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Andrew Bird @ São Jorge

24 de Maio. Lições de voo a solo.

Cinema São Jorge, 24 de Maio de 2009. No coração de Lisboa, uma sala repleta de admiradores espera a aterragem em palco de Andrew Bird, um dos mais inclassificáveis e inspirados filhos do Illinois. Não se trata de mera curiosidade quando no seu currículo se registam outras duas passagens pela cidade (em 2005 e 2007, esta última com actuação na mesma sala da Avenida da Liberdade) e dois álbuns aplaudidos pela crítica, “The Mysterious Production of Eggs” e “Armachair Apochryphia”. Pode falar-se já de um fenómeno de culto.

Desta vez na bagagem viria “Noble Beast”, o disco do início deste ano que lhe tem valido uma nova fornada de elogios e retoma a ambiência primaveril e solarenga que encontramos em “The Mysterious Production of Eggs”. Mas o alinhamento, como todo o espectáculo, revelar-se-ia mais do que uma reposição cénica daquilo que escutamos nas gravações.

Esquálido e desalinhado, o homem que escolheu como segundo nome o de uma ave não poderia ser uma melhor encarnação do espírito etéreo e críptico das suas canções. Mais do que músico no sentido convencional do termo – um intérprete e instrumentista – encontramos um personagem que se (con)funde com o seu próprio imaginário.

A apresentação despretensiosa (“Hello, my name is Andrew and I’m from Chicago”) empresta um encanto especial à presença solitária, descalça e despojada do casaco de tweed que se divide entre os pedais de loops, o omnipresente violino, o assobio e um timbre vocal irrepreensível.

Logo a seguir a um prelúdio instrumental, apercebemo-nos da pertinência da cenografia singela a que se recorreu – uma grafonola bicéfala girando sobre si mesma em segundo plano, o estojo do violino e um xilofone mais à frente, ladeando o solista. A entrega com que extrai do instrumento de cordas uma profusão assombrosa de melodias contrabalança a sobriedade do aparato cénico. Dispensa, portanto, artifícios para além daqueles que são forjados pelas mãos do homem-pássaro.

A sua criatividade transbordante, por vezes intrincada – perceptível em canções fusionais como “Sweet Matter”, feita com excertos de “Sweet Breads” e “Dark Matter”, canções que confidenciou terem nascido de sonhos – não lhe subtrai a afabilidade que está na origem da história de amor entre o nativo do Midwest e o público português.

Entre temas plácidos e magistralmente interpretados, como o mais antigo “Plasticities” (onde brilha o encanto do xilofone) ou os recentes “Oh No”, “Natural Disaster” e “Effigy”, Bird tece elogios à hospitalidade lusa com uma timidez que encerra em si toda a veracidade da revelação.

Como argumento contundente para confirmar aos mais cépticos a reciprocidade deste afecto existe sempre a belíssima “Tenuousness”, incubada após uma das anteriores visitas a Lisboa, que é citada na própria letra e desfilou pelo auditório do São Jorge com uma emoção redobrada. Nem o cansaço da viagem de autocarro de Madrid, nem os pesadelos com zombies que confessou assolarem o seu sono esmorecem o entusiasmo.

Mas nem só de momentos de candura bucólica se fez a apresentação. “Giant of Illinois”, a canção que compôs para a colectânea Dark Was The Night introduziu alguma pompa festiva, que se prolongou com “Imitosis”, a tema de Armchair Apochrypia. O ingrediente de teatralidade sarcástica e bluesy veio com “Why?”, a canção do já longínquo The Swimming Hour (disco de 2001), da qual diz nunca se cansar.

Mais uma vez, os sentimentos são mútuos. Uma grande ovação devolve-o ao palco para o primeiro encore, que nos traz um Bird com algumas saudades de casa e, por isso, a recuperar uma canção dos tempos dos Bowl of Fire, “Some of These Days”, de intenso sabor country e em versão unplugged. A dose não foi suficiente para a legião de admiradores seduzidos pela ternura do gesto, e rendeu mais um longo aplauso que culminou em “Weather Systems”, mais uma canção repescada do passado directamente para os tímpanos do público de Lisboa.

Não é ao acaso que esta, apesar da primeira de três datas, foi marcada mais tarde como resposta à grande procura que os bilhetes vieram a ter. É antes um sintoma de que muitos corações palpitam em uníssono com pizzicato do seu violino, e de que a o elo que nos liga a esta ave da América profunda continuará a fortalecer-se a cada nova visita.



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