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A Alice que se olha ao espelho

O auto-retrato em Ana Janeiro

“Who’s the fairest one of All?” – Galeria Paulo Amaro – 09.01.2010 a 27.02.2010

O auto-retrato é um tema recorrente ao longo da história de arte. Muitos artistas procuram representar-se através desta forma, mas porquê essa necessidade? É somente um modo de se aceitarem, ou algo mais?
Ao se expressar utilizando o auto-retrato, o artista procura demonstrar autoridade sobre si e sobre a mensagem que tenta transmitir. Tratar-se-á de uma luta de poder? O artista plástico procura ser dono e senhor da sua criação, sendo criador e criado, Deus de si mesmo, criador de sensações. Podemos ainda ver o auto-retrato como uma maneira de se posicionar, mostrando-se em outras peles e outras vidas. É uma representação de si e uma representação virtual no real.

Um exemplo de uma artista que utiliza este modo de se exprimir é sem dúvida Ana Janeiro, que se coloca recorrentemente como modelo de si mesma.

Com uma exposição patente até ao dia 27 deste mês (na Galeria Paulo Amaro em Lisboa), Ana Janeiro apresenta-nos “Who’s the fairest one of All?”, onde nos propõe um revisitar de histórias infantis que todos conhecemos. A sua intenção é sobretudo procurar entender o papel da mulher e o papel das personagens femininas que apresenta.

Mas o que levará Ana Janeiro a se ‘utilizar’ a si mesma, como parte das suas peças? O que leva o artista a fazê-lo?

O artista necessita de aceitação, de um reconhecimento de todos,  buscando em si o seu Eu mais verdadeiro, o seu íntimo e os seus sentimentos, estudando-os intensivamente. No que respeita aos outros, tem de se demonstrar confiante e seguro, mas somente quer um púlpito para receber os aplausos.

Esse medo da falha, da não aceitação perante o espectador, é fortemente visível no campo do auto-retrato, por ser uma verdadeira prova de aceitação do Eu. São as obras que falam mais directamente do artista. É um livro aberto para o espectador entender melhor o interior do autor da obra, é uma janela para os pensamentos íntimos. Uma plataforma de comunicação entre o Eu artista e o Eu espectador.

Essa necessidade de aceitação é uma tensão interna que precisa ser satisfeita. Já Freud nos falava dessa procura de reconhecimento, mas também nos dizia que no homem é inato a criação de objectos que nos façam esquecer a nossa condição de mortal, o que se reflecte perfeitamente na necessidade de auto-representação. Como Margarida Medeiros nos diz no seu livro “Fotografia e narcisismo: o auto-retrato contemporâneo”, “A representação do outro ou de si surge como manifestação de uma presença no mundo, como ponto de vista sobre esse mundo, mas também como forma de potencialmente o recriar ou restaurar”.

O auto-retrato é uma forma de os artistas se tentarem mostrar eternos, pois todos nós enquanto humanos e animais tentamos deixar o nosso legado nesta realidade. Para um artista deixar um auto-retrato é perpetuar uma assinatura na arte, como forma de mostrar a quem fica como era enquanto artista, como quer ser relembrado, qual a mensagem que queria transmitir. Temos disto referência ao longo de toda a história da arte, como aconteceu, por exemplo, quando Van Eyck escreveu no quadro Retrato dos Esposais do casal Arnolfini, “Jan Van Eyck esteve aqui”, bem no centro de toda a acção.

Então e onde entra a noção de espelho no auto-retrato? Todos comummente pensamos que um auto-retrato precisa daquela clássica imagem do artista a olhar para si, diante do espelho, diante do que ele quer ver de si mesmo. Mas será que no caso de Ana Janeiro, em que o trabalho passa pelo registo fotográfico, encontramos essa mesma ideia de repetição de nós? Todos nós estamos mais do que habituados a olhar-nos diariamente ao espelho e a nos reconhecermos. O mesmo acontece, desde a invenção da fotografia, que nos habituou a ver-nos como se olhássemos para um outro, de fora, e ainda numa posição mais distante do Eu interior. Mas estará lá a noção de espelho?

Pensemos aqui no espelho enquanto a superfície que nos permite mergulhar em nós e no que de mais intimo temos. E sim, está sempre presente. Usando um exemplo muito comum num tema como este que aqui falamos, a Alice e o seu país das maravilhas, começa esse mesmo por ser um espelho, e não mais do que a representação do Eu-Alice privado que se expõe a nós em tom de conto infantil.

A Alice mergulha na sua fantasia, perdendo-se nela mesma e multiplicando as suas auto-representações enquanto anda pelo país das maravilhas. Ora grande, ora a beber chá, todas elas nos mostram uma Alice diferente, nada mais do que o artista faz ao multiplicar o seu Eu pelos inúmeros auto-retratos.
Por isso podemos ver o auto-retrato, também como método de levar a um limite a representação. Criando algo em torno de nós, olhando, esperando respostas, o artista leva a sua ‘arte’ e o seu pensamento mais além, forçando as fronteiras conhecidas para ele e para o mundo.

Ana Janeiro abre-nos a porta para a sua ‘casa’, para o seu espelho habitado de fantasia e das princesas dos contos, todas elas, quem sabe, a representação daquele sonho de menina, o de ela ser a princesa, todas as princesas numa só.



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