09 Catarina Carvalho PRIORITARIA

Aníbal Zola | Entrevista

"Eu acho que para se ser músico é preciso ter um enorme amor por este acto de produzir som, de excitar os nossos próprios ouvidos, é daí que vem a personalidade, por isso acho que todos os músicos devem conseguir estar felizes e à vontade a tocar sozinhos."

São tempos complexos aqueles que vivemos. Partilhar o espaço com o próximo tornou-se uma raridade. Todos somos afectados por isso de uma maneira ou de outra e os músicos não são nenhuma excepção. Mas isso não é um motivo para ficar em casa de braços cruzados a fazer contas à vida. Eis Aníbal Zola em discurso directo, sobre a pessoa, o músico, “amortempo” e a realidade que nos rodeia e com a qual estamos a aprender a coexistir.

Quem é o Aníbal Beirão?

Um rapaz do Porto, contrabaixista e cantautor. Primeiro cantor e depois instrumentista como qualquer músico, mas muito mais instrumentista que cantor. Apaixonou-se pelas canções com vinte e poucos anos e desde aí tem dado tudo o que tem nesta coisa de as escrever e apresentar ao vivo.

E o Zola? Já agora aproveito também para perguntar: de onde veio a inspiração para o nome?

Durante algum tempo usei apenas Aníbal como nome artístico e estava contente com isso, achava piada ao facto de tirar algum do peso que este nome possa ter. No entanto, comecei a sentir que as pessoas tinham dificuldades em encontrar-me online, pelo facto de existirem bastantes artistas com este nome artístico. Comecei então a achar que precisava de alguma coisa distinta. Sentindo Aníbal Beirão um nome muito pesado, além de ser também o nome do meu pai, decidi então procurar um apelido que fizesse sentido comigo e com a música que faço e que de alguma forma tornasse o nome internacional. Descobri este nome que é utilizado em Itália, França, países africanos, países anglosaxónicos (nome próprio feminino) etc.. que tem um significado relacionado com calma, com paz e com ligação à terra. Por fim, o facto da minha musica ter algo de sul americano, do Brasil à Argentina ou Cuba, achei graça à possível relação com Astor Piazzola. De notar que Aníbal é um nome Cartaginês, um nome mediterrâneo e Zola é um nome comum nesta zona, segundo percebi. No fim de todas estas justificações o que realmente interessa é se o nome me soa bem e me parece esteticamente interessante quando o vejo escrito, isso continua a acontecer-me e agora se alguém escrever Aníbal Zola no google ou qualquer outra plataforma só apareço eu.

Engraçado que ouvi primeiro o novo álbum e a primeira coisa que me saltou à vista (e ao ouvido), foi a forma como usas a voz como um instrumento. Depois quando fui ler um pouco sobre ti isso surgiu referido explicitamente. Fala-nos um pouco sobre isso.

Vou tomar isso como um elogio (N. do A.: é!) à minha performance vocal, então agradeço. Quando escrevi isso teve a ver com uma espécie de justificação para aparecer a cantar, coisa que não seria normal em mim no passado uma vez que eu sou baixista / contrabaixista, é fundamentalmente assim que as pessoas me conhecem. Foi há relativamente pouco tempo que eu comecei a “sair da caixa” e comecei a cantar em público, coisas minhas e versões sendo que tenho evoluindo muito nos últimos anos neste particular. Eu sou muito mais um cantautor do que um cantor, ou seja, eu comecei a cantar porque comecei aescrever canções e então passou a ser necessário utilizar a voz para essas composições ganharem vida. Ao contrário de outros artistas que são muito mais intérpretes do que cantautores, se bem que eu também tenho um “pézinho” na interpretação, quem me conhece já me ouviu cantar uma data de canções de outros músicos, principalmente MPB mas também algumas coisas portuguesas e anglosaxónicas. Concluindo, nunca quis fazer “batota” com esta coisa de usar a voz como instrumento musical sem ter passado por um processo académico como muita gente passa, eu dou muito valor a isso e acho que as pessoas deviam até dar mais valor do que dão sinceramente. No entanto, é mais forte do que eu, preciso mesmo de cantar, faz parte de mim. Além de que eu tenho ouvidos, consigo ser crítico de mim mesmo e no limite, isso é o que mais interessa, estar satisfeito com o meu trabalho, com a minha performance.

Amor, Morte e o Tempo, aquele que segue imparável e não aquele que nos aquece, arrefece ou nos molha, resultaram em “Amortempo”. Como surgiu essa ideia?

Curioso referirem isso uma vez que já houve muitas referências ao tempo como meteorologia na minha música no passado. É também curioso pensar que à medida que os anos vão passando e o meu repertório vai crescendo começa a ser possível analisar e perceber onde me estou a repetir e quais são os elementos característicos. Acho que no passado já tinha usado o “tempo do relógio” como assunto em alguma música, não é algo novo. O tempo sempre lá esteve, o amor também, a morte talvez seja mais recente. Mas pensando nisto mais profundamente acho que são três temas que estão basicamente em todo o lado, ou seja, eu no fundo fiz “batota” porque escolhi um título que engloba todo o tipo de linguagem sensorial, filosófica ou poética. Por exemplo, a música “Mar profundo” fala mais de esperança do que qualquer outra coisa no entanto, é preciso tempo para ter esperança. Dá sempre para dar a volta, para vos enganar a todos.

Respondendo à pergunta, a ideia surgiu quando eu senti a necessidade de pensar em que raio andava eu a falar nas minhas canções, quando senti a necessidade de sintetizar as minhas letras de alguma maneira. A morte escondida entre o amor e o tempo foi ideia do Diogo Carvalho, um amigo muito talentoso.

Integras uma séries de projectos. Carol Mello, Lei Saint Armand, Projecto Ferver e Palankalma, para além de Aníbal Zola, está claro. São complementos uns dos outros?

Como referi anteriormente, eu sou muito mais contrabaixista do que cantor / cantautor, sendo assim, sou bastante requisitado para essa função. Eu sinto que como em qualquer outra atividade, quanto mais música conhecemos e tocamos mais recursos temos e mais abrangente é a nossa visão das coisas. No fundo é aquela ideia de que para poder quebrar as leis é preciso conhecê-las profundamente. Digo isto porque eu lembro-me das minhas primeiras canções e o problema maior que eu sentia era não ter a certeza se aquilo tinha valor ou não, para mim tinha e para algumas pessoas a quem eu mostrava também mas até que ponto aquilo era válido artisticamente. Eu não tinha crédito suficiente para me autocriticar, no fundo. Neste sentido, para mim é fundamental todo o trabalho que eu desenvolvo com todos os outros projectos, toda a música que eu toco é uma aprendizagem, todas as conversas sobre música e até outros assuntos que eu tenho com as pessoas com quem trabalho são fundamentais para o meu processo criativo. Portanto sim, são complementares.

Quando estiveres a responder a estas questões já actuaste perante uma sala vazia, fruto de um conjunto de circunstâncias muito especiais. Qual a sensação?

Estás a referir-te ao concerto em live streaming que dei no CLAV no passado dia 13 de Março. Foi uma sensação muito estranha sem dúvida principalmente porque é quando se partilha a música com outras pessoas que esta ganha vida própria. Ali estava a ganhar vida porque eu tinha público (talvez o maior público que já tive) mas este não reagia à minha performance. No entanto, eu acho que para se ser músico é preciso ter um enorme amor por este acto de produzir som, de excitar os nossos próprios ouvidos, é daí que vem a personalidade, por isso acho que todos os músicos devem conseguir estar felizes e à vontade a tocar sozinhos. Tendo isto em conta, acho este formato de live streaming muito interessante.

Os próximos tempos serão ainda mais desafiantes para uma classe que já enfrenta constantes dificuldades, como é o caso da dos músicos. Tens planos para fazer frente ao que se avizinha?

Tenho bastantes planos felizmente. Estou outra vez muito motivado para compor, vou principalmente aproveitar este tempo para me ouvir e procurar o que me está a dar “pica” neste momento. Para isso preciso não só de me agarrar aos instrumentos e à escrita mas também à leitura e audição de música fresca para mim. À parte disto estou também envolvido na iniciativa “Play it Safe” através da qual darei um concerto em live streaming a partir de minha casa numa data a ser anunciada em breve. Estou também a planear juntar um grupo de pessoas interessadas em ter umas aulas de formação musical via skype comigo. Quero também passar tempo a não fazer nada, aproveitar o cinema e os momentos com a minha namorada.

Podem (e devem descobrir) “amortempo” nas plataformas digitais.



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