#AGC ALTIN GUN 015

Altin Gün + Môrus @ JUR 2019 (26.10.2019)

Em Lisboa, nesta noite no Musicbox, os Altin Gün mostraram porque tanta gente fica entusiasmada por eles.

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Na última noite do Jameson Urban Routes, o Musicbox foi palco de uma dupla mística experiência sonora. À chegada, o ambiente plácido e calmo não fazia antever emoções demasiado intensas e a antecipação de ambos os conjuntos musicais para a primeira metade da noite adivinhava uma agradável coleção sonora.

Esta seria uma espécie de calmaria antes da tempestade que dali seguiria e que explodiria num crescendo coletivo entusiasmante, borbulhante, ar elétrico e muita gente a “dominar” o turco realmente ou apenas por simpatia emocional.

Os Môrus abriram as hostes e para quem não os conhece é possível que as expectativas estejam baixas ou quase inexistentes. Em muitos casos, isso pode ser uma desvantagem, mas para esta dupla de músicos portuguesa composta por Alexandre Moniz e Jorge Barata resulta perfeitamente porque eles vêm pela calada para explodir de talento.

Com carreira relativamente curta, demonstram em palco a sua tremenda entrega e resultam enérgicos em despique conjunto, numa espécie de transe folk progressivo envolto pelo nevoeiro místico-religioso do ideário galaico-português.

Na prática, os Môrus entraram a matar com versões muito próprias de Zeca Afonso e José Mário Branco, o que serviu como introdução às suas influências sonoras e estabeleceu o mote de forma clara para o que se seguiria. Nem sempre totalmente coesos em termos melódicos (ou pelo menos o sistema de som assim o deu a perceber), esse elemento menos positivo foi largamente compensado pela paixão de estar ali naquele palco íntimo, pouco iluminado, e a energia que transmitiram passou intensamente para o público.

Em determinados momentos, as duas figuras dos músicos em palco, escassamente iluminadas, faziam lembrar dois pastores no topo das agrestes montanhas, vergastados pelo mau tempo, pela tempestades, cantando para salvar a alma, carregando cruzes indizíveis, suportando a chuva na face e ecoando hinos pastoris que nem precisam de ter palavras.

Essa é a verdade que trespassa para o lado de quem ouve, a de que não são precisas palavras e se preciso fosse, para se salvarem almas, poder-ser-ia fechar os olhos e aqueles sons seriam suficientes. Os Môrus têm essa energia ao vivo e transportaram tudo isso para quem os ouvia em perfeito transe, mesmo que nem sempre a perfeição tivesse existido, bastava estar em sintonia.

Passeando pelos sons do seu EP homónimo, o concerto resultou curto, mas surpreendente, intenso, e sem sombra de dúvidas aqueceu o ambiente que já ficou incendiado para a banda que se seguiria e que muita gente esperava com ansiedade. 

A sala encher-se-ia quase por completo para ouvir os Altin Gün, banda com membros de origem holandesa, mas cujas raízes estão totalmente submergidas na música tradicional turca, algures entre o folk, o rock clássico, a pop. Dizem fazer rock da Anatólia ou folk turca psicadélica, o seu universo sonoro é amplo e a sua capacidade de fundir todos esses elementos demonstra um enorme talento e paixão por essas mesmas raízes.

Atualmente numa extensa digressão mundial, os Altin Gün parecem contentes por estarem a viver este momento, chegam, falam com o público, estão algo surpreendidos por ainda na semana anterior terem estado em Nova Iorque e agora estarem pela primeira vez em Lisboa.

Trazem na bagagem dois álbuns de longa duração e por esta altura já muita experiência de tocarem juntos, algo que se nota bastante tanto no modo como estão musicalmente entrosados como também na liberdade que tomam em se entregar completamente ao transe que a música lhes confere.

Em Lisboa, nesta noite no Musicbox, os Altin Gün mostraram porque tanta gente fica entusiasmada por eles. Percorreram de forma quase completa e inteligente os temas mais marcantes dos dois álbuns e voltaram ainda para um extenso encore repleto de improviso e puro prazer de tocar ao vivo.

Muito do catálogo da banda está intimamente relacionado com a repescagem de clássicos do rock folk progressivo, o disco dos anos 70, a cena turca que mistura um pouco da modernidade com a ancestralidade sonora. Não é por acaso que o vocalista Erdinç também toca um instrumento tradicional chamado baglama, típico não só da Turquia, mas do território abrangido pelo antigo mundo persa e abarcando até alguns atuais países balcânicos.

Os Altin Gün são uma mistura impressionante de imensos elementos e quando Merve canta, por exemplo, transformam-se numa banda diferente de quando Erdinç canta. Muitos momentos no Musicbox foram quase uma experiência religiosa, com a voz de Erdinç semelhante à do muezin a chamar os fiéis para a oração do alto da sua torre, ondulante, hipnotizante, não há substâncias psicotrópicas envolvidas, mas o transe é praticamente certo.

O palco mutava-se quando, por exemplo, a banda adentrava pelo seu mais recente álbum, “Gece”, mais próxima da sonoridade kitsch dos anos 70, e aí rapidamente se abandonava o transe místico para entrar num baile popular de coletividade, a luminosidade plástica, psicadélica, frenética, Meve movendo-se quase como um dervish a pedir ao público que dance à turca, estalando os dedos.

O público esse, rendido, fez tudo o que lhe foi pedido, estava sob o feitiço dos Altin Gün, dançou à turca, cantou os temas mais populares, abanou as mãos e permaneceu teimosamente até que a banda voltou para o encore. Foi frenético e em transe que lentamente abandonou o lugar onde se encontrava, quase não acreditando no que se tinha passado.

Acredite-se ou não, esta foi a noite do palco que em muitos momentos foi altar e celebração do transe coletivo. Fechava-se os olhos e ninguém estava ali à volta, tempo de reza musical, as palavras que maioritariamente não se entendem foram mantras apaziguadores, outras vezes instigadoras de danças loucas em que se rodopia e rodopia em conjunto. Não houve razão envolvida, embora na realidade esse seja o ponto alto dos bons concertos, quando o profissionalismo, o saber e a paixão se encontram todos num só palco para criar um nó górdio no público que depois fica difícil de acordar e ir embora.

 

 

Texto por Cátia Santos e fotografia por Andreia Carvalho.



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