Alkantara Festival 2014

Alkantara Festival: de Mundos em palco a Mundo sem palco

De 13 de Maio a 8 de Junho decorre mais uma edição do Alkantara Festival. Na sua 13ª edição a programação traz à cidade 16 espectáculos em áreas como a dança, o teatro e os cruzamentos interdisciplinares.

Foi na passada terça-feira que a cidade de Lisboa, o País e o Mundo ficaram a conhecer toda a programação completa do 13ª Alkantara Festival – Festival Internacional de Artes Performativas.

Durante as três semanas em que decorre o festival, de 13 de Maio a 8 de Junho, podemos contar com dezasseis propostas artísticas que se dividem pelos palcos da cidade, e uma programação paralela que reúne encontros, residências artísticas, masterclasses, debates, concertos e instalações.

Das dezasseis propostas que se apresentarão ao público, cinco são estreias mundiais, e das restantes onze, apenas uma já foi vista em Portugal.

A 13 de Maio acontece a pré-abertura do festival que arranca com “Partita 2”, um dueto coreográfico de Anne Teresa de Keersmaeker e Boris Charmatz, que explore a dimensão do universo de Bach com a obra Partita No. 2, a ser interpretada em palco pela violinista Amandine Beyer.

Para a abertura oficial do festival, a 21 e 22 de Maio, chega-nos uma das propostas mais imperdíveis desta edição. O Colectivo Encyclopédie de la Parode com direcção de Joris Lacoste apresenta “Suite Nº1 «ABC»”. Uma ode poética, política e musical que reúne me palco um coro internacional de onze intérpretes e onze convidados locais que terão a oportunidade de subir a palco.

De 23 a 25 de Maio, Antoine Deefoort & Halory Goerger regressam a Portugal para apresentar “Germinal”, considerado por muitos o melhor espectáculo de 2013 em França.

A 24 de Maio, Tim Etchells, o convidado de 2014 da bienal Artista da Cidade, inaugura em dose dupla a exposição “Electric Words” e apresenta depois o lançamento do projecto “Lisbon by Sound”, que convida quatro artistas lisboetas a criar um projecto áudio online sobre a sua cidade. A dupla Sofia Dias e Vitor Roriz, a coreógrafa Vera Mantero, a escritora e performer Patrícia Portela e o músico Rui “Riot” Pité dos Buraka Som Sistema, são os convidados de Tim Etchells.

De 28 a 30 de Maio, a coreógrafa brasileira Lia Rodrigues, apresenta “Pindorama”. Depois de trazer “Pororoca” e “Piracema” (ambas apresentadas na Culturgest, em Lisboa), a coreógrafa que instalou o seu cerne artístico e social em plena Favela da Maré, encerra agora a exploração do tríptico que se propõe a explorar lugares e territórios, pactos e confluências e os materiais básicos e artificiais para revelarem ou transportarem paisagens.

A 28 e 29 de Maio, uma reposição nacional. Cláudia Dias apresenta “Vontade de ter vontade”.

“Uma pessoa tem de ser muito doida para acreditar teimosamente – apesar das convulsões, da história, das guerras, das revoluções, dos regimes – na celebração da beleza.”. É assim que nos é apresentado “Le Cargo” de Faustin Linyekula, que estará a 29 e 30 de Maio na sala principal do São Luiz Teatro Municipal.

De 29 de Maio a 1 de Junho, a artista interdisciplinar Urância Aragão apresenta “Fio Condutor” no espaço Alkantara.

E a 30 de Maio, chega-nos “Kinshasa Electric” da coreógrafa canadiana Ula Sickle.

De 30 de Maio a 1 de Junho, em estreia mundial, um dos mais aguardados momentos de criação de 2014 na área da dança em Portugal. Marlene Monteiro Freitas apresenta “De marfim e carne – as estátuas também sofrem” um baile em que participam os petrificados, os rígidos, os sensíveis, os duplos, os reflexos e os infiltrados.

A companhia portuguesa Mala Voadora, que festejou em 2013 o seu 10º aniversário, e viu recentemente esgotadas todas as apresentações da sua versão de “Hamlet”, chega ao Festival Alkantara com a apresentação de “Protocolo”. O protocolo constrói um território de intervenção cultural e de civilização absoluta. Como é construída toda esta perfeição? Quem define o protocolo? Que nível e improviso de admite? A ver de 2 a 8 de Junho na sala estúdio do Teatro Nacional D. Maria II.

De 3 a 5 de Junho “Perhaps all the dragons…” da companhia belga Berlin, que será apresentado no Jardim de Inverno do São Luiz Teatro Municipal.

No período de um ano, 70% dos produtos da “Smile Factory” serão substituídos por outros. Os produtos “mortos”, de escoamento lento, serão abandonados e outras mercadorias tomarão o se lugar. O dramaturgo japonês Toshiki Okada e a companhia Chelfitsch constroem “Super Premium Soft Double Vanilla Rich” a partir de uma improvável banda-sonora, de um discurso gaguejante e restrito e de gestos presos em círculos repetitivos. Para ver no Teatro Maria Matos nos dias 5 e 6 de Junho.

“À primeira vista, uma mercadoria parece uma cisa trivial e que se compreende por si mesma. Constata-se ao analisá-la que é uma coisa extremamente complicada, cheia e subtilezas metafísicas e de caprichos teológicos(…)”. De 6 a 8 de Junho, o francês Sylvain Creuzevault, apresenta no grande auditório da Culturgest a sua versão encenada de “Le Capital” de Karl Marx.

E é de perfume e escândalo que se encherá o fim da programação principal deste 13º Festival Alkantara. Também em estreia mundial, o dramaturgo e encenador Tiago Rodrigues, um dos maiores da sua geração e que cimentou a sua internacionalização ao longo dos tempos, apresenta e encerra o Alkantara com “Bovary”. A partir dos textos originais de “Madame Bovary” do novelista e romancista francês Gustave Flaubert, Tiago Rodrigues visita o território do confronto entre arte e lei, e toma como ponto de partida o julgamento de Flaubert por atentado à moral para uma adaptação da obra. Dias 7 e 8 de Junho na sala principal do São Luiz Teatro Municipal.

Alkantara – um festival de riscos em risco |

Quando três meses após o término da última edição, em 2012, escrevera um balanço geral do que fora a minha experiência enquanto espectador na 12ª edição do festival, estava então bem longe de imaginar que ao terminar o artigo alertando as estruturas, os financiadores e os parceiros para o potencial retorno intelectual do investimento nesta bienal, que o Alkantara chegaria a 2014 em tão mau porto financeiro. Sabemos pelas palavras de Thomas Walgrave, director da Associação Alkantara que é responsável pela direcção e programação do festival, que 2014 pode muito bem ser a última edição de um festival que se tornou, em Portugal e no Mundo, um lugar-comum e histórico na programação e na promoção de enormíssimos artistas nacionais e internacionais. A seu pedido, celebraremos juntos como sendo esta a última edição do festival. Espera-se que o façamos alegres e da melhor forma, indo aos espectáculos, acedendo ao pensamento, reflectindo sobre os tempos e as memórias. Mas ainda assim, é uma enorme pena que DGArtes e seus júris continuem, insistentemente, a aplicar um lado matemático às palavras e a não perceberem o que é o verdadeiro significado de “desfolhar”.

E é no desfolhar da programação completa que encontramos estas palavras:

 “…e quando perguntamos como é que vai ser agora? É a tragédia.”

(Thomas Bernhard, Antigos Mestres, Assírio & Alvim)

 

Todo a programação completa pode ser vista em formato físico aqui e em vídeo:

 

*por opção do autor este artigo não se encontra redigido sobre o novo acordo ortográfico



Também poderás gostar


Pin It on Pinterest

Share This