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Almada Negreiros

O mestre e a cidade que o adoptou. Conheçam Lisboa por outra perspectiva.

Não se é de determinado lugar apenas por nele ter nascido, mas sobretudo por de alguma forma ser dele parte integrante. Se possível, de forma positiva e enriquecedora para o todo, quer em vida, quer além dela. Assim está Almada Negreiros para Lisboa. É por essa faceta da cidade que nos levará o passeio que aqui se sugere.

A capital portuguesa é das cidades onde um passeio é mais apetecível. Tanto a sua beleza como o bom clima que se faz sentir boa parte do ano são motivos suficientes para afastar qualquer contrariedade que possa suscitar uma cidade repleta de carros e respectiva poluição. No entanto, numa capital com a dimensão e riqueza de Lisboa, facilmente nos perdemos na vastidão de pontos de interesse e, nisto, acabam por nos escapar os menos óbvios. Assim, sugerimos uma volta diferente, por sítios que são espaços do dia-a-dia da cidade sem o obstáculo de bilhetes, paredes e outras complicações, com um denominador com uma relação especial com Lisboa: José de Almada Negreiros.

Não tendo nascido alfacinha, cedo se mudou, vindo de São Tomé e Princípe, para a capital portuguesa. Em Lisboa cresceu, se fez homem e formou enquanto artista “sem mestre”, como lhe chamou José Augusto-França. Da principal gare de Lisboa parte, primeiro, para Paris e, depois, para Madrid, mas também a Lisboa regressa sempre. Em Lisboa e por Lisboa se apaixona e com ela reparte alguns dos momentos mais altos da arte portuguesa do século XX.

É hora de nos fazermos ao caminho que de conversa fiada, socorrendo-me das palavras do mestre Almada no seu Manifesto Anti-Dantas, “BASTA PUM BASTA”! Ponto de partida: galeria Diário de Notícias, ao cimo da Avenida da Liberdade. Entramos por uma pesada porta rotativa, daquelas que fazem a delícia de qualquer criança, damos dois passos para a direita e estamos na galeria. Entre 1939 e 1940, Almada Negreiros dedicou-se a pintar os frescos com que agora nos deparamos nesta sala.

À nossa esquerda um imenso planisfério perante o qual vale a pena determo-nos um valente pedaço de tempo. Repletos de povos e criaturas, os mares e continentes são aqui reproduzidos em tonalidades folclóricas fazendo lembrar, quer pelo carácter de fantasia quer pela rica paleta de cores, a cartografia antiga. Na parede oposta, Almada representou o dia de um jornal, desde que ele é pensado, passando pelo papel chegando imaculado às tipografias até que na rua e já preenchido de tinta um ardina o apregoa. Hoje este friso fala-nos duma imprensa doutros tempos como podemos concluir se pensarmos que nos nossos dias, por exemplo, a profissão de ardina está próxima da extinção ou que um periódico já não é apenas possível em papel. Entre estas duas peças vemos uma alegoria a Portugal, algo trivial na forma como nos é contada, mostrando-nos quatro diferentes regiões e a relação das suas gentes com o território, seja ele a terra ou o mar. À saída, guardando o melhor para o fim, convém não esquecer o friso que se encontra pintado no átrio do edifício. Mais uma alegoria à imprensa, desta vez numa abordagem menos directa, mais formal e mostrando sinais duma tradição que remonta ao renascimento, quer pelos elementos representados e os contornos em que tal é feito quer pela citação de Luís de Camões. Neste friso, posterior aos que acabámos de ver na galeria, a pintura de Almada Negreiros ganha uma essência que, nos exemplos anteriores, parecia diluir-se demasiado no carácter representativo das obras.

Novamente cá fora, agora com o olhar encantado, é tempo de retomarmos o passeio. Próximo destino: Cidade Universitária, em pleno Campo Grande. Concretizada na transição da década de cinquenta para a de sessenta, em pleno Estado Novo, esta obra teve o traço de Porfírio Pardal Monteiro, o mesmo que convidou Almada para decorar a fachada dos edifícios da Faculdade de Direito (FDUL), da Faculdade de Letras (FLUL) e da Reitoria.

Perante o desafio, o artista optou pela gravura incisiva e colorida no mármore que compõe as fachadas. É nesta técnica que podemos observar a representação de: buscadores do conhecimento, directa ou indirectamente relacionados com o direito, na fachada da FDUL; figuras literárias, como Gil Vicente, D. Quixote ou os heterónimos pessoanos, em Letras e; elementos carregados de simbolismo ligado ao saber, com um traço marcadamente mais geométrico, no edifício da Reitoria. De todas as obras sugeridas neste passeio, esta é sem dúvida a mais acessível. Não importa que altura do dia ou que tempo faça, estas fachadas hão-de estar sempre ali para nos deslumbrar.

Podemos aproveitar as escadarias junto às fachadas para descansar e pensar, mas não demoradamente que o passeio ainda vai a menos de meio. Contudo, daqui em diante é sempre a descer e fazer o resto a pé é uma óptima decisão. Paragem seguinte: Tribunal de Contas, na Avenida da República, um pouco depois do Campo Pequeno, do lado direito, no cruzamento com a Avenida Barbosa du Bocage.

Um dos campos de maior busca artística da vida de Almada Negreiros foi a geometria. A tapeçaria de 1958 intitulada O Número, que vemos no átrio do Tribunal de Contas, é precisamente uma compilação das primeiras respostas que o artista alcançou nessa área. Apesar de só mais tarde, como veremos também mais à frente no nosso passeio, nos legar o seu verdadeiro testamento no que ao número diz respeito, já aqui nos podemos aperceber do quanto a geometria dominou o pensamento do artista. Por exemplo, na representação de figuras ligada à geometria como, à direita, Piero della Francesca e, à esquerda, Da Vinci, em quem também se inspira para compor o desenho do homem que nesta tapeçaria é motivo central. Se observarmos as várias formas geométricas em que Almada envolve estes elementos, os desenhos que preenchem os topos e as citações utilizadas, percebemos que aqui só se respira uma coisa: número.

Aproveitando a deixa dos números, e em jeito de balanço, estamos a dois pontos do final da viagem e o próximo fica, bem pertinho, no 104 da Avenida Marquês de Tomar: igreja de Nossa Senhora de Fátima. Construído entre 1934 e 1938, este edíficio foi marcante para a carreira de Almada. Por um lado, é aqui que se inaugura a colaboração com o arquitecto Pardal Monteiro, que se repetiu nos grandes murais dos anos quarenta das gares marítimas de Alcântara e da Rocha do Conde de Óbidos e, como já vimos, na Cidade Universitária. Por outro lado, é a entrada no circuito de encomendas do Estado, que então, em Portugal, era a única fonte segura de trabalho para um artista.

Quando entramos nesta igreja de inspiração medieval somos de imediato confrontados com uma faceta de Almada Negreiros diferente das que visitámos até agora: vitralista. Neste trabalho, o artista procurou recuperar o espírito deste suporte do qual, como teve oportunidade de afirmar, “perdeu-se a poesia dos seus ousados e ignorantes percursores”. Ao desenhar essa poesia perdida fê-lo no seu traço muito próprio e cheio de cor. Ao visitarmos este espaço num dia de imensa luz percebemos a importância da cor quando, por exemplo, nos detemos no tríptico da cena da crucificação que podemos ver por cima da entrada. O mesmo factor luz torna cada oportunidade que tenhamos de voltar a este espaço em algo único.

Depois de percorrermos a igreja para podermos contemplar os vitrais e absorver toda a sua cor é hora de partir para o último ponto do nosso passeio: Fundação Calouste Gulbenkian. Quase na praça de Espanha, mas ainda na avenida de Berna, a sede desta fundação tem na sua entrada a última grande obra do mestre Almada. Quando há pouco, a propósito d’O Número, se falou em verdadeiro testamento, é no átrio da Gulbenkian que podemos encontrar o painel Começar.

Terminado em 1969, pouco antes da sua morte, Almada trabalhou incansavelmente nesta obra. No entanto, quase podemos acrescentar que o fez a vida toda. A lição que se poderia adivinhar em O Número está aqui, tal como o artista procurou, “sem opinião” e “sem texto” no frio da pedra. Os diferentes motivos geométricos que durante décadas tomaram o seu pensamento são aqui apresentados. Por exemplo, a relação 9/10 no ponto mais à esquerda da obra ou, logo à sua direita, a figura superflua ex-errore de Leonardo Da Vinci. E até o título, de poeta, tem ressonâncias noutro momento da sua vida quando n’A Cena do Ódio diz “põe-te a nascer outra vez”.

José de Almada Negreiros terminou a sua carreira artística com uma obra que, inteligentemente, intitulou Começar e da mesma forma terminamos o nosso passeio. Evidentemente não é inocente o ponto final, quer pela importância que tem na obra do artista, quer pelo sítio onde se encontra e cujos belíssimos jardins nos permitem, agora com os olhos e o coração cheios de Almada Negreiros, talvez começar uma viagem diferente…



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