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Amplifest

Um fim-de-semana de Doom, Stoner Rock, psicadelismos e sonoridades afins no Hard Club.

Uma mescla de sonoridades manteve o Hard Club ao rubro durante dois dias, naquela que foi a primeira edição do Amplifest, entre 29 e 30 de Outubro. Com uma organização bem estruturada e uma pontualidade executada milimetricamente, foram muitos os que acorreram às duas salas de concertos. Por entre visuais mais ou menos excêntricos, não exclusivamente provenientes de terras lusas, nos corredores respirava-se o ecletismo artístico que o cartaz prometia trazer.

Primeiro dia

A abertura do festival ficou a cargo dos portugueses EAK que, apesar de uma sala ainda pouco composta, desfilaram a competência de palco que lhes é já habitual. Com o álbum “MuzEAK” (2011) na bagagem e liderados pela forte presença do Paulo na voz, a banda de S. João da Madeira demonstrou estar mais do que à altura da tarefa que lhe tinha sido proposta.

Já na sala 2, Suzuki Junzo proporcionou um dos momentos mais etéreos e intimistas destes dois dias. Com uma iluminação completamente psicadélica, este habitante de Tóquio sentou-se no centro do palco munido apenas da sua guitarra. Entre os dedilhados que prendem um público que a pouco e pouco invadiu a sala (em muito pela curiosidade do momento) e os acordes intensos, distorcidos, com um efeito propositado de feedback desconcertante, o seu corpo movimenta-se, impulsionado pela construção melódica e rítmica.

Os espanhóis Cuzo revelaram-se uma das surpresas mais agradáveis a passar pelo Hard Club. Um instrumental Rock de origem psicadélica, com uns laivos espaciais de sintetizador que mereciam uma Raquel Welch a invadir o cenário na pele de Barbarella. O público trauteia as melodias, dança de forma desenfreada. Ouve-se a voz do guitarrista: “Então? Que tal?”. A falta de cerveja em palco deu mote a um improviso entre a bateria e o baixo que gerou o êxtase geral da plateia. Ao mesmo tempo decorria, na outra sala, o filme “Blood Sweat + Vinyl”.

Sungrazer, banda de Maastricht, pratica um Stoner Rock lapidado a psicadelismo. Com algumas músicas novas a fazerem parte do alinhamento trazido ao Amplifest, conseguiram uma sala em total empatia com a sua sonoridade. Entre as miúdas junto à grade que se movimentavam como se possuídas pela música e os curiosos que aguardavam pela hora de Jesu, por certo muitos fãs foram conquistados.

“Três homens e psy-rockzinho instrumental do bom” poderia ser a forma de definir Stearica. Foram 45 minutos que fizeram com que a sala 2 começasse a parecer pequena para o resto de noite que ainda se antevia. E que justificam que esta banda tenha feito o suporte a nomes como Acid Mothers Temple ou Damo Suzuki.

A sala 1 vestia-se de luz vermelha. Algumas lamparinas espalhadas pelo palco soturno. Primeiro uma guitarra. Notas arrastadas, prolongadas no tempo. Depois, a bateria, melancólica. Entram os restantes elementos de Rorcal & Solar Flare. A agressividade de uma construção musical visceral encabeçada por uma voz intensa, proporcionou um concerto de Doom agonizante q.b.

Voltando ao Rock, em boa hora chegou o concerto de Mugstar. Duas guitarras, um sintetizador alucinado e uma bateria são os elementos necessários para que estes senhores consigam um concerto memorável, onde até houve espaço para decifrar uma pequena alegoria a The Cure, entre as teclas em progressão acelerada. Kraut/Psy/Space Rock a ter em atenção.

Chegou uma hora esperada para muitos. O Hardcore possante de Rise and Fall começava a ouvir-se na sala 1, com um Bjorn Dossche inquietante e provocatório. Com álbum novo lançado no presente ano a marcar presença neste concerto, os belgas deram um concerto demolidor. No final, apenas a surpresa de as paredes do Hard Club ainda estarem de pé.

A dupla italiana OvO leva o experimentalismo a um ponto sem retorno. Um percussionista que lembra um lutador de wrestling com certos trejeitos nipónicos e uma guitarrista/vocalista que personifica o cruzamento genético entre uma amazona e um ser alienígena, jorram uma amálgama musical que não poderá ser traduzida em rótulos fáceis e delineados. Se houve quem ficasse mal impressionado com a performance, também houve quem descobrisse em OvO uma nova forma de vista. E de música.

Os tão aguardados Jesu, de Justin Broadrick, actuaram pouco antes da meia-noite. Apesar do manancial de fãs ali presentes e de um concerto até competente, a verdade é que ficou alguma insatisfação no ar de “aquém das expectativas”.
A noite fechou com Drumcorps.

Segundo dia

A tarde começou com L’Enfance Rouge. Avant-Rock coeso, único, a justificar a função de abertura de um segundo dia com Godflesh a encabeçar o cartaz. Quem perdeu este concerto, provavelmente sentiu remorsos. Muitos remorsos. L’Enfance Rouge já foram apelidados de “a melhor banda do planeta” por Mike Patton e certamente fazem jus à afirmação. Na sala 2 era possível visualizar o filme “Soldier of the Road”, centrado em Peter Brötzmann, o extraordinário saxofonista de Free Jazz.

Enablers proporcionaram um dos melhores concertos do evento, não obstante ser o 42º concerto da banda em 42 dias consecutivos. Pete Simonelli está mais do que aí para as curvas: mostrou o que é ter personalidade própria enquanto artista e as suas spoken words fazem verdadeira magia por cima de um instrumental que dinamiza emoções. Se os álbuns são bons (este último, “Blown Realms and Stalled Explosions”, foi o cerne do concerto), ao vivo a banda é ainda melhor.

O Stoner Rock dos Witchburn, vindos de Seattle, invadiu a sala 2. Apesar de algo repetitivo na fórmula, a presença de duas senhoras em palco a liderar as hostes (nomeadamente a guitarrista Mischa Kianne e a vocalista Jamie Nova) levou muita gente a manter-se no espaço até ao final do concerto. Cover de Dio incluída, muitas referências a Black Sabbath e a sensação de acordar com uma garrafa de malte ao lado depois de uma noite de incógnita.

Bardo Pond encheram a sala 1. Rock psicadélico com muito shoegazing à mistura, em grande parte induzido pela voz de Isobel Sollenberger, que levou o público por uma viagem algo esotérica.

É difícil não associar Dirge a bandas como Neurosis ou Ísis. No entanto, os franceses encontraram uma maneira de encaixar detalhes minimalistas em progressões de down-tempos, criando atmosferas muito próprias.

Os Process of Guilt continuam a mostrar que há vida no Doom português. Com “The Circle” lançado este ano a mostrar o amadurecimento da banda, o concerto trazido ao Amplifest deliciou o público presente.

Não é possível traduzir em palavras o momento vivido com os californianos Barn Owl. Duas guitarras e uma voz introduzida timidamente de longe a longe. Uma atmosfera psicadelicamente transcendente, sem pausas. O espaço para respirar fazia-se lentamente entre um dedilhado e uma distorção. As cadeiras disponibilizadas pela organização não foram suficientes para açambarcar com a afluência do público que se acomodou no chão. Pleno êxtase.

Se existissem deuses da trip, teriam o nome de Acid Mothers Temple. Uma “Pink Lady Lemonade” tirada da cartola para lembrar o que a Alice sentiu quando entrou na toca do coelho e uma “Occie Lady” com convulsões enérgicas em palco, converteram muitos incrédulos incautos a esta religião sem grandes palavras. Houve espaço para um solo de flauta soprano e para um vertiginoso solo de baixo de Tsuyama Atsushi. Kawabata Makoto numa guitarra irrequieta e um Higashi Hiroshi que nos faz invejar a energia. Para muitos, o melhor concerto do festival.

Sair de uma sessão de trip music para Orthodox foi difícil. Há que fazer a sintonia na sonoridade e deixar que as guitarras trespassem o corpo e nos envolvam. Os espanhóis centraram-se no novo álbum “Baal”, saído este ano, e o seu Doom acalmou em alguns a ansiedade da iminência de Godflesh, que se preparavam na sala 1.

Se Jesu não convenceu, Broadrick compensou no momento mais aguardado da noite. Uns Godflesh enérgicos, com um som irrepreensível e um baixo a servir de estrela da noite. Dez anos depois de se terem retirado da cena musical, regressam em grande para mostrar que ainda têm muito para dar. O encore com «Crush Your Soul» e «Slateman» fechou a noite com chave de ouro.

Contas feitas, espera-se que esta tenha sido apenas a primeira edição do Amplifest. Ficamos a aguardar (ansiosamente) por mais.

Fotografia por Susana Guedes



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