André Príncipe

André Príncipe

«É uma história iniciática. Alguém que quer conhecer – o mundo, a si próprio, é a mesma coisa». Conversa com o autor de "Smell of tiger precedes tiger"

André Príncipe nasceu na cidade do Porto em 1976. Estudou Psicologia e Cinema, viveu em Londres e Nova Iorque e, pode dizer-se, viajou um bom bocado antes de fazer de Lisboa a sua cidade base. É fotógrafo e realizador, além de ser também um dos fundadores da Pierre von Kleist editions; editora que, recentemente, lançou o seu “Smell of tiger precedes tiger”, livro que pode ser visto – já que de falamos de imagens – como um caderno de viagens existencialista.

O livro, que partiu de um desejo de escapar e resultou numa viagem feita por terra e água de Lisboa a Tóquio, pode ser lido sem a obrigatoriedade de virar a página numa direcção específica, respeitando a ideia circular de viagem interior. Há bares vazios, quartos de hotel, paisagens urbanas decadentes, desertos imensos, muitas mulheres e uma aura sex, drugs & rock `n`roll. Falámos com André Príncipe sobre a edição de “Smell of tiger precedes tiger”, sempre preparados para fugir não fosse o tigre decidir aparecer.

O desejo de desaparecer de repente será algo comum a todos os mortais. No teu caso, tal assomo foi preenchido com uma viagem por terra e mar até Tóquio. A ideia do livro nasceu antes do arranque?

Mais do que querer desaparecer, eu queria ir para longe, queria afastar-me donde estava. Tóquio pareceu-me um bom sítio, porque podia ir de comboio até Xangai e depois apanhar um barco. A minha prática fotográfica é essencialmente diarística, fotografo sem pensar em livros ou exposições. Neste livro há fotografias que foram feitas antes e depois da viagem, a sítios onde regressei. Não me interessa tanto a viagem física, geográfica ou cronológica, mas mais uma viagem mental.

Foi uma viagem solitária?

Fiz a viagem sozinho – é a melhor maneira de viajar – mas não estive sempre sozinho. Quem viaja só tem uma energia propícia a encontros e o livro é feito tanto de solidão, como de encontros.

Que adjectivos – ou que frase – utilizarias para descrever cada uma das cidades por que passaste?

Nunca faria isso. Não me lembro de todas as cidades por onde passei, e não me interessa descrever coisas. Procuro experiências. Não fazer experiências, mas ter experiências. Que experiências? Não sei, depende do sítio.

André Príncipe

Que história queres contar este “The smell of tiger precedes tiger”?

É uma história iniciática. Alguém que quer conhecer; o mundo, a si próprio, é a mesma coisa.

O livro parece transmitir a ideia de um urbanismo decadente, quer através de prédios com muito de fealdade – ou apertados como cogumelos selvagens – ou terrenos baldios desoladores. Concordas ou vês neste arranjo urbano laivos de encantamento?

Concordo. No livro há um mau-estar nas cidades, quer nas europeias, quer nas asiáticas. É o mau-estar da habituação, das rotinas, dos vícios. E é esse mau-estar que cria a vontade de sair, de ir para longe.

Parece existir aqui uma apologia – ou pelo menos a recriação – do célebre triângulo “sex, drugs & rock `n`roll”, uma espécie de “On the road” de Lisboa a Tóquio. Será verdade?

Não sei, onde é que se ouve rock no livro? Ou jazz? Se o triângulo de que falas corresponde a um desejo de liberdade, sim. Se corresponde a um ideal de vida puramente hedonista, não. Para mim o “On the road” é um livro espiritual, quase religioso.

Há muitos rostos e corpos bonitos, como se através da lente procurasses descobrir a tua Cinderela. Encontraste-a?

Talvez. Mas o que é bonito ou feio?

André Príncipe

Há animais vivos e empalhados, mas o tigre nem vê-lo. Será ele a representação do inatingível? Ou o objectivo da viagem foi cumprido?

O objectivo da viagem é viajar. O cheiro do tigre precede o tigre. Há quem não acredite nele, há quem não o veja, há quem o veja, e há quem sinta o seu cheiro antes de o ver.



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