And God Created the Black Dress – Abril 2013 – Ilustração de Margarida Alfacinha

And god created the black dress #1

Sou uma “pasta” de mim própria

Ilustração de Margarida Alfacinha (mail:375desenhos@gmail.com).

Ando socialmente avariada. Não sei é uma avaria-social-técnica ou uma reacção social-mecânica-temporária mas qualquer coisa está francamente inoperacional na minha opinativa maneira de ser.

Começou com perturbações ligeiras e curtas. Normalmente ocorriam em eventos demasiado frequentados ou com demasiadas pessoas conhecidas. Com o decorrer dos meses acabou por me deixar com uma personalidade de consistência pastosa e com o vigor de um caracol fêmea que herdou recentemente a mobília pesada da avó.

Os sintomas foram-se manifestando erraticamente, até chegar ao ponto em que se exige factualidade e uma análise sociopática profunda. Primeiro sintoma: “Beep Beep” Social, para os mais eruditos, “Road Runner” Social. No famoso desenho animado, o coiote passava a vida atrás do “Beep Beep” (road runner), acabava sempre mal tratado e nunca o apanhava. Bom, um observador atento conclui que o meu recente comportamento em eventos é claramente o de “Beep Beep”, rodeado de uma data de coiotes mascarados para se assemelharem a pessoas que eu conheço. A minha missão passou a ser despistá-los, evitar armadilhas e ser rápida e astuta para evitar ser capturada em qualquer conversa social. Caso o meu plano de fuga falhe, tenho o meu trunfo secreto: “tenho que ir à casa-de-banho”. Já domino a técnica com mestria.

Segundo sintoma: “A Múmia” na multidão. Eu sei que este sintoma pode confundir. As múmias sociais são bastante frequentes e esse facto pode desvirtuar o diagnóstico para a maioria dos casos, mas em mim é sinal de alerta. Normalmente eu corria para pessoas. Queria conhecer a personalidade de cada uma que me suscitava interesse ao ínfimo pormenor. Queria contrariá-las. Provocar qualquer tipo de diálogo polémico para medir a capacidade de esgrimir galhardetes. Portanto, ver-me no meio da sala rodeada de uma dúzia de pessoas peculiares, no meio de conversas interessantes e permanecer completamente muda era fora de personagem. Tenho que admitir que oiço partes da conversa mas a minha cabeça está a lidar com tantos dados internos que não tem capacidade disponível para processar mais informação. Tenho a sensação de que posso contribuir para a conversa e talvez precipitar um aceso debate (os meus preferidos), mas estranhamente, não me apetece.

Terceiro sintoma: Problemas com tecnologias. Este sintoma é dos vergonhosos que posso admitir. É o equivalente a sofrer de flatulência na inteligência emocional. Todos o fazem, zero confirmam. Nunca podemos admitir que “sim, é verdade”: vimos o telefone tocar, vimos perfeitamente quem era mas decidimos não atender. Não é nada pessoal, adoro a pessoa que me ligou mas o motor de arranque social não estava com ar suficiente… talvez mais tarde, ou então alego problemas técnicos com o telemóvel.

Quarto sintoma: Crisálida. Tem-se a sensação que só se está bem envolvido. Envolvido ou amontoado. Mantas, aquecedores, cão, gata, livros, computador, namorado, bolachas… tudo se transforma num único “montinho”. A cama começa a lançar fios de seda para nos manter dentro do casulo; não há nada a fazer para resistir, perguntem ao homem-aranha. Estranhamente, a sensação é oposta à sensação de prisão, é quente, confortável e normalmente vem acompanhada de chocolate.

Quinto sintoma: Demasiados filmes bons. Começamos a querer saber mais sobre um realizador específico e acabamos a ver a lista completa de filmes dele no IMDB. Em semanas, vamos do curioso ao especialista, damos qualificações a performances de actores e até intercalamos filmes norte-americanos de super-heróis para descansar dos filmes europeus. Pelo caminho vemos duas épocas completas da série que acabou há dois dias nos Estados Unidos. Quantos mais vemos, mais descobrimos e acabamos por só conseguir funcionar com dois filmes, no mínimo, por dia, e séries para adormecer. A partir daí é sempre a descer. O artigo mais especial de casa é um boneco colecionável do R2D2 e passamos a fazer piadas super técnicas que divertem sempre os mesmos cinco amigos.

Sexto sintoma: “A cerveja nos bares subiu imenso de preço”. Se há algum ponto positivo na crise, por incrível que pareça, é a facilidade e frontalidade com que nos é possível dizer actualmente “estou nas lonas”. Antigamente era tabu e bas-fond, agora é um luxo permitido a qualquer estrato social. Ser “teso” é ter consciência social e ter dever cívico, sofrer em sociedade. Ai de quem hoje dia admita: “enriqueci com isto tudo.” Vai ser linchado em praça pública ou vai ver a casa assaltada no dia seguinte. A falta de dinheiro está mais ou menos instituída, mas o preço da cerveja subiu menos que o bilhete de cinema ou que o valor de um livro. “Não vou sair hoje, estou sem dinheiro e a cerveja está cara” – ninguém rebate a não ser que diga “deixa lá, pago eu”. Um risco que ninguém quer correr. Segundo a minha experiência, invocar a crise passou a ser o Joker para se poder dizer “não” a um convite sem grandes desculpas e sem parecer mal. Quase supera o argumento Super Joker: “Hoje não saio. Vou ficar em casa a ter sexo a noite toda” ou “nós vamos andando, vamos para casa ter sexo”. Isto poupa-vos qualquer justificação seguinte. Em certos círculos até vos pode poupar convites posteriores… noutros, o número de convites aumenta. Não se rebatem argumentos quando usamos o trunfo sexo e agora também não há nada que “corte” a crise.

Sétimo sintoma: “Acho que estou a ficar doente”. É uma sensação, qualquer coisa de esotérico. Signo, ascendente e a doença que pressentes a chegar. Não tenho “pingo no nariz”, zero de garganta arranhada, temperatura regular mas sinto o bad vibe da gripe. Este pré-estado de doença não obriga a qualquer manifestação sintomática da mesma, só feeling. Começo mesmo a suspeitar que a maior parte dos surtos de gripe são no fundo tentativas globais de permanecer no casulo. Gripe das Galinhas? Claro. Dá jeito. Deitam-se cedo.

Oitavo sintoma: “Estou velha”. Eu raramente estou velha e para ser sincera odeio usar a palavra “velha” em vão. Tenho mais tendência para ficar “velha” às segundas, principalmente depois de um sábado de arromba e vinho verde; dá garantidamente “velhice” no dia seguinte. Conhecendo-me como me conheço, se fosse para freira duvido que passasse dos 25 anos. Por sua vez, se acordar KO ou não me apetecer sair da cama, chego a atingir os 60 anos.

Portanto, não sou sociopata, continuo a ter grandes expectativas na raça humana. Sou tão ou mais opinativa do que era. Domino com mestria o meu telefone e todas as ferramentas sociais ao meu dispor (excepto o twitter que francamente não entendo na essência). Não sou vítima de qualquer tipo de evolução kafkiana. Gosto de filmes mas não sou propriamente uma trendy hipster. Ainda consigo pagar uma cerveja. Não tenho gripe, nem anemia, nem cansaço crónico, não sofro de nenhuma descompensação alimentar nem vitamínica. Estou longe de velha, para ser sincera ainda me sinto uma teenager. Ainda consigo fazer quase todas as funcionalidades de origem com o meu corpo e acho que as primeiras rugas só acentuam o ar de drama e dão carisma extra, seguramente.

Isto só pode ser Inverno.

Inverno é a doença mais desprezada por toda e qualquer medicina e uma das patologias que mais afecta a população globalmente. Não serve como desculpa para praticamente nada e quando tentamos inventar uma desculpa para disfarçar os sintomas toda a gente repara na tentativa e arruinamos a nossa reputação social. Todos sofremos. Sabemos que os outros também sofrem mas não suportamos que alguém o mencione. Se me couber a mim dar o exemplo: aproveitem a vossa hibernação social. Entranhem-se no vosso casulo e aproveitem os últimos cartuchos da apatia. A Primavera está aí a chegar!



Também poderás gostar


Pin It on Pinterest

Share This