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Ana Moura @ Coliseu dos Recreios (25.01.2013)

“Quer o destino que eu não creia no destino e o meu fado é nem ter fado nenhum”

Parece que nem há duas décadas atrás o fado parecia caído no esquecimento, uma forma antiquada e saudosista de sentir Portugal que parecia não ter lugar junto da geração que se tornou adulta depois da revolução de 1974. Apenas os nomes mais perenes do passado se mantinham, sempre a trilhar os mesmos caminhos e sem a capacidade de revitalizar o género. No entanto, permanecia latente esta necessidade de afirmação de identidade através do Fado e eis que tardiamente emerge uma nova geração de fadistas que, não só revigoraram o género, como lhe deram outro sentido e urgência.

Contudo, é ainda com tremendo e desnorteante assombro que se recebe algo como o concerto que Ana Moura deu no Coliseu dos Recreios, sala emblemática escolhida para apresentar o seu quinto álbum de originais, “Desfado”. Ela própria faz questão de cuidadosamente explicar que o título não se trata de uma negação do Fado, mas uma nova forma de o olhar. É precisamente aqui que começa o distanciamento da fadista dos seus restantes contemporâneos. Sem desrespeitar a sua essência e sempre ciente do sangue que lhe corre nas veias – convida nostalgicamente a certa altura para o palco José Elmiro Nunes, um dos músicos que a acompanhava no início de carreira – teve a ousadia de o mostrar de outra forma. E para isso deixou o seu produtor de eleição, Jorge Fernando, e procurou novas sonoridades nos Estados Unidos sob o albergue de Larry Klein, responsável por vários trabalhos de Joni Mitchell, Herbie Hancock e Melody Gardot. Manteve no entanto a sede de (re)descobrir alguns dos melhores compositores portugueses, pertencentes ou não ao mundo do Fado que a acolheu.

O resultado é triunfante e, tal como se pôde constatar com o entusiasmo contagiante de uma casa cheia esta sexta-feira, o público do fado, cada vez mais rejuvenescido, parece finalmente pronto para algo diferente. Não é que Ana Moura abandone completamente o fado tradicional e este foi protagonista de alguns dos mais altos momentos do concerto, tal como «Fado Loucura», o primeiro encore com dedicação a Maria da Fé, a já célebre «Búzios» e a nova «A Fadista». A emotividade com que arrebata cada verso é hoje mais notável e ressonante que nunca, espelho modesto mas arrebatador da maturidade tão segura de uma voz hipnotizante e envolvente.

Apesar de tudo, este não foi um concerto de fado, pelo menos não nos moldes que se esperaria que ele existisse. E antes da música começar a ser tocada e cantada ao vivo já se começava a ouvir pelo Coliseu «Quando o Sol Espreitar de Novo», original de Manel Cruz dos Ornatos Violeta, enquanto o nome da fadista era projectado por luzes numa cortina negra. A teatralidade da encenação da sua própria e paradoxal identidade artística assim começou, com a própria Ana Moura e os seus músicos a irromperem inesperadamente pela gravação que ainda se fazia ecoar.

A formação mostrava-se também ela invulgar e ao trio tradicional – guitarra Portuguesa, viola de fado e baixo – juntavam-se um teclado electrónico e uma bateria de percussão. E todos traziam algo de valoroso e singular ao repertório da fadista, quer ele fosse recente ou clássico, culminando num instrumental arrojado e estrondoso, com solos individuais distribuídos por todos os elementos, antes de Ana Moura regressar para deslumbrar com a eterna «A Case of You» de Joni Mitchell. Mais um desfado, que novamente restabelece a intenção de não perpetuar as regras instauradas e o que já se tornou convenção. Tal como se faz ouvir nessa canção que denominou o disco “Quer o destino que eu não creia no destino e o meu fado é nem ter fado nenhum”.

E assim foi ao longo da noite, pouco e pouco desvendando mais uma deslumbrante peculiaridade e outra experiência que anseia partilhar. Porque, tal como confessou, este passo de realização profissional requereu muita coragem e foi com alívio que percebeu não ter sido em falso mas sim um valoroso grito de afirmação pessoal e de individualidade num género que, por hábito ou medo, ainda não aceita tão abertamente tamanha ousadia. E esta é uma excepção que merece não só ser celebrada mas tida como exemplo. Ana Moura parte em seguida para o Porto e depois para uma extensa digressão pelos Estados Unidos e Europa. Com ela leva um sonho realizado e um novo fado. Alado e sem limites.

Fotografia por Nuno Miguel Gonçalves



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