento de uma sociedade que se quer contemporânea, informada e evoluída.

Cá estaremos, todos, em 2014!

Até lá!



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