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Andrew Bird

Um novo voo do homem-pássaro.

Está de regresso marcado para breve, mas há quase uma década que as suas melodias serpenteantes e inclassificáveis se insinuam aos nossos ouvidos. O compositor de Chicago prepara-se para maravilhar de novo o público português com os trunfos que tornam as suas canções marcantes: o engenho da palavra, o encanto do assobio e o virtuosismo do violino.

Desde os tempos dos Bowl of Fire (activos de 1999 a 2002) que encontramos a recorrente miscigenação de influências que, dando um cunho tão pessoal às composições de Andrew Bird, as colocam numa “terra de ninguém” algo incómoda para a crítica, sempre que é necessário agrupá-las e organizá-las no cardápio da oferta musical contemporânea. Havia então – como na carreira futura – elementos reconhecíveis das swing bands locais, de folk, de música cigana, rock e da tradição erudita ocidental implicados na fórmula, mas o resultado tinha um alcance maior do que a mera soma das partes.

Porém, se era possível no seu primeiro projecto encontrar um espaço de parentesco dentro da grande tendência dos revivalismos, logo que se registou uma viragem para um percurso a solo perdeu-se até mesmo a âncora do gosto pelo retrospectivo para se entrar num universo tanto mais hermético quanto intrigante.

Comecemos pela estaca zero: quando se dá a cisão dos Bowl of Fire em 2002, este nativo do Midwest sente necessidade de um processo de introspecção e afastamento do caos citadino de modo a repensar a sua música. Para tal, durante três anos, passa a habitar um celeiro adaptado a estúdio, no meio da paisagem campestre do Illinois, onde encontra toda a tranquilidade e espaço para neutralizar o “ruído do mundo” e deixar sair aquele que lhe povoa a mente.

O processo revelou-se frutífero, e a voragem criativa de Bird coincide precisamente com esta mudança de estilo de vida: o EP de 2002, “Fingerlings”, viria a anunciar uma alteração definitiva de rumo traçada a partir do álbum “Weather Systems”, do ano seguinte.

De então até agora, um crescente reconhecimento público – com o seu primeiro auge em 2005, ano de “The Mysterious Production of Eggs” – e tournées mundiais longas e aclamadas. Ligações a editoras de selo indie (caso de Righteous Babe, fundada por Ani DiFranco e Fat Possum, sob cuja chancela é editado “Armchair Apochryphia”, de 2007) convivem com estruturas compositivas equidistantes entre o experimentalismo e o classicismo. A voz, frequentemente comparada à de trovadores modernos como Nick Drake ou Jeff Buckley, entoa frases de sentido mais obscuro, enveredando muitas vezes por explorações que privilegiam mais o valor eufónico das sílabas em detrimento da ortodoxia gramatical. Tudo em prol de um maior impacto emocional, que nos guia, às cegas, pelo território do não-inteligível.

Temos, até aqui, elementos que poderiam ser comuns a qualquer um dos seus lançamentos posteriores a 2003. O que esperar, então, do Bird de 2009?

Desde o início do ano que está nas lojas “Noble Beast”, mais uma edição da Fat Possum. Contrariamente ao seu predecessor, ao qual muitos apontavam um certo fechamento nos maneirismos orquestrais – velando, em certa medida, a eficácia Pop que é procurada – existe uma contenção ascética que não é incompatível com a riqueza melódica.

Mantêm-se as referências aos locais e culturas com que contacta durante as viagens, reflexo do seu gosto pela História, que tinge de tonalidades épicas algumas das suas canções. É o caso, por exemplo, de «Tenouosness», que refere a forte impressão que nele deixaram os contrastes existentes dentro do nosso país, fruto de anteriores visitas: “from proto-Sanskrit Minoans to Porto-centric Lisboans”.

A profusão de realidades convocadas na letra não ofusca, porém, a candura omnipresente no imaginário do homem que assume (veja-se a sua crónica “Words Will Tell”, no New York Times) a profissão de sonhador como tarefa a tempo inteiro. Mesmo quando o tema abordado não é luminoso – como em «Oh No», devaneio à volta do som dum choro de criança ouvido num avião – o resultado pouco se afasta da harmonia pastoral e cálida que percorre, com uma candura primaveril, todo o álbum.

Talvez resida no seu isolamento deliberado (transportado para a sua lírica em canções como «Effigy», onde se retrata enquanto “a man who’s spent a little too much time alone”) o segredo para a sua Pop inquieta, fragmentada. Com temperos que vão do prog-rock ao tropicalismo (atente-se a divagação sci-fi «Not a Robot, But a Ghost»”), sem esquecer a incursão no território instrumental com o apoio de Martin Dosh (seu parceiro frequente e colaborador no cd-bónus “Useless Creatures”), esperamo-lo para desvendar, camada a camada, e sem categorias que nos estreitem os horizontes, a sua arqueologia musical. O segredo é deixarmo-nos guiar por alguma das suas três vozes – a que nasce nas cordas vocais, a que descobre às cordas do violino ou o omnipresente assobio – e construir a nossa própria experiência. Os loops e a banda de apoio (formada por Jeremy Ylvisaker e Mike Lewis, além do já referido Dosh) fazem o resto do trabalho.

Depois de duas passagens marcantes pelo nosso país em 2005 e 2007, a oportunidade de rever o homem-pássaro e a respectiva trupe ao vivo é-nos dada já este mês. São dois concertos absolutamente a não perder: a 25 de Maio no Cinema São Jorge, em Lisboa, e na noite seguinte no Theatro Circo de Braga.



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