©José-Eduardo-Real_01_G_A

Alucina

"Nós gostamos do que é directo, do que é pontapé na cara”.

Alucinar – v. tr. privar da razão; apaixonar; desvairar; produzir alucinação; v. refl. perder a razão momentaneamente; enganar-se; iludir-se.

Este é o significado da palavra quando a procuramos no dicionário e, sendo uma palavra que abrange vários significados, os Alucina enquadram-se perfeitamente neste cenário. O trio lisboeta é a segunda novidade que a RDB tem para ti. “Cassete no interior” é o título do EP com lançamento marcado para o dia 13 de Outubro, no qual será apresentado pela primeira vez ao vivo em mais uma “Noites da Rua” @ Musicbox. Como não queremos deixar-te de fora do contexto, a RDB foi ao encontro do grupo que é composto pelo Fábio Oregos (guitarra e voz), o Norte (baixo) e o Lourenço (bateria) num café típico lisboeta de onde resultou esta “diz que é uma espécie de entrevista em tons informais de conversa agradável”.

Como é que tudo começou?

Ora, o lançamento do nosso primeiro EP com o nome “Cedo Demais” foi em 2008, mas a banda já existe formalmente desde 2005, data em que tocámos pela primeira vez ao vivo. Antes do primeiro EP gravámos uma demo, mas não ficou nada de especial. Entretanto, 2005 foi o ano que nos permitiu tocar mais ao vivo e adquirir alguma experiência de palco. Contudo, em 2008 foi quando começámos a estar mais preparados para dar um passo em frente. Habitualmente, à partida, há muita gente que tem uma data de bandas quando são jovens e quando se estão a procurar enquanto músicos. O nosso caso não é bem assim. Desde os 16 anos de idade que eu (Fábio) e o Lourenço ensaiamos juntos e fazemos algumas coisas a nível musical em conjunto, mas não podemos afirmar que a banda começou nessa época. O Norte começou a tocar connosco por volta do ano 2002, mas foi sempre aquela coisa do “bora tocar um bocadinho” e até fazíamos algumas coisas engraçadas, mas de forma mais egoísta.

Seria mais ou menos hobby para vocês até que surgiu a oportunidade de se tornar uma coisa mais à séria. Como é que surge essa oportunidade de levar isto mais a sério?

É um pouco como a história de ter um hobby – aquela coisa em que há pessoas que jogam à bola uma vez por semana. Na altura, não era uma vez por semana, mas quando nos apetecia íamos tocar e o nome até já tinha surgido, mas era uma coisa só nossa. A partir de 2005 começámos a ter um conjunto de músicas que estavam a ficar bem preparadas e até gravámos uma música. A partir daí começámos a colocar no MySpace e começámos a realizar concertos ao vivo. Tudo isto já se proporcionou numa altura em que não éramos estudantes, já estávamos no mercado de trabalho, mas por várias situações tivemos que parar durante um ano e pouco. A partir dessa altura, não sei se foram as expectativas que tínhamos do trabalho e da vida, mas também a necessidade de ter um escape e o surgimento da necessidade de criação que voltou a tomar conta de nós. Por vezes o que acontece é o pessoal criar uma banda porque quer ser cool e até apostam muito de si e do seu trabalho, mas depois começa a aproximar-se da vida adulta e o sentimento passa. Connosco passou-se o contrário. Era uma coisa que gostávamos de fazer, mas que ainda estávamos um bocado à procura e que a determinada altura passou a ser uma necessidade de deixar de ser egoísta e colocar as canções cá para fora.

Entrevista - Alucina

Sentiram isso porque foram atingindo a maturidade profissional?

Sim. Para além de sermos autodidactas, percorremos o caminho de nos encontrarmos enquanto grupo e também enquadrar o estilo que queríamos adoptar porque vivemos a nossa adolescência numa fase de muitas viragens a nível musical. Houve muitas mudanças ao longo dos anos 90 e muitas influências surgiram a partir daí. Creio que essa foi a melhor altura no sentido em que soubemos verificar o melhor estilo para nós pois somos pessoas que ouvimos um bocadinho de tudo.

Pois, eu estive a ler sobre as vossas influências e vocês indicam os Radiohead, The Strokes e Metallica…

E essas são algumas… existem mais até porque isso faz parte do grande género que é o rock. Não são só influências da banda, mas enquadram-se também em cada um enquanto pessoa. O Norte é fã de Dave Matthews Band e eu (Lourenço) não os oiço nem que me paguem.

Serão mais referências do que influências?

Sim, temos imensas referências. Há coisas que à partida fomos alimentando enquanto miúdos, como os Radiohead, Nirvana, etc, e outras coisas que fomos ouvindo enquanto fomos amadurecendo e roubando os vinis dos pais.

Mas também não tentam copiar nenhum dos estilos…

Não. Aquilo que acontece connosco é que não há uma tentativa de cópia. Quanto muito o que acontece, por vezes, é por força maior das influências que nós tenhamos e andemos a ouvir ultimamente com muita insistência, de repente haver qualquer coisa que acontece em estúdio e “epá, espera aí, não pode ser porque é igual a não sei quê” e então tentamos censurar-nos um bocado em determinadas situações.

(Norte) É isso que é engraçado na nossa banda pois temos influências bastante diferentes. Falou-se de Dave Matthews (não é que eu seja um fã mas pronto houve aquela fase), mas há bandas que nós ouvimos e que são comuns, mas depois há bandas que cada um de nós ouve e que os outros não gostam. Eles (Lourenço e Fábio) se calhar até têm uma ligação maior. Ele (Lourenço) como baterista sempre ouviu bandas mais fortes e mais pesadas na sua juventude e isso sente-se na maneira como toca bateria; ele (Fábio) através da composição mais a nível de introspecção, a nível de letra, das composições de músicas, optou por outras bandas; e eu optei por uma coisa mais tecnicista, mais melódica e isso vê-se na maneira como toco baixo. A coisa mais engraçada na nossa banda é termos duas ou três bandas que gostamos muito em comum, mas depois no dia-a-dia cada um ouve as suas coisas.

Mas tentam, ao mesmo tempo, afastar o modo como isso vos influencia enquanto grupo…

Não somos uma banda demasiado colada a esta ou aquela banda. Por exemplo, uma vez li uma entrevista do Beck em que dizia: “Eu, tudo o que faço é roubado de algum lado, mas a arte que eu procuro fazer é sempre tentar misturar tudo sem perceber onde vou buscar as coisas”. De certa forma acho que fazemos um bocadinho disto. Temos uma mistura de vários ritmos e nos últimos tempos temos tocado de forma semelhante, mais a nível de riffs de guitarra, como os The Strokes, mas acabamos por alterar isso rapidamente e incluir outras influências. Eu gosto de falar do rock como uma coisa aberta porque, quando na página do MySpace colocámos as nossas influências, nós estamos mais a homenagear as bandas que cada um de nós ouve ou ouviu, do que a referirmos influências propriamente ditas. Chegámos ao limite de, por exemplo, e pegando na música «Locutor de Rádio Nocturno» que está incluída deste novo EP que vamos lançar brevemente chamado “Cassete no interior”, posso dizer que uma das minhas principais influências nessa música acaba por ser o Chico Buarque que nem sequer tem nada a ver a não ser a questão da letra. Há uma música do Chico Buarque que se chama «Construção» em que não se privilegia a rima, mas a conjugação das frases com palavras esdrúxulas e eu utilizei essa técnica na nossa canção. E é um bocado isso, de buscar coisas diferentes a nível de influências, quer a nível musical, quer a nível de outras coisas.

Como foi o processo criativo para a criação deste vosso novo EP?

O processo criativo está interligado com o que disse anteriormente. O «Locutor de Rádio Nocturno» surgiu de uma forma diferente daquilo que costuma acontecer. Normalmente a letra e a música nascem mais ou menos na mesma altura e normalmente sou eu (Fábio) que escrevo as letras. Mas a canção de que estava a falar surgiu ao contrário. Quando estás num estúdio tens aquela coisa de “vamos tocar a sério, vamos lá trabalhar”, mas há dias em que estás cansado e não te apetece levar as coisas a sério e simplesmente queres tocar. Às vezes apetece-te tocar qualquer coisa que não tem um princípio, um meio e um fim e por vezes até são as que resultam melhor. Creio que uma banda precisa de ter duas coisas: precisa de ter aquele processo em que andas à procura de algo, compões e levas para o estúdio já semi-feito; há também aquela coisa de andar pela rua e de repente surge-te uma ideia, gravas uma malha e depois levas para mostrar à banda; e depois há aquela coisa de tocar por tocar. Esta música foi mesmo assim: uma malha de baixo que o Norte começou a tocar. Depois acabámos por fazer o resto do instrumental e certo dia eu decidi compor uma letra e a canção ficou bem. Acabou por ser uma música com um processo criativo bastante longo. Num processo normal, normalmente componho a letra e construo a música na guitarra e faço mais qualquer coisa. Outras vezes surge uma malha e depois encontro uma letra escrita há algum tempo. Depois em conjunto com a banda é que acrescentamos e organizamos tudo, sobretudo neste EP, todas as músicas foram bastante trabalhadas em estúdio.

E quando é que vai ser lançado o vosso EP?

No dia 13 de Outubro, nas “Noites da Rua” @ Musicbox.

Fala-nos um pouco sobre as diferenças entre o vosso primeiro EP “Cedo Demais” e este que sairá muito em breve, “Cassete no interior”

O nosso EP inicial foi feito assim “à primeira”. Neste último, as ideias originais estiveram sempre presentes, os esqueletos foram sempre respeitados, mas houve um trabalho muito maior da banda em si, de construção e de experiências nas próprias músicas do que tinha acontecido anteriormente. O que não faz das músicas algo demasiado complexo. Nós somos uma banda de rock simples. Aliás somos, fomos e seremos, mas o processo foi diferente, o que acabou por ser normal e natural que assim fosse. Temos uma música que se chama «Deserto da Paz» que é a excepção à regra. A letra foi composta pelo Lourenço na qual eu (Fábio) também lhe pedi autorização para complementar algumas coisas para facilitar…

(Lourenço) Nem sempre é fácil musicar uma letra que não tem estrutura nenhuma, até porque muitas vezes eu pegava num papel e numa caneta e desatava a escrever e não é fácil musicar uma coisa que ora tem um verso com duas palavras e a seguir já tem um verso com seis ou sete palavras. A dada altura achámos que havia espaço para incluir outras temas porque no início os temas das músicas eram um pouco mais virados para um “interior” e ele (Fábio) dizia “estou farto de escrever assim, está na hora de mudar um bocadinho a nossa forma de escrever na banda”. Então eu disse que podia ir ao meu baú e encontrei a letra do «Deserto da Paz» que recordo-me que nem sequer tinha título, mas depois acabei por lhe atribuir um. Depois coloquei aquilo nas mãos do Fábio e ele deu-lhe outra composição: criou um refrão para a música.

(Fábio) A nível do processo criativo, ele tem razão na questão do “eu”, mas aquilo que a banda procura a nível das letras é uma análise da sociedade através do “eu”. Algumas pessoas pensam que, com a agressividade com que tocamos ou com a forma como dizemos as coisas, associam a alguma crítica, mas a crítica que nós fazemos acaba por ter uma filtragem nos nossos próprios corpos e de nós mesmos.

Inicialmente éramos uma banda de Punk Rock que depois acabou por deixar de ser tanto assim, mas também não somos uma banda de crítica aos políticos, nem sequer gostamos disso.

Em relação ao EP anterior, qual o feedback que tiveram e o que esperam agora com este novo álbum?

Na altura em que lançámos o “Cedo Demais” fizemos uma apresentação do álbum, fizemos vários concertos em Lisboa e em outros pontos do país, mas ficámos apenas cerca de um ano à volta do EP. Na altura teve uma boa aceitação, teve boas críticas e algumas canções desse EP foram colocadas numa colectânea pertencente ao Movimento Alternativo Rock que é um movimento do qual nós fazemos parte desde o início. Vendemos as cópias todas que fizemos, mas que também não foi nada de outro mundo. Nesse aspecto foi positivo, mas estamos agora com expectativas elevadas pois o investimento foi maior, quer a nível de experiência de palco, quer a nível de termos um EP que foi criticado por muita gente e muito bem aceite. Deu-nos também muito feedback do que eram as opiniões das outras pessoas. Os músicos amadores devem ter a noção de que as músicas não devem ser feitas só para eles e, à medida que vamos evoluindo, vamos percebendo que também tem de ser feita para quem vai ouvir. Uma coisa bonita que tem que acontecer, independemente de seres os U2 ou os Alucina, é que temos que tocar na consciência de alguém, passar a mensagem. Os U2 tocam para 300 milhões de pessoas, por exemplo, mas no nosso caso, se atingirmos uma pessoa com a nossa música, isso é maravilhoso.

Chegaram a ver pessoas a cantar as vossas músicas?

Sim. Nós já conseguimos conquistar algumas pessoas e isso é o que nos faz sentir melhor. Acho que nós a brincar, e não querendo dizer isto, somos uma banda de rock honesto e acredito que as pessoas sempre nos interpretaram como tal. Existe uma certa dose de verdade naquilo que dizemos e que as pessoas identificam-se. O que acontece é que o nosso “eu” e a forma como o fazemos pode ser interpretado de muitas formas por outras pessoas. Neste último EP, houve um input muito maior em vários níveis: no trabalho global e grupo em que em termos de instrumentos fomos mais além; a conjugação de todos os factores em equipa também foi mais além e a nível das letras, porque se o outro EP tinha letras que eram “um pontapé na cara”, este também as tem mas de uma outra forma.

Também passaram 3 anos desde o lançamento e também cresceram, amadureceram e isso transmite-se no vosso trabalho…

Sim, claro e é isso de que se trata. Temos também outra questão que tem a ver com o próprio investimento a nível da qualidade do som. O local e o estúdio onde gravámos o “Cassete no interior”, que foi no estúdio namouche, é um sítio histórico onde já passaram os Xutos e Pontapés e em termos de área é o maior estúdio nacional. Isso foi um investimento muito grande e que é notório. Houve muitas opções que tomámos no primeiro EP a nível de produção e mistura que se calhar hoje não o fazíamos. Neste EP acabámos por fazer alguma pós-produção e estamos sempre a dar apoio a quem faz a produção do disco. Fizemos isso nos dois casos, mas neste EP em concreto as opções que nós tomámos vamos, com certeza, ter menos arrependimento do que tivemos no primeiro EP.

Arrependeste-te de alguma coisa em relação ao EP anterior?

Apenas em questões de pormenor como “este coro aqui é chato, devia estar noutro sítio”. Mas isto tem a ver com a experiência de que “quanto mais vais fazendo, mais vais tendo noção de outras coisas”. No outro EP, acho que cedemos demasiado à pessoa que estava a gravar e a produzir connosco. Neste EP isso já não aconteceu. A pessoa deu bastantes opiniões, mas as mesmas estavam mais alinhadas com aquilo que nós pensávamos e é uma pessoa que está mais dentro da nossa linha. O Joaquim Monte, o nosso produtor, consegue perceber as concepções musicais de toda a gente e foi isso que aconteceu connosco.

 E como é que surgiu o nome da vossa banda. Ainda te lembras?

O nome da banda foi rebuscado ao baú… quando éramos quase juvenis e tocávamos de vez em quando. Nós mantemos o nome da banda que optámos na altura, mas não consideramos que a musicalidade da banda tenha sido enquadrada nessa altura. Nesse período foi uma brincadeira, acho que nem me recordo muito bem… alguém disse uma coisa qualquer, uma piada. Nós gostámos e à partida o alucinar tanto pode ser uma coisa positiva ou negativa e nós, como somos uma banda que desde cedo gostamos das dicotomias e as nossas músicas falam muito dos contrários e dos pólos opostos, o nome pode ter uma boa ou má interpretação, dependente do contexto.

Mais uma forma de chamar a atenção das pessoas e para que elas se identifiquem com algo?

Sim, nós gostamos do que é directo, do que é “pontapé na cara”. Não gostamos de muitos rodeios e por isso a nossa música tem de ser algo que se oiça à primeira, apesar de eu ter muitas bandas que não gostei à primeira, mas à partida é esse o meu objectivo como músico. De certa forma o nome da banda acaba por ser um pouco isso e queremos sugerir que se faça alguma coisa. O nome já foi posto em causa em algumas alturas, mas pronto… gostamos do facto de a palavra começar e terminar com a primeira letra do alfabeto.

Esta é de facto uma banda que vai surpreender-te e contagiar-te com o poder das guitarras.   Não te esqueças, dia 13 de Outubro, no Musicbox em Lisboa, os Alucina esperam por ti.

Fotografias por José Eduardo Real. As “Noites da Rua” contam com o apoio da Lacoste L!VE.



Também poderás gostar


Pin It on Pinterest

Share This