Alkantara Festival

As artes performativas invadem Lisboa de 2 a 18 de Junho. Entrevista com Mark Deputter, director do festival.

Quatro anos depois do último festival de danças na cidade, Lisboa volta a ser palco de um grande evento internacional de artes performativas. «Al kantara» significa «a ponte» em árabe e sublinha a ambição da organização, em construir uma ligação entre pessoas, culturas e linguagens artísticas. Durante mais de duas semanas, Lisboa vai receber 34 espectáculos, espalhados por alguns dos mais representativos espaços culturais da cidade. Um evento grandioso que merece toda a nossa atenção.                    

Mundos em palco. Este é o subtítulo escolhido para esta primeira edição do alkantara festival. Em Lisboa vão estar presentes artistas e companhias de países tão díspares e distantes como a Tailândia e o Líbano, mas que se unem em torno da arte contemporânea e na partilha de conhecimento, dando a conhecer a todos os seus “mundos”, a sua realidade e a sua visão da sociedade e da vida. Como Portugal também faz parte do mundo, a criação nacional também estará presente neste festival através de várias encomendas e do projecto Encontros 2005-2006 (ver nos próximos parágrafos).

A diversidade de propostas é algo que sobressai quando observamos o vasto programa deste festival, sendo bastante difícil e ingrato estar a evidenciar esta ou aquela actuação. Todos os espectáculos têm lugar em Lisboa, em alguns dos espaços culturais mais representativos da cidade, como por exemplo o CCB, o Teatro S.Luiz, o Teatro Camões ou o Teatro Maria Matos.

O festival junta nomes de referência da criação contemporânea, como Romeo Castellucci ou Alain Platel, com criadores igualmente interessantes mas menos conhecidos – muitas vezes apenas por serem de lugares considerados ‘periféricos’ – como Rabih Mroué e Lina Saneh de Beirute, Aydin Teker de Istambul ou Luiz de Abreu de São Paulo.

A criação nacional continua a ser uma das apostas do festival. Teatro Praga, Vitalina Sousa e Tânia Carvalho são alguns dos artistas que estreiam novos trabalhos no festival, mas o projecto mais ambicioso iniciou-se já em Agosto de 2005, quando alkantara, em co-produção com Panorama Rio Dança, juntou um grupo de 13 artistas portugueses e estrangeiros em Lisboa para iniciar um projecto de produção de seis novas criações. Durante um ano, os participantes encontraram-se em cidades tão distintas como Rio de Janeiro, Kyoto, Madrid, Munique e Cairo, para, enfim, estrearem o resultado das suas colaborações no alkantara festival.

Para além dos 34 espectáculos que fazem parte da programação do festival, o alkantara apresenta um novo conceito em forma de percurso. Em “Encontros Imediatos”, 16 projectos seleccionados por um júri são apresentados em jardins, palácios, galerias, museus, associações e clubes desportivos, desenhando um percurso cultural inesperado, a ser visitado pelo público num longo Domingo, das 11h da manhã até à meia-noite, criando assim uma interessante comunhão entre a cidade, a arte e o cidadão.

Tivemos a oportunidade de trocar algumas ideias com o director do Festival, Mark Deputter. Fiquem com a entrevista:

RDB: Na sua opinião, qual a importância de um evento como o alkantara Festival numa cidade como Lisboa?

Mark Deputter: Tal como precisamos de uma boa festa de vez em quando para quebrar a monotonia da vida diária, uma cidade precisa de eventos que consigam mobilizar os habitantes. Claro que os Santos Populares e um grande jogo de futebol o fazem muito bem, mas também é importante que o movimento se construa à volta de um evento cultural.

Mas especificamente, o alkantara festival cria uma oportunidade para o público se confrontar com o trabalho de artistas de várias origens e culturas muito diferentes. Acho que, na era da globalização, a arte nos pode ajudar a compreender melhor os outros mundos que nos rodeiam.

Quais são os objectivos e motivações para organizarem um evento deste tipo?

Os objectivos são vários: em primeiro lugar queremos oferecer um programa de teatro e dança contemporâneo a um público alargado. É inquestionável que um grande festival tem a capacidade de conquistar novos públicos. Também procuramos inserir a criação nacional num contexto internacional, inscrevendo Lisboa no roteiro dos grandes festivais. A presença de um festival internacionalmente reconhecido cria uma dinâmica de intercâmbio que perdura muito para além do próprio evento, o que é crucial para o desenvolvimento da criação artística local. 

O alkantara Festival vai decorrer nos mais importantes espaços culturais da cidade. Foi dificil conseguir esse apoio?

Foi bastante trabalhoso, porque era preciso falar com os directores e programadores, apresentar o nosso projecto e discutir os conteúdos, implicando várias reuniões com cada um dos teatros co-produtores e acolhedores do festival. Mas fiquei agradavelmente surpreendido com a receptividade. É extraordinária a vontade de colaboração que existe aqui em Lisboa. Em muitas outras cidades, os teatros e espaços culturais vêem-se apenas como concorrentes, aqui tenho a sensação de que ainda existe um sentimento de missão e de responsabilidade na divulgação de bens culturais. Talvez porque trabalhemos todos em condições precárias e sentirmos que se consegue mais colaborando. 

Quais foram os critérios de escolha dos espectáculos presentes no alkantara?

Não existe um único critério unificador, mas há linhas orientadoras. Por exemplo, a vontade de unir, num único evento, nomes consagrados e novos valores. Queremos, assim, resistir à ideia de que a fama iguala qualidade. Apresentamos várias peças absolutamente fantásticas de criadores desconhecidos – muitas vezes apenas por serem de países considerados ‘periféricos’, como Turquia, Moçambique, Brasil ou Tailândia.

Outra opção é a aposta na criação. Quinze dos 34 espectáculos foram encomendados e/ou co-produzidos pelo festival. Um festival não pode ser uma mera montra da oferta existente, mas deve investir activamente no trabalho dos artistas. Pôr as mãos na massa. Apesar de ser um evento de curta duração, alkantara mantém uma relação muita activa com a comunidade artística local e internacional, sobretudo através de parcerias e projectos de longa duração, por exemplo com a escola de dança PARTS (Bruxelas), CulturArte (Moçambique) ou Panorama Rio Dança (Rio de Janeiro). Um outro exemplo é o projecto Encontros 2005-2006 que juntou 13 artistas portugueses e estrangeiros para desenvolver um projecto de produção de seis novas criações. Durante um ano, os participantes encontraram-se em cidades tão distintas como Lisboa, Rio de Janeiro, Kyoto, Madrid, Munique e Cairo, para, enfim, estrearem o resultado das suas colaborações no alkantara festival.

Na selecção das peças há vários elementos que estão em jogo, mas neste festival tento apresentar artistas que vão puxando os limites, questionando sem cansar o consenso. Artistas extraordinários são aqueles que conseguem esta quadratura do círculo: ser arrojado e inovador e, ao mesmo tempo, teimosamente consistente.

Já está a viver em Portugal há mais de dez anos. O que acha que mudou na cultura portuguesa? Qual a sua opinião sobre a sociedade nacional?

Bom. Não tenho tempo para escrever um livro, mas acho que a evolução mais relevante é o crescimento da sociedade civil. Durante séculos Portugal viveu sob regimes altamente controlados e hierárquicos e o que mais estranhei quando cheguei ao Portugal foi o pouco reconhecimento da importância da iniciativa privada. Tudo é muito politizado e as autoridades nacionais e locais não gostam de perder o controlo. No norte da Europa a situação é exactamente o oposto: o estado tenta implicar e dinamizar ao máximo a sociedade civil, passando grandes responsabilidades e os dinheiros necessários. Sinto que se começa a perceber aqui também que a iniciativa privada faz muitas coisas de forma melhor e mais barata. Se o nosso festival fosse uma iniciativa governamental, custava o triplo e seria menos interessante. Não tenho dúvidas.

As artes performativas em Portugal continuam a viver um momento de crise. Concorda com esta afirmação?

Não, acho que o festival comprova o contrário. Existe uma crise de meios, uma falta de estruturas e de políticas culturais claras e estáveis. O que é bastante estafante para os artistas e os profissionais do espectáculo. Mas na área de criação gosto bastante do espírito ‘aventureiro’ dos jovens criadores portugueses. Há sempre uma grande vontade de experimentar, tentar coisas novas e diferentes.  

O alkantara Festival é um projecto a longo prazo? Será realizado todos os anos?

O alkantara festival é uma reformulação do festival Danças na Cidade que andamos a organizar desde 1993. Depois de 7 edições Danças na Cidade desapareceu em 2004 por falta de verbas. Espero que venha a ser possível organizar o alkantara festival de dois em dois anos. Vamos trabalhar para isso…

 

Apoiem a cultura e divirtam-se.



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