Androginia Cool

Androginia Cool

Há quem nasça tipo folha de papel em branco, no que respeita à fisionomia. Se numa mulher se esperam curvas, lábios bem desenhados, sobrancelhas finas e maxilares estreitos, nos homens reconhecem-se as ancas direitas, o peito liso ou a barba rija

Tudo isto listado por nós, humanidade, e atribuído a cada um dos lados, à procura de pilares. No mundo real, há muita boa gente com um corpo que não é nem especialmente feminino nem masculino, e depois há os fatos, as gravatas, as calças largas, as camisas XXL, os bonés, as botas de tropa e os saltos altos, os vestidos, os soutiens, o batom – um mundo de atalhos para apaziguar o senso comum ou baralhá-lo e abraçar a androginia.

No século dezanove algumas mulheres tiraram partido desta ambivalência e viveram uma vida inteira como homens por ser essa a única forma de chegarem a médicas, engenheiras, ou de se alistarem no exército. Nos anos 20 cortaram o cabelo para serem levadas a sério, nos 30 e 40 vestiram calças porque eram necessárias ao esforço de guerra ou porque as distinguia, como Marlene Dietrich e Greta Garbo, e nos 60 para lutarem pela liberdade e pela igualdade dos sexos. Nos anos 80 adoptaram os ombros largos e o power dressing como afirmação da conquista de um lugar no mundo dos homens e hoje fazem-no porque carrega toda esta história, porque é confortável, porque podem e porque a androginia desperta ainda um misto de estranheza e de fascínio e pode ser, espantem-se, incrivelmente sexy.

Para as mulheres já não se trata apenas de colecções de inspiração masculina mas também de usar peças directamente do armário do namorado ou da secção de homem: jeans, shirt, sweater e sapatos masculinos são básicos do guarda-roupa feminino e não uma manifestação de orientação sexual mas de rebeldia, de individualidade, de poder, de “estou-me perfeitamente nas tintas para o que tu pensas que eu devo vestir”. Desenganem-se aqueles que pensam que a miúda de calças masculinamente largas e cabelo curto só pode ser lésbica ou que o rapaz de calças efeminadamente justas e decote indecente só pode ser gay. É o mundo às avessas minha gente, e a moda não podia estar mais feliz.

Desde 2011, o velho fascínio da moda pela androginia tem vindo a ressurgir, em moldes cada vez mais provocadores. Primeiro foi Andrej Pejic, um modelo bósnio com um metro e oitenta e oito que foi noiva no desfile Primavera/Verão de Jean Paul Gaultier e cara (ou peito) de um anúncio a um soutien push-up. Hoje temos a manequim Casey Legler (que nasceu não só com traços andróginos mas também com uma falha entre os dentes – duas garantias de sucesso na indústria da moda nos dias que correm) a trabalhar exclusivamente como modelo masculina, e Saskia de Braw, modelo top da classe feminina que acabou de ser escolhida para promover a primeira colecção masculina de Hedi Slimane para a Saint Laurent. Entretanto, uma parte considerável das peças que vemos nas lojas são cópias fiéis de básicos tipicamente masculinos e o termo boyfriend-qualquer-coisa nunca foi tão usado em revistas e blogs de moda.

Se ainda não tens um sobretudo masculino, um par de brogues ou umas Levi’s 501 importadas dos anos 90 para se juntares à festa, não esperes mais. Duas regras: não vistas tudo ao mesmo tempo e equilibra com peças mais justas (óptimo para mostrar aquilo que mais gostas em ti e disfarçar o que não gostas tanto). Em caso de dúvida, recorre ao batom escarlate.



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