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Andrew Thorn

Sem overdubs e com Tricky e Björk como padrinhos.

“Brutes on the Quiet” é o EP que marca a estreia do novo projecto de JP Coimbra (Mesa, Bandemónio, Três Tristes Tigres). Andrew Thorn é o heterónimo do músico do Porto, “mais pessoal” e cantado em Inglês. Mas porquê só agora o lançamento deste projecto? Fomos ao encontro de Coimbra e (quase) todas as dúvidas ficaram esclarecidas.

(Aviso prévio: esqueçam que já o viram com o Pedro Abrunhosa (!) nos Bandemónio, esqueçam-no com a bela Mónica Ferraz nos Mesa. Andrew Thorn não é isto. Ou melhor, é isto, mas diferente. É ele, mas em “heterónimo”. Ou: “é como se fosse um insuflável que tu enches em palco e depois, quando acaba o concerto, metes no saco e vais embora”. Impossível arranjar melhor definição.

Encontrar alguém numa esplanada num final de tarde de Verão, quando a única referência é uma camisola preta, pode não ser coisa fácil. Vamos por partes: excluímos os casais ou as famílias, ele veio sozinho… Já está! Passo seguinte: excluímos as camisolas vermelhas, amarelas, azuis… Ok! Sobram duas camisolas pretas em tronco masculino. Qual aquele que tem mais pinta de músico? Vamos “ao calhas”. “Não foi fácil encontrar-te!”, atiro. Sorri. Percebo que acertei na aposta (e agora posso apostar no euromilhões, eu, que nunca ganhei nada, finalmente vejo uma luz ao fundo do túnel).

“Desculpa, a sala onde querias gravar [com menos barulho, mais afastada de olhares indiscretos] está fechada”, diz.

“Não faz mal, incomoda-te que gravemos aqui, na esplanada?”, pergunto.

“Pode ser!”, anui.

De anónimo passa a motivo de curiosidade – e tudo graças a um pequeno gravador, que tento esconder entre a chávena de leite com café e a torrada que tardou a chegar. “- São sempre assim tão demorados?” – Há uma resposta óbvia: estamos na mais movimentada esplanada da cidade de Braga, em pleno Verão.

Início: 2007

Poucos saberão, na esplanada, que ele é a face escondida por trás de um dos EP’s mais estimulantes lançados no último mês. Serão poucos que conhecerão a sua cara de outros projectos musicais. Ele é João Pedro Coimbra, o músico que correu o país com os Bandemónio de Pedro Abrunhosa, “numa digressão com cento e tal datas num ano”, nos anos 90. O JP Coimbra que teve a brilhante ideia de dar à música nacional uma voz tão melódica como a de Mónica Ferraz e de criar um grupo com nome de objecto lá de casa (Mesa). O Andrew Thorn que deu à estampa, agora, um macaquinho com corninhos e que lhe chamou “Brutes on the Quiet” (é a figura que ilustra a capa do disco).

“O projecto começou a tomar forma em 2007; eram temas que ia fazendo e não cabiam nos projectos em que estava, como os Mesa. Foi necessário criar um projecto para colocar essas músicas”, explica. Nada de histórias mirabolantes, nada de excitantes encontros e desencontros, uma história simples e sem floreados.

“Depois chamei algumas pessoas, como o Jorge [Coelho] e o Miguel [Ramos] para ouvirem, eles gostaram bastante, chamei o Jorge Queijo, começamos a ensaiar e fizemos alguns concertos, muito low profile, para testar as músicas e ver a reacção das pessoas”. Ficaram surpreendidos com a receptividade e, como mandam as regras, em equipa vencedora não se mexe. São estes, ainda hoje, os seus cúmplices musicais. “Sim, o Jorge Coelho na guitarra, o Miguel Ramos no baixo e o Jorge Queijo, com o qual nunca tinha colaborado”.

Disco mais acústico

A música de Andrew Thorn nada tem a ver com a música dos Mesa. E a culpa não é nossa, é dele: “Se existem pontos comuns eu não os consigo ver. Aliás, só fazia sentido lançar um projecto novo se fosse diferente daquilo que tinha vindo a fazer e desde logo, em termos instrumentais, o disco é completamente acústico, não há quase electrónica”, revela.

Mas há sintetizadores. “Mas não podes considerar aquilo electrónica, no sentido em que tens a programação, uma coisa desenvolvida em computador”. Explica: “recorremos ao formato antigo de teres uma banda na sala de ensaios a gravar, não houve sequer overdubs de guitarra, baixo ou bateria”. Aceitamos o argumento, não lhe falamos mais de electrónica. “São temas muito acústicos e rudes, o conceito da produção é não ter produção”.

Assim, resultado final (ou provisório, já que o primeiro longa-duração sai em 2010): cinco temas, quatro originais, «Me Jane», «Wall of Steel», «Strip Machine», «Can’t Blame You»; uma versão, «Overcome», de Tricky; uma capa enigmática e um título ainda mais nebuloso (já lá vamos).

“A versão do Tricky surgiu um pouco por acaso. Estava a brincar com um teclado antigo que tenho em casa e surgiram os acordes que me fizeram lembrar desse tema”. Et voilá.

Acrescenta: “Tricky foi muito importante no início da minha carreira musical…”

[somos momentâneamente interrompidos pelo pousar ruidoso da bandeja. “Paga junto ou separado?”, “Tudo junto!” respondo, “2,95 euros, por favor”, estamos no Verão de 2009 em pleno centro de Braga].

Retomamos: “a primeira metade dos anos 90 foi muito interessante, não só Tricky, mas o aparecimento de Björk, com “Debut” [1993], os Portishead, um bocadinho mais antigos, são coisas que nos marcam, não nos esquecemos delas”.

Heterónimo de Coimbra

Andrew ou JP? É tempo de esclarecermos. “Thorn funciona como heterónimo… [pausa, novo trago na chávena meia-vazia/meia-cheia de leite com café]. Achei que fazia sentido criar um personagem inglês ou norte-americano já que as coisas são cantadas em Inglês”, sintetiza. E quem é ele? “[risos] Isso está dentro das letras, é difícil de explicar. [nova pausa] Quer dizer, sou eu incarnado naquele personagem em palco. Acho que é um personagem que só se revela em palco”. É o tal insuflável, de que falávamos acima. “É como se fosse um insuflável que tu enches em palco e depois, quando acaba o concerto, metes no saco e vais embora (risos)”.

Há uma explicação lógica para isso. “Saio sempre da zona de conforto e tento explorar-me e atirar-me para a frente de coisas para as quais não estou, à partida, preparado. Isto resume um pouco a minha maneira de viver a música. Não quero ficar à espera que me cresça a barriga e viver à custa daquilo que tenho”, conclui.

EP com distribuição internacional

O EP, lançado no dia 20 de Julho, chama-se “Brutes on the Quiet”, designação “retirada de uma peça radiofónica do Dylan Thomas, que fez para a BBC, onde, a certa altura, há um diálogo entre mulheres e elas dizem que os homens são animais que agem pela calada. Eu achei piada porque, no fundo, o projecto foi criado na penumbra, sem grande espalhafato ou alarido. Quisemos fazer as coisas de forma calma, despreocupada”.

O “macaquinho com cornos” é da responsabilidade de James Marsh, “achou irónico colocar o macaco, um animal super-simpático, nada maléfico, com uns cornos [os cornos do macaco são dois espinhos]. Acho que a capa ficou mesmo muito interessante”, elucida JP Coimbra.

Mas as supresas não se ficam por aí. “Dentro do EP há ainda uma nota musical, uma colcheia, em que a perna é também um espinho. Preocupo-me bastante com a parte gráfica, gosto de ver os discos e apalpar o material”, daí a opção por ter editado fisicamente este trabalho, que tem já distribuição internacional garantida. “Digitalmente está na Amazon”, revela, “vai estar no iTunes, terá distribuição através do Tom Sarig, manager de Lou Reed”, Cake e Blonde Redhead, o que o pode levar a abrir concertos de grupos famosos. E depois da indecisão, a certeza.

“Gostava muito de fazer as primeiras partes dos The National, gostei muito do concerto deles na Aula Magna”. Nova indecisão. E nova certeza. “Olha, pá, qualquer banda do Canadá, acho que o Canadá está muito interessante e seria uma boa escolha para abrir concertos”. Mas enquanto isso não chega, actua no próximo dia 29 de Agosto, nas Noites Ritual, no Porto. O primeiro grande teste de Andrew Thorn ao vivo.



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