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“Amor e Poder” de Diana de Cadaval

Os altos e baixos do amor ao longo da História

Um hino ao passado, ecos de romances que até aos dias de hoje são tema de discussão e interesse. Uma coleta de histórias, onde os sentimentos, o dever e o poder são os principais intervenientes.


Amor e Poder, de Diana de Cadaval (Manuscrito, 2019), é uma compilação de algumas das mais inesquecíveis histórias de amor, escolhidas a dedo pela autora, sobre a vida emocional e os tormentos de dez casais de renome. O amor entre sangue, lágrimas e lutas de poder.

Acredito piamente que o amor está na base de tudo. Não podemos viver sem amor. (…) o amor tem muitos contornos.
É um sentimento poderoso, avassalador mas também misterioso, cuja definição ou verdadeira compreensão nos escorrega por entre os dedos. Um sentimento capaz de ganhar batalhas, derrubar muros e de conquistar tudo, mas também de deixar um rasto de dor e de destruição atrás de si.

Dez histórias de amores atribulados, acordos estabelecidos entre reinos, amizades duradouras, contos de fada repletos de glamour e sacrifícios…

Escolhi, e é sem dúvida uma escolha pessoal, dez casais sobre os quais escrever tentando enquadrar a sua história de amor na época, no contexto político e histórico e nos usos e costumes daquele tempo.

A Duquesa de Cadaval escolheu de entre um vasto leque de histórias reais, repletas de dor, angústia, e ligações amorosas, as que mais lhe atraíram o interesse; e, através de uma forma sucinta, soube limitar as suas descrições ao essencial de cada uma, sem delongas ou descrições desnecessárias. Além do mais, possuir a capacidade de condensar um sem fim de informação em poucas páginas, é já de si um feito admirável.

Começamos pelo famoso casal António e Cleópatra. (…) Para esta mulher, o amor, a beleza e o seu corpo foram poderosas ferramentas usadas a seu favor na política. Mas também amou verdadeira e genuinamente Marco António (…) Com ele viveu uma relação tão intensa e tumultuosa como a mais feroz tempestade do deserto (…)

Certamente que uma das histórias mais faladas e representadas, em literatura, teatro e cinema, é a do amor de uma rainha tão poderosa, que embeiçou não apenas um, mas dois romanos nos principais cargos do Império Romano.
Falo claro, da magnífica Cleópatra, a “reencarnação de Ísis na terra” como a própria intitulava ser, e das sua ligações perigosas com o Império Romano.
Mulher de armas, especial artífice, mestre na arte da manipulação e estratégia, não foi de estranhar que capturasse o olhar e carinho do imperador César; mas não seria este o seu grande e devastador amor, mas sim, Marco António, um dos três líderes do maior exército do mundo.
Será a seu lado que desempenhará diversos momentos históricos que mudaram as suas vidas, o Egito e o Império Romano.

Seguimos para a história de amor insano e efémero entre Joana, a Louca, e Filipe, o Belo. Um amor que persistiu para além da morte.

Joana, uma princesa espanhola, filha dos Reis Católicos, vê o seu destino unido ao de Filipe, filho do Imperador do Sacro Império.
Um amor, dito, à primeira vista, convertido numa tormenta para Joana, que assiste desconsolada às traições non-stop do seu esposo, ao passo que dá à luz os herdeiros da Coroa, entre os quais, Carlos V, que viria posteriormente viver uma história de amor com a princesa Isabel de Portugal (história não retratada neste livro).
Este curto e doloroso amor viu-se manchado pelas intrigas, traições e ciúmes, e nem a morte de Filipe impediu Joana de continuar a amá-lo cegamente para a eternidade.

Conhecemos o amor trágico de Ana Bolena e Henrique VIII; por ela, este rei divorciou-se da sua mulher de vinte anos, rompeu com a Igreja Católica, quebrou todas as regras…

Sem dúvida, o tão afamado romance entre Henrique VIII e Ana Bolena foi, literalmente, de cortar a cabeça.
Uma paixão desmedida, leva Henrique VIII a procurar diversos esquemas para se ver livre de Catarina de Aragão, filha dos Reis Católicos, e sua esposa de mais de duas décadas.
Ao ver os seus planos frustrados, Henrique VIII decide tomar uma decisão que vai mudar a Inglaterra como até ao momento se conhecia. Rompe com Roma, e cria a sua própria religião, o Anglicanismo. Mas o seu único propósito é o de cumprir com os seus desejos e casar-se com Ana Bolena, uma jovem que tanto o impressionou que o conduziu a extremos.
Mas um amor começado de forma tão dramática não poderia ter bom fim, e após não obter o tão almejado herdeiro da mulher pela qual mudou tudo, condena Ana à morte.
O amor de Ana por Henrique é tal, que o perdoa até na hora da morte (ato que poderia ser a sua última tentativa em recuperar o amor do Rei), mas o seu destino já estava traçado e Henrique já tinha novo amor.
Fica, então, selada e imortalizada a história de Ana dos Mil Dias, um amor intenso, mas fatídico.

Não menos trágica e tumultuosa é a história da princesa Margot e Henrique, Rei de Navarra. Uma história que começa aos três anos, que cresce num amor genuíno, marcado por afastamento, guerras e sangue e que acaba numa amizade fraternal.

Margarida de Valois e Henrique VI e França, são criados juntos na Corte Francesa, prometidos desde os três anos, o afeto que sentem um pelo outro é inocente e genuíno, mas ver-se-à marcado pela tragédia e por guerras que os levarão a afastamentos.
Com um noivado desfeito, Margot sabe que tem que deixar o seu amor juvenil ir, e cumprir com o seu dever. O que não a impediu de se apaixonar, no entretanto, por Henrique de Guise.
Mas o dever fala mais alto, e todos os esquemas de Catarina de Médicis falham, conduzindo ao plano inicial de casar a sua filha com Henrique de Navarra, o seu primeiro amor.
As Guerras da Religião serão, em grande parte, a suprema razão que os levará a estar em campos opostos, obscurecendo a sua relação e provocando atritos intransponíveis, mas as traições e os enganos irão terminar o seu amor idealizado, deste apenas restará uma serena e inesperada amizade.

Continuamos com a nossa D. Catarina de Bragança, a única portuguesa que foi rainha de Inglaterra, e Carlos II. Um amor não correspondido, que não viria a dar os frutos necessários para garantir a tão desejada sucessão no trono britânico.

Catarina de Bragança casou com Carlos II, uma ligação por poder, como tantas outras, mas certamente esperaria obter mais do que teve.
Vinda de uma corte rígida e austera, nada a terá preparado para a realidade que a esperava na corte do marido, um autêntico local de festas e traições amorosas.
D. Catarina seria até hoje reconhecida pelo bens e costumes que introduziu na corte inglesa, mas a sua vida foi tudo menos benéfica.
Confrontada com os filhos ilegítimos do marido e as paixões às quais ele não se coibia de usufruir, sentia-se muito só e desprezada. O amor que poderá ter pensado ir viver, nunca chegou e as pressões que sofreu foram terríveis.
A falta de herdeiros, seria o ponto apontado para a pressão exercida. Todas as gravidezes de Catarina não chegaram a bom porto, e após cada uma, a sua saúde ficava severamente debilitada. E como se a falta de herdeiro não fosse suficiente, ainda tentaram implicá-la numa conspiração contra o rei.
Porém, é de salvaguardar, no entanto, que apesar de não amar loucamente Catarina, Carlos II nunca cedeu ao Parlamento, negando até ao fim divorciar-se da mulher.
Diz-se que a última palavra saída dos seus lábios, antes de fechar os olhos, terá sido o nome de Catarina.

 

Passamos para uma personagem que já romanceei no passado e que me fascina: D. Maria Francisca de Saboia e os seus dois maridos. Um processo absolutamente escandaloso de separação de um irmão para se casar com o outro, com uma personagem que permaneceu sempre ao seu lado, fiel, companheiro e amigo, Nuno Álvares Pereira de Melo, 1º duque de Cadaval.

D. Maria Francisca e os seus dois maridos: um escandaloso caso que abalou as estruturas de Portugal.
Inicialmente esposa de D. Afonso VI, D. Maria Francisca será uma peça fundamental, e ver-se-à envolvida num arriscado jogo político.
Numa manobra, repleta de conspirações e intrigas, após dois anos numa corte dividida, D. Maria Francisca pede a anulação do seu casamento, alegando que este não foi consumado. Ainda virgem, está então apta para casar com o, outrora, cunhado, D. Pedro, que no entretanto havia deposto D. Afonso VI e tornado-se regente.
Mas a verdadeira história de amor não é entre D. Maria Francisca e os seus esposos, mas sim com o 1º duque de Cadaval.
Um amor, ao que tudo indica, fraternal, cheio de apreço, confiança e devoção, que terá durado inclusive depois da morte da rainha.

Continuamos com uma personagem que os portugueses não simpatizam muito, D.Carlota Joaquina, e o seu marido, o rei D.João VI, sobre os quais tanto se tem escrito. Uma história onde paz e harmonia não são certamente as palavras mais utilizadas para a descrever.

Casada desde os 10 anos com D. João, 8 anos mais velho, Carlota Joaquina ficou a encargo da sogra, D. Maria I, mas a pequena vinha com um aviso, de feitio forte, nada nem ninguém conseguia manobrá-la.
E assim, seguiu Carlota, não obedecia a nada nem ninguém. Quando D. João se consagra rei, Carlota que no entretanto já tinha cumprido com a sua função de assegurar a sucessão à coroa, ambicionava a função suprema de rainha.
Mas eis que D. João não confia na sua jovem esposa e com toda a razão.
Entre conspirações, a ameaça de Napolão, e um retorno a um país alterado, dá-se um golpe denominado “Vila-Francada”, e Carlota é a rainha da jogada.
Após uma aparente reconciliação, dá-se um novo golpe, mas nada será o mesmo.

Passamos para outro casal que também se conheceu na infância, mas que, ao contrário de Carlota e de João, se amaram verdadeiramente. Nicolau, o último czar da Rússia, e o seu amor arrebatador por Alexandra. Lutaram para casar, mas o seu amor estava marcado por um mau presságio.

Apaixonados desde a infância, vêem o seu amor proibido por todos. Considerada pouco para Nicolau, vê na sua própria família entraves para a sua união.
Ao passo que recusa outros pretendentes, Nicolau apaixona-se por uma bailarina.
O pai de Nicolau, após adoecer e vendo a insistência de Nicolau em casar apenas com Alexandra, sabe que a única maneira de salvaguardar o poder é permitir o seu casamento.
Mas tudo começa mal, uma boda seguida de um funeral e uma coroação sangrenta são péssimos prenúncios do que virá e o destino não brinca.
A tragédia bata à porta, e todos são assassinados. Mesmo assim, Nicolau e Alexandra terão o seu amor imortalizado, e a sua família será das mais conhecidas até aos dias de hoje.

Quase a terminar, conto-vos o amor de Eduardo de Inglaterra pela divorciada americana Wallis Simpson. Há amor maior? Maior prova do que abdicar do trono de Inglaterra por amor a uma mulher? Mas também nesta história, o amor mostra-nos as suas esquinas, por vezes demasiado afiadas tal como um diamante em bruto.

Eduardo, herdeiro ao trono de Inglaterra, será o protagonista de uma das histórias mais badaladas e escandalosas da Casa Real Britânica.
Numa festa conhece Wallis Simpson e o seu segundo marido. Impressionado com a inteligência e audacidade, Eduardo cai pelos seus encantos e tornam-se amantes.
Mas quando Eduardo se torna rei, tenta de tudo para ter Wallis a seu lado como legítima esposa e sua rainha, mas os seus planos não seguem como esperava.
Confrontado com a impossibilidade de cumprir os seus desejos, e consciente de que será deposto mais dia menos dia, abdica do trono mas nunca de Wallis.

E fechamos com chave de ouro, com uma história feita com os ingredientes de um filme de Hollywood, entre a maravilhosa Grace Kelly, atriz norte-americana, e o príncipe Rainier do Mónaco. Um amor idílico que nos faz suspirar ao olhar para as magníficas fotos do seu casamento e acreditar nas verdadeiras histórias de amor. Uma atriz que troca a sua carreira em ascensão para desempenhar o maior papel da sua vida.

Chegamos ao conto de fadas. O casamento de sonho entre a lindíssima Grace Kelly, diva de Hitchcock e um galã cobiçado do Mónaco, o príncipe Rainier.
Grace era uma mulher inteligente, independente, alguém que lutou muito pelo que tinha, apesar das importantes ligações familiares.
Detentora de grande beleza, com os atributos descritos anteriormente, era inevitável que captasse a atenção do príncipe.
É durante as gravações de um filme no Mónaco, que o príncipe decide tentar a sua sorte, e a mulher que encontrou era tudo o que esperava.
Após um tempo escondendo a relação, Rainier pede Grace em casamento, e realidade atinge Grace como um bafo de ar frio. A partir daquele momento, teria de deixar a sua carreira para trás.
De entre algumas gravidezes falhadas, terão três filhos: Carolina, Alberto e Stephanie.
É no carro, com a última, que sofre um acidente que lhe ceifa a vida em 1982 e deixa toda a sua família, e o mundo, em choque.
Um final abrupto e triste para tão lindo conto de fadas.


Amor e Poder, de Diana de Cadaval é uma ode aos diversos tipos de amor, e aos espinhos que acompanham essa rosa de nome Amor.
Um livro perfeito para os amantes de História, e de casais emblemáticos que, por bons ou maus motivos, deixaram a sua marca no mundo.



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